O que fazer com o lixo que a China parou de comprar

Publicação: 2019-04-06 15:05:00 | Comentários: 0
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(DW) - A fumaça tóxica que paira sobre o pequeno vilarejo de Jenjarom, nos arredores da capital da Malásia, Kuala Lumpur, é especialmente densa à noite, quando as usinas de reciclagem perto dali começam a derreter lixo plástico.

"O cheiro é horrível, e a fumaça faz mal para os nossos pulmões", afirma a moradora Lay Peng, de 47 anos. "Ninguém pode escapara da fumaça tóxica. Essa é a pior parte."

Peng afirma que centenas de toneladas de lixo plástico são incineradas regularmente de maneira ilegal a apenas um quilômetro de sua casa. Seus três filhos desenvolveram asma, e o marido foi hospitalizado com câncer de pulmão.
Trabalhadores em lixão na Indonésia. País introduziu restrições à importação de lixo após decisão da China
Trabalhadores em lixão na Indonésia. País introduziu restrições à importação de lixo após decisão da China. Ag DW

Há um ano e meio, Jenjarom vem importando cada vez mais resíduos plásticos para reciclá-los e incinerá-los, em meio a uma crise global de lixo.

Tudo começou em julho de 2017, numa reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Genebra, na qual Pequim anunciou que reduziria suas importações de resíduos plásticos e de papel.

Até então, a China importava mais da metade do lixo plástico do mundo para reciclá-lo, juntamente com uma parcela significativa de resíduos de papel – 60% dos gerados nos EUA e mais de 70% dos da Europa. Pequim justificou a decisão de cortar as importações com argumentos ambientais e afirmando querer proteger a saúde de seus cidadãos.

A medida fez com que o sistema global de reciclagem entrasse em colapso e inaugurou uma nova era da gestão de resíduos. Uma era em que metade do mundo – incluindo EUA, Canadá, Europa, Japão e Coreia do Sul – foi obrigada a buscar novos aterros sanitários para seu lixo.

"Foi um grande choque para a indústria global de reciclagem", afirma Arnaud Brunet, do Escritório Internacional de Reciclagem (BIR, na sigla em inglês), sediado em Bruxelas.

Preço do lixo despenca

A decisão da China teve amplas consequências. Nos meses após a medida, a Malásia, por exemplo, triplicou suas importações de lixo plástico.

Também ocorreu uma mudança drástica na oferta e na demanda. Em 2018, o preço de resíduos mistos de papel caiu de 75 para apenas alguns dólares por tonelada. O comércio de lixo entre a China e os EUA chegou a cair 38%, ou 3,5 bilhões de dólares.

O lixo tinha que ir para algum lugar, e os países desenvolvidos tinham esgotado suas capacidades de reciclar suas milhões de toneladas de plástico e papel – especialmente porque o plástico não pode ser completamente reciclado.

Comerciantes de lixo desesperados foram forçados a procurar novos clientes, e os encontraram no Sudeste Asiático, em lugares como Malásia, Tailândia, Vietnã, Indonésia e Índia – países com menos regulamentações de importação e controles menos rigorosos, ou até mesmo nenhum controle.

De acordo com um relatório do Banco Mundial de setembro de 2018, mais de 90% do lixo de países de baixa renda é "frequentemente descartado em lixões não regulamentados ou queimado a céu aberto... com graves consequências para a saúde, a segurança e o meio ambiente".

Somente 10% do lixo é de fato reciclado – muitas vezes fazendo com que trabalhadores e moradores dos entornos adoeçam e matando plantas e animais.

Alguns países, no entanto, incluindo Tailândia, Malásia e Indonésia, decidiram que não querem mais ser a lixeira do mundo. Nos últimos meses, eles introduziram novas restrições à importação de resíduos para lidar com a nova situação após a decisão da China.

O governo da Indonésia baniu a importação de certos tipos de resíduos plásticos de países ocidentais para "minimizar a possibilidade de degradação ambiental e de ecossistemas causada pelo lixo". A embaixada da Indonésia em Bruxelas afirmou à DW que a questão dos resíduos é um desafio.

"Apesar das restrições às importações, resíduos plásticos mistos ainda estão entrando no país [Indonésia] em contêineres. O contrabando de resíduos está florescendo, e governos estão sobrecarregados com a fiscalização", afirma Heng Kiah Chun, do Greenpeace Ásia.

Jospeh Pickard, economista-chefe do Instituto das Indústrias de Reciclagem de Sucata, em Washington, afirma que as restrições asiáticas ao mercado americano já tiveram consequências perceptíveis.

"Hoje, mais plástico definitivamente acaba em aterros sanitários e incineradores nos EUA do que há um ano", diz. Pickard vê a situação como uma oportunidade para investir mais em instalações de reciclagem locais e tecnologia.

"Temos que entender que também se trata de um recurso que pode gerar lucro É aí que reside o ponto crucial para mudança, inclusive em nível local", afirma.

China menos dependente 

Na União Europeia (UE), as exportações de resíduos plásticos diminuíram desde a decisão da China. Está sendo discutida pelos 28 países-membros do bloco uma proposta da Noruega de alterar a Convenção de Basileia – que controla o fluxo internacional de resíduos – e dificultar significativamente a exportação de plásticos mistos pouco recicláveis.

Uma fonte da UE em Bruxelas disse que a proposta foi bem recebida, mas ressaltou que ela deve ser realista.

"Tememos que uma proibição à exportação de resíduos plásticos possa ser desvantajosa para alguns Estados-membros e o meio ambiente local", afirmou a fonte, apontando que nem todos os países-membros da UE têm capacidade para reciclar plásticos adequadamente.

Mas isso não é mais problema da China. Depois de anos de crescimento econômico e aumento do consumo, a população chinesa de 1,4 bilhão de habitantes produz resíduos suficientes para abastecer as usinas de reciclagem do país.

"A China está desenvolvendo seus próprios sistemas de coleta, separando e reciclando o lixo local", afirma Brunet. "A China está ficando independente do nosso lixo."

No entanto, o país também exporta resíduos que tem dificuldade em reciclar. Durante muitos anos, Hong Kong foi um dos dez maiores exportadores de lixo plástico para a Malásia.

De acordo com a agência de notícias oficial chinesa Xinhua, a China pretende banir ou reduzir significativamente a importação de oito categorias adicionais de resíduos até o fim de 2019. Estas incluiriam eletrodomésticos, sucata de aço de navios, peças de carros e madeira.

O que a China ainda importa de bom grado é plástico reciclado – cada vez mais proveniente de empresas chinesas que se estabeleceram em países vizinhos do Sudeste Asiático na esperança de lucrar com a proibição de importações.

Desde o segundo semestre de 2017, várias usinas de reciclagem surgiram em países como a Malásia, muitas delas administradas por empresas chinesas. E a fumaça tóxica que antes pairavam sobre a China agora contamina lugares como Jenjarom. 

Por Tim Schauenberg, da agência DW

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