O que está em jogo

Publicação: 2020-11-28 00:00:00
Ivan Maciel de Andrade                                                                                                            
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

O norte-americano Noam Chomsky, filósofo, cientista cognitivo, considerado “pai da linguística moderna”, publicou recentemente (2020) um livro que tem como título “Internacionalismo ou extinção – Reflexões sobre as grandes ameaças à existência humana”. A edição brasileira foi acrescida de uma entrevista, a título de prefácio, concedida por Chomsky em 28 de março deste ano sobre o tema “Coronavírus – O que está em jogo?”. O entrevistador foi o filósofo croata Srecko Horvat. A questão central, desafiadora, que motivou a entrevista diz respeito à possibilidade de se extrair algo de bom da catástrofe da pandemia. Por exemplo, uma real mudança quanto ao “tipo de mundo que queremos”.

Chomsky faz uma pergunta aparentemente despropositada: “Por que está havendo uma crise de coronavírus?”. E explica que há muito tempo já é do conhecimento de governantes e de cientistas a probabilidade de ocorrência de pandemias. Sendo que foi tida sempre como mais provável uma pandemia de coronavírus – “com pequenas modificações da epidemia de SARS, ocorrida quinze anos atrás”. Relembra que o problema foi naquela época superado, pois “os vírus foram identificados e sequenciados”. A partir desse momento os laboratórios já tinham todas as condições de trabalhar “no desenvolvimento de proteção para potenciais pandemias de coronavírus”. E por que não o fizeram? 

Destaca Chomsky que “os grandes laboratórios farmacêuticos multinacionais” são “corporações que não prestam contas ao público”. São movidos unicamente pelo lucro. À época, era “melhor, mais lucrativo, produzir cremes para o corpo do que encontrar uma vacina que protegesse as pessoas da destruição total”. Os governos poderiam intervir, decretar “uma mobilização de tempo de guerra”. Mas prevaleceu “a ideologia tipificada por Ronald Reagan” através da fórmula: “O governo é o problema, vamos nos livrar do governo”. Isso importa em submeter a pesquisa e produção de vacinas às “tiranias privadas”, às leis do mercado: os investimentos só são alavancados diante da eclosão da pandemia.  

Por outro lado, houve uma apatia e inércia dos governos, quer por motivos ideológicos (o não-intervencionismo), quer por desídia. A China comunicou à Organização Mundial da Saúde (OMS), em 31 de dezembro de 2019, haver identificado “sintomas parecidos com os da pneumonia, de etiologia desconhecida”. Logo depois, cientistas chineses verificaram que se tratava de um coronavírus: o sequenciaram e “deram essa informação ao mundo”. Os virologistas e outros que liam os relatórios da OMS “já conheciam as propriedades relevantes do coronavírus e sabiam como lidar com a doença”. Mas pouco ou nada se fez. Donald Trump e os seus imitadores subestimaram o vírus (“gripezinha”).  

A esta altura, o que se acha em jogo? As vacinas estão sendo produzidas, mas precisam ser distribuídas equitativamente entre nações ricas e pobres, por imperativo ético e humanitário. A crise do coronavírus expôs a céu aberto a degradante e crescente desigualdade social no Brasil. Tornou-se urgente romper com o modelo econômico ultraliberal, para promover amplas e ambiciosas políticas de inclusão social que resgatem da pobreza e da penúria uma parcela numerosa da população brasileira.    





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