O que mantém uma startup viva é o foco, diz CEO da AutoForce

Publicação: 2019-05-19 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ricardo Araújo
Editor de Economia

Na crise, a oportunidade de novos negócios. De olho nas mudanças provocadas pela mais severa recessão da história moderna na economia nacional, uma startup potiguar desenvolveu um software voltado às concessionárias de veículos que está modificando a gestão comercial de empresas desse segmento em todo o país. A ideia, de tão inovadora, foi selecionada pelo InovAtiva, o maior programa de aceleração de empresas da América Latina.
Tiago Fernandes, CEO da AutoForce
Tiago Fernandes, CEO da AutoForce

Celeiro de inúmeros projetos com histórico positivo, o Rio Grande do Norte se tornou um propenso referencial no mercado de startups no País com o advento do Instituto Metrópole Digital, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Mas, ainda há um longo caminho a ser percorrido para que, de fato, o Estado se torne referência nesse segmento da tecnologia. Entenda os motivos a partir da entrevista a seguir.

O Rio Grande do Norte se tornou referência no desenvolvimento de startups desde o advento do Instituto Metrópole Digital. Como o senhor avalia esse mercado no Estado na atualidade?
Acho que o Rio Grande do Norte está no caminho certo para a construção de um ecossistema propício ao desenvolvimento de novos negócios. Ainda não podemos nos considerar uma referência, pois muita coisa precisa acontecer para chegarmos ao patamar de verdadeiros centros de inovação e tecnologia, como  Recife, São Paulo e Florianópolis, por exemplo. Há uma clara necessidade de mais investimento em educação, tecnologia e infraestrutura para as startups que estão surgindo e para os profissionais que estão ingressando no mercado de trabalho. O Instituto Metrópole Digital foi um marco importante para o ecossistema de startups no Rio Grande do Norte, mas também não podemos esquecer de todo o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Sebrae/RN, pela ITNC (incubadora do IFRN), pelo Empreende (incubadora da UNP) e pela comunidade do Jerimum Valley.

Qual o potencial do que é desenvolvido localmente? Quais tipos de negócios o senhor aponta como mais propensos a conquistar o mercado e por quais motivos?
As startups do nosso Estado, sendo elas de base tecnológica ou não, possuem um grande potencial de crescimento e sucesso, como qualquer outra startup do país. Tudo vai depender do problema que pretendem resolver, do tamanho do mercado que desejam atingir, do time de empreendedores que está à frente dessas empresas e dos processos de gestão que estão seguindo para validar, desenvolver e organizar suas ideias de negócios. Se hoje eu fosse investir ou criar uma nova startup buscaria negócios que possuíssem quatro características: inovação (faz alguma coisa diferente), margem (desenvolve barato e vende caro), recorrência (modelo de assinatura, pois o fluxo de caixa é previsível) e trava (o cliente percebe tanto valor na solução que é caro demais para ele sair ou trocar por outra). Startups nas áreas de saúde, educação, finanças, mobilidade e SaaS (software como serviço) que possuem, pelo menos, três das quatro características que apontei estão mais propensas a conquistar o mercado brasileiro (ou mundial), pois existem grandes oportunidades nessas esferas.

O que mantém uma startup viva diante de tanta concorrência e de novas ideias que surgem todos os dias?
Podemos fazer uma analogia da vida de uma startup com um avião numa pista de decolagem. O avião é a startup, a pista representa os recursos (investimento, tecnologia, pessoal) e a linha de decolagem representa o tempo. Se uma startup (o avião) consome todos os seus recursos e não consegue atingir o breakeven ou ponto de equilíbrio financeiro (levantar voo), ela simplesmente irá fracassar (cair no abismo que está logo após a pista). Quando esta catástrofe acontece os empreendedores perdem toda sua paixão, energia e recursos, muitas vezes emprestado pelos pais ou amigos. Alguns fazem desse acontecimento uma lição e partem para a próxima empreitada, outros simplesmente desistem e voltam para o mercado de trabalho como empregados frustrados. É aí que separamos os amadores dos profissionais (aqueles que realmente querem ser empreendedores). Então, o que mantém uma startup viva diante de tantos fatores adversos é foco, disciplina e a busca incessante por um modelo de negócio que funcione, criando valor para os clientes e gerando receita para a empresa. Uma startup que sobrevive apenas de investimento de terceiros e que não consegue decolar com suas próprias asas certamente terá muitas dificuldades.

No caso da AutoForce, como foi o processo de desenvolvimento da solução escolhida pelo InovAtiva e qual o diferencial dela em relação aos similares existentes no mercado?
A AutoForce é uma Autotech que está desenvolvendo e comercializando um software web, chamado Autódromo, para ajudar concessionárias de veículos a gerarem mais oportunidades de venda a partir de internet. Começamos a desenvolver esta solução em meados de 2014, quando a crise financeira e política do país atingiu, como uma pedra, o mercado automotivo. As concessionárias estavam buscando formas mais baratas e mensuráveis de gerar vendas e, nesse mesmo período, o hábito de pesquisa, escolha e compra de veículos dos brasileiros estava mudando por causa da internet. Em agosto de 2014 começamos a conversar com várias concessionárias de Natal para entender o problema  e em quatro meses conseguimos coletar dados suficientes para a criação de um protótipo barato, bem aceito pelos clientes, que foi aperfeiçoado até  chegar ao produto atual, que já é utilizado por mais de 400 concessionárias em todo o Brasil. O principal diferencial da nossa solução é justamente a autonomia que oferecemos às concessionárias com relação a sua gestão de vendas, pois, com o Autódromo, elas conseguem gerenciar seu próprio site, organizar todas as informações de clientes que entraram em contato (seja por telefone, chat ou whatsapp) e ainda mensurar os resultados das campanhas com uma só ferramenta.

O que a participação da AutoForce nesse programa de aceleração de startups trará de positivo para o Rio Grande do Norte?
O InovAtiva é o maior programa de aceleração de startups da América Latina. A participação da AutoForce, como também das outras duas startups potiguares que passaram, trará visibilidade para o nosso estado, mostrando ao mercado que o Rio Grande do Norte também desenvolve tecnologia e inovação além das nossas tradicionais commodities. Se a AutoForce, ou algum dos outros dois participantes, for a startup vencedora no InovAtiva Brasil, certamente muitos holofotes serão atraídos para a nossa região, trazendo consigo os olhares de investidores, de grandes empresas e o reconhecimento do estado como um verdadeiro berço de tecnologia de inovação.

Do que o setor necessita para se tornar mais competitivo localmente?
O setor necessita que  Governo, Academia e mercado trabalhem juntos para o desenvolvimento de um ecossistema sustentável. De um lado, precisamos de políticas públicas que permitam aos empreendedores desenvolverem seus negócios com menos burocracia e tributação. De outro lado, a academia deve conversar com o mercado e formar profissionais alinhados com a necessidade das empresas. Por fim, precisamos do mercado ouvindo, validando e desenvolvendo negócios que gerem valor e riqueza para a sociedade e para todos os stakehoulders envolvidos.

Reportagem publicada pela TRIBUNA DO NORTE no domingo, 12, mostra que o RN é um dos Estados que menos investe em ciência e tecnologia. Quais são os reflexos disso para quem trabalha nesses setores?
A falta ou o pouco investimento em ciência e tecnologia realmente desacelera todo o potencial que temos. O reflexo disso é a formação de uma geração de profissionais desalinhados com as habilidades e conhecimentos que o mercado exige. Isso também causa o êxodo de mão de obra qualificada e de empreendedores de alto impacto para outras regiões, que oferecem melhores condições de desenvolvimento profissional e de negócios. Porém, empreendedores e profissionais que atuam nessas áreas não podem ficar esperando por ajuda do governo. Hoje podemos ter acesso a ferramentas, cursos e tecnologias de ponta apenas acessando a internet. Claro que as barreiras da falta de investimento em ciência e tecnologia são altas, mas as pessoas que estão realmente dispostas a fazer a diferença vão escalar esses desafios e conquistar seu lugar ao sol.



continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários