O rádio e a bicicleta em Areia Branca

Publicação: 2021-01-17 00:00:00
Evaldo Alves de Oliveira
Sócio correspondente do IHGRN

Eu era criança quando entrei em contato com o primeiro aparelho capaz de reproduzir som. Era uma galena, que diziam ter sido um presente do cigano Aristeu. Essa galena foi parar na minha casa. Imagino que isso tenha acontecido na década de 1940, antes do meu nascimento. No final da década de 1940 começaram a aparecer os primeiros rádios na cidade, uma raridade.

Galena é um aparelho rudimentar, composto de uma bobina, um capacitor e um cristal de galena. Para funcionar, necessitava de uma antena e de um fio terra; dispensava o uso de corrente elétrica. Galena, o mineral, é o sulfeto de chumbo, principal componente do chumbo

Certa manhã, na Rua da Frente, no início da década de 1950, Tututa, jovem marinheiro, filho de um morador daquela rua, desfilava com seu traje de marinheiro, tendo ao lado um adolescente conduzindo em sua cabeça algo que causou um reboliço no local. Era um rádio que funcionava sem um fio ligado à tomada. Na passarela da nossa história, o rádio portátil desfilava pela primeira vez sob a sombra dos pés de fícus benjamin. Acompanhando esse cortejo, um grupo de crianças atônitas com aquela novidade. Eu tinha entre seis a oito anos de idade.

A bicicleta é um equipamento que chegou de forma antecipada a Areia Branca, trazida por um navio ancorado no porto. Pelos idos da década de 1930, surgiu um marinheiro na Rua da Frente, montado de forma displicente em uma geringonça que lembrava bicicleta. Logo, um alvoroço se formou na principal rual da cidade, todos querendo ver aquela novidade.

A bicicleta surgiu no Brasil no ano de 1898, e apenas 32 anos depois ela chegaria a Areia Branca. Foi um caso de amor à primeira vista. E a bicicleta logo se tornaria o equipamento mais desejado da cidade, fosse para o trabalho ou a lazer, especialmente das crianças e jovens.

Na década de 1950, quem não tivesse uma bicicleta – hoje, bike ou magrela – ficaria sem os passeios pela Rua do Meio, em volta da pracinha ou na Rua da Frente. Sem falar dos lugares bem mais distantes, pros lados do grupo escolar e do Morro do Urubu.

Nesse contexto, surgiram os irmãos Popõe e Chiá, que tiveram uma ideia genial. Gerenciar o setor de aluguel de bicicletas, que seriam alocadas na pracinha, com modelos para meninos e meninas. Os meninos menores gostavam dos modelos femininos, pela facilidade de pedalar sem trauma na barra do meio. E aí começava uma guerra das crianças pressionando os pais para conseguir quinhentos réis para ter o privilégio de dar algumas voltas em torno da pracinha, passar pela frente da igreja ou ir até a Rua das Almas, passando em frente ao Cine Coronel Fausto.

E a molecada atrasava a devolução da bicicleta, ganhando de lambuja uma destemperada refrega de Chiá, com a recomendação quase ordem de que, se aquilo voltasse a acontecer, o menino não teria mais crédito para sair com a bicicleta. Poucos repetiam aquele grave deslize. Popõe e Chiá foram dois dos primeiros empreendedores da cidade, dois visionários que durante muitos anos dominaram o ramo de aluguel de bicicletas. Hoje, a empresa familial poderia ostentar o nome Irmãos Popõe Rent a Bike.    







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