“O que resta a um homem feio senão a irreverência?”

Publicação: 2012-05-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva - repórter

Descrito pelo próprio como “romântico corrigido e um homem do lar sem nenhum constrangimento”, o gaúcho Fabrício Carpinejar é uma das figuras mais emblemáticas do cenário literário atual. Comunicador polivalente e escritor inveterado, Carpinejar já foi apontado como uma das pessoas mais influentes da internet brasileira e suas frases espirituosas, retransmitidas compulsivamente por seus quase 149 mil seguidores no Twitter, inspiram homens e mulheres e apontam para o lado mais divertido da literatura.
Edison VaraNem só de poesia e humor se cerca o gaúcho Fabrício Carpinejar. Em Natal, para mais uma divertida conversa no Ação Potiguar de Leitura, ele estará ao lado da mulher Cínthya Verri, que lança Constantina.Nem só de poesia e humor se cerca o gaúcho Fabrício Carpinejar. Em Natal, para mais uma divertida conversa no Ação Potiguar de Leitura, ele estará ao lado da mulher Cínthya Verri, que lança Constantina.

LIVRO NOVO NA FLIP

Esse perfil pop do autor, que tem carisma e sabe conduzir plateias independente da faixa etária, cai como uma luva para encerrar a segunda edição do projeto Ação Potiguar de Incentivo à Leitura, iniciativa dos Jovens Escribas que movimenta estudantes natalenses do ensino médio e fundamental desde o início da semana. Hoje à tarde, Fabrício e o jovem escriba Patrício Jr conversam com alunos da Escola Municipal 4º Centenário, e às 19h participa do “Lançamentão” promovido na livraria Nobel Salgado Filho.

Carpinejar só lança um novo título em julho (“Ai meu Deus, ai meu Jesus”), o 18º da carreira, durante a Feira Literária Internacional de Paraty – Flip, mas aproveita a passagem por Natal para chancelar o livro de estreia da esposa, a médica Cínthya Verri, chamado “Constantina”. Ele falou sobre seu retorno ao RN (em 2011 participou de duas etapas do Circuito Potiguar do, em Caicó e Natal), sobre o encontro com os estudantes e adiantou o perfil do livro de poemas de Cínthya. “Não tem nada de cozinha. A Cínthya só vai na cozinha pra pegar a faca. Gosto muito do andamento dos poemas dela pois são bem episódicos, são concentrados, densos, e ela refaz a infância dela”, disse.

MEDOS INFANTIS E MENTIRAS ADULTAS

A médica Cínthya Verri estreia oficialmente, em meios impressos, sua veia poética com o livro “Constantina” (Selo Edith, R$ 25), onde reproduz em versos o que ela “não” sonhou ser quando era criança. Em 80 páginas, a autora retrata sua infância, disseca seus traumas e dá pistas de como enfrentou seus fantasmas na primeira fase da vida. Dividida em três capítulos (Destino, Fatalidade e Acaso), a obra é marcada por versos pungentes, curtos e densos, e expõe, entre outras coisas, os excessos conservadores da educação que sofriam as meninas no interior do RS.

A exemplo de um diário secreto, Cínthya ajunta o terrível encontro entre os medos infantis e as mentiras adultas; e através de “Constantina”, responde censuras com ironia e combate o machismo que perdoa qualquer agressão física. Sua visão de mundo, entre o cômico e o trágico, e a ingenuidade do olhar infantil, servem para ampliar o choque do leitor. Além de “Constantina”, o “Lançamentão” ainda reúne outros 10 autores para uma noite de autógrafos coletiva – entre eles a poeta Sinhá, que relança “Devolva meu lado de dentro”.

MAIS LANÇAMENTOS: Ponte entre Beckett e Hilda Hist

Hoje também é dia de lançamento na livraria Cooperativa Cultural, na UFRN, onde será apresentado, às 17h, o livro “Niilismo Heróico”, de Rosanne Bezerra de Araújo. Trata-se de um estudo que ressalta a presença do niilismo na narrativa contemporânea, elencada nas obras do irlandês Samuel Beckett (1906-1989) e a brasileira Hilda Hist (1930-2004).

Os contos selecionados como objetos de pesquisa apresentam reminiscências do passado, impressões do presente e questionamentos metafísicos. Tudo é apresentado numa constante mistura de monólogo e diálogo. Dentro desse contexto, “Niilismo Heróico” estabelece pontes entre Beckett e Hilda, como a obsessão da narrativa, o imperativo da fala e a insistência na palavra contra a escuridão, e convida o leitor a apreciar a escrita contundente desses autores que produziram o desdobramento do “eu” em pergunta e resposta.

Rosanne Bezerra de Araújo é professora do Departamento de Letras da UFRN e doutora pela UFPB.

O lançamento faz parte da programação de 35 anos da Cooperativa Cultural, que ainda inclui programação musical também nesta sexta-feira, às 11h30, com duo de violino e piano. Na segunda-feira (28), está programado outro lançamento, o livro “A Geografia do Samba na cidade de São Paulo”, do geógrafo e pesquisador Alessandro Dozena, professor da UFRN.

SERVIÇO: Lançamento de Niilismo Heróico, hoje, às 17h, na Cooperativa Cultural da UFRN, Centro de Convivência.

BATE-PAPO

FABRÍCIO CARPINEJAR, poeta

De volta a Natal?

Sempre né! Depois da quinta passagem já é um vício. Sempre difícil separar trabalho do lazer. [risos]

A proposta do evento é incentivar a leitura, mostrar que a literatura também é um programa legal. O que você planejou?

Evidente que tem bastante improviso, acredito que a sinfônia poética ela é feito do repente, do relâmpago, do ruído; mas primeiro é necessário tirar o estigma da leitura como solitário, confinado, fruto da quarentena. Parece que precisa estar doente para ler. Pessoas sadias com tempo bom vão para o parque, para a praia, pro bar. Tem que desidratar essa ideia um tanto absurda da literatura como se fosse um castigo. Ler, ler, ler é convívio.

Este ano você está na programação da Flip, em Parati (RJ). É diferente o formato do tipo de conversa travada com o público? Lembro que suas apresentações são palestras-show, descontraídas e bem humoradas. Há uma mudança na abordagem de acordo com o perfil da plateia?

É estranho: o que resta a um homem feio como eu se não ser irreverente? Isso não é um destino, é uma fatalidade. Eu não tenho como ser sério. Eu posso ser denso dentro da minha graça, dentro da minha leveza. O pássaro precisa exercitar muito as asas até encontrar o espaço para poder planar. Então há todo um trabalho do riso que é desmerecido. Para fazer o público rir, o escritor tem muito mais trabalho que fazer chorar. As pessoas se confessam mais no riso do que no choro, e a poesia, a literatura tem esse giro. Então tanto faz se esteja falando com alunos aí em Natal ou na Flip, não vou mudar minha disposição circense no sentido de vestir a fala. A risada é uma espécie de sapateado. Como é bom ficar delirando, né?!

Em outubro do ano passado, durante a Feira de Livros e Quadrinhos de Natal , você estava divulgando “Borralheiro”. Algum novo projeto engatilhado?

Estarei levando para a Flip, em julho próximo, o livro “Ai meu Deus, ai meu Jesus”, minha crônica de amor e sexo. Toda sugestão é pornográfica. [risos]

E sobre o livro “Constantina”, de Cíntya Verri, sua esposa, alguma coisa a dizer ou é antiético comentar?

Como...?

Antiético.

É isso mesmo, totalmente antiético [risos] Bonito isso! Desfaz muito daquela anatomia do poema feminino. É um poema cruel.

Estou com o livro aqui e percebo que não tem nada de arrumadinho, floridinho...

Nããão. Não tem nada de cozinha. A Cínthya só vai na cozinha pra pegar a faca. [risos] Gosto muito do andamento dos poemas dela pois são bem episódicos, são concentrados, densos, e ela refaz a infância dela. Mas não aquela infância do deslumbramento, que todo poeta gosta de se apegar e festejar. ‘Ó saudade da infância...’ Não é a infância bonita e sim o estranhamento dela.

O trecho do texto de divulgação diz o seguinte: “Cínthya investiga a origem das farsas familiares, da necessidade de fingir felicidade mais do que ser feliz”.

Exato. Essa obrigação da aparência. Dentro da família você tem que seguir um ritmo que pode não ser o teu! Tu é estrangeiro no almoço, na janta, nos hábitos. Imagine se pudéssemos poder escolher nossa aparência?

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