O que não se pode perder

Publicação: 2020-06-21 00:00:00
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Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]

Há momentos na vida do homem que assumem um sentido de permanência. Não se perdem na poeira do tempo. Engrandecem definitivamente a condição humana. Libertam-na de tudo quanto a maculava ou a deturpava até então. Não se confundem com a pequenez das coisas efêmeras, menores, mesquinhas, pérfidas, enganadoras, falsas, cínicas, hipócritas, injustas, cruéis e brutais. Revelam a beleza e a majestade da vida em todos os sentidos. Assim se impõe “que a justiça deslize como a água e o Bem como um rio interminável” (João Paulo II). Porque a vida é, essencialmente, expressão da infinita beleza da Criação. Bem-aventurados e eternamente afortunados são os homens que alcançam, identificam e assimilam a vocação e o sentido do viver e do servir. Transpõem obstáculos à percepção do transcendental. Em tudo e todos, com simplicidade e humildade, visualizam a manifestação do que é inquestionavelmente puro. Como o sorriso de uma criança. O olhar terno, sublime e irreprimível da mãe ao contemplar o filho recém-nascido. Eis a partilha do amor, o bem (sentimento) que realiza a convergência entre a humanidade e Deus. A doação desinteressada, fraterna, pacífica, impessoal, verdadeiramente humana e espiritual, de uns com os outros. O primado da justiça e do exercício da solidariedade.

A solidariedade tem o rosto de todos os homens. A construção do homem e do bem tem uma moral, um espírito, um fim, uma estética e uma dimensão. Não se submete às coisas materiais e egoístas. Não se conforma nem se sujeita às urdiduras das vaidades. Manipulações, usurpações, farsas e dissimulações de “donos do poder”, em todos os tempos, em todas as circunstâncias históricas e geográficas, apenas atestam que o mal prevalece algum tempo, até muito tempo, mas jamais todo o tempo. O espírito humano sobrevive intacto com a atitude de um único homem. Ainda que seu passado reflita exatamente o paradoxo daquele ato grandioso, que o eleva e o alforria de todas as suas iniquidades. Par Lagerkvist (sueco, Nobel da literatura, 1951) imprimiu esse sentido ao epílogo da vida do personagem-título do livro “Barrabás”. O homem solto no lugar de Jesus Cristo morre numa cruz em Roma, entre cristãos, contrito e confiante em se encontrar com o Salvador. Paradoxo para quem desdenhou de sua própria sorte ao escapar de tortura e da morte numa cruz. Lord Bulver Lytton, autor do romance histórico “Os últimos dias de Pompéia”, descreveu a conversão do gladiador Marcus, que assistira indiferente à flagelação e à crucificação do Cristo. Curzio Malaparte, em seu controvertido “A Pele”, desvenda as aberrações morais e ignóbeis (entre elas, pais vendendo filhas menores) na Nápoles do pós-guerra. Mas registra também ações que, num turbilhão de decadência e desagregação de seres humanos, surpreendem por altivez moral e elevação espiritual. Sobretudo solidariedade. O mesmo tema é o conteúdo de um romance de Morris West – “Os filhos das trevas” –, que reconstituiu o cenário de exploração e degradação infantil na Itália, logo após a derrocada do fascismo e o caos que lhe sucedeu. Os dois livros se assentam numa realidade cruel, trágica e mórbida, rejeitando o predomínio da ficção. A realidade molda e comanda o enredo desses livros. Sobre esse tema Vittorio De Sica dirigiu Sophia Loren em “Duas Mulheres” (La Ciociara), aureolado com o Oscar. Seus desfechos surpreendem e impactam: as ações definitivas são as que salvam.  Passos que fazem o homem, a vida e o mundo avançarem. Descortinando um amanhã de luz e esperança. Tudo isso não pode ser esquecido. Especialmente no mundo atual. Busquemos o triunfo do bem e a erradicação definitiva da maldade e da injustiça. Sem volta...

Entretanto, retorno ao que me instiga sempre. A madrugada, o silêncio da mente e do espírito, a ilimitada multiplicidade de sonhos, que se sucedem entre o crepúsculo e a aurora. A noite envolta pelo manto da esperança. O amor assumindo tantas faces e tantas formas. Especialmente ternura, êxtase e pureza, como nas feições de uma criança a dormir ou da amada sorrindo ao despertar. O desejo de viver a vida com dignidade. O pesadelo da insegurança, da miséria, do abandono, da fome, da doença e do desalento. A noite que se desvia do seu fim, que não pacifica nem acalma. As injustiças em seus mais amplos aspectos sociais e individuais. Pouco importa que uns exibam menos sofrimento, enquanto outros desfrutem privilegiadamente da paz dos seus sonhos e dos seus ideais. Onde, em qualquer lugar,  homens sofram injustiças, subverte-se o sentido de suas vidas. Essa tragédia também dilacera a ética e a moral. Germina fisiologismo. Afronta a dignidade humana e antecipa rupturas.

As nações não se diferem dos homens. A nacionalidade nada mais é do que a síntese de ideais, sonhos, sentimentos, valores, buscas, crenças e maneira de ser dos homens. A crise que aí está renega o que dá substância e fundamento ao Brasil. Debilita o que Renan chamava de “alma nacional”. Não vincula passado, presente e futuro. Destrói laços e afetividades, que realimentam e renovam, permanentemente, a paz social. Nesse vendaval de paixões, desencontros, manipulações vis e criminosas, projetos de poder sem valores humanos, éticos, morais e espirituais, a nação se estiola. Divide-se. Confunde-se. Perde visão de rumos comuns e vínculos indissociáveis. Os que semeiam ódio e violência não se importam com a condição humana. Só lhes importa mobilizar o maior número de pessoas para alcançar seus objetivos. Enganá-las e manipulá-las. Ignoram bases milenares da fé e da civilização. Sua concepção de vida: o poder pelo poder. Essa crise projeta epílogo incerto e imprevisível, nutrida por irrupções de fanatismo, rancor, estupidez e fúria insana.  Valores morais se esvaem. Então...?