O Reencontro

Publicação: 2020-10-20 00:00:00
Carlos Eduardo Emerenciano 
Advogado e arquiteto

Para comemorar os 50 anos do  Movimento Armorial, a UFF (Universidade Federal Fluminense) promoveu uma série de eventos de 7 a 18 de outubro deste ano. Tive a oportunidade de assistir a 2 deles: “Da construção da dramaturgia armorial” e “Da estética do sertão à Ilumiara”.
O meu interesse em particular ao assistir a esses dois eventos deveu-se à participação de um sempre professor e amigo, Carlos Newton Jr., que além de poeta, romancista e ensaísta, hoje é, sem favor, o maior conhecedor da obra de Ariano Suassuna. Assisti-lo nesses eventos tem também o sabor da nostalgia, de lembrar das aulas de História da Arte, no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRN.

Fica difícil para mim, como também creio para qualquer um, discorrer em um artigo sobre um tema tão rico como o Movimento Armorial. Vou me centrar, portanto, em alguns aspectos ressaltados por Carlos Newton Jr. em suas participações nos eventos organizados pela UFF e tentar realizar uma síntese.

O primeiro deles é que a arte armorial precede ao movimento em si. No caso de Ariano Suassuna, revelou-se principalmente nas suas peças de teatro, entre as quais destacam-se “O Castigo da Soberba” (1953), “O Auto da Compadecida” (1955), “O Santo e a Porca” (1957), “A Pena e a Lei” (1959), esta baseada no teatro de mamulengos, e, posteriormente, no “Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (1971) ou “A Pedra do Reino”, como ficou mais conhecida a obra. 

Outro aspecto a ser ressaltado é que o sertão recriado por Ariano Suassuna difere do pintado em cores muito cruas e realistas pelos escritores regionalistas da geração de 1930, com destaque para Graciliano Ramos. Ariano preocupava-se com a realidade social e suas mazelas, mas tinha outro olhar. Percebia no povo sofrido toda a sua inventividade e procurava recriar, refundar a realidade. Gostava, inclusive, de citar, nas suas Aulas-Espetáculo, Machado de Assis: “o país real, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”.

Um terceiro aspecto é de como a infância de Ariano Suassuna marcou a sua obra. Primeiramente de forma trágica com o assassinato do seu pai João Suassuna (que havia sido presidente da Paraíba), quando Ariano tinha apenas 3 anos de idade. Depois com o tempo que passou na fazenda Acauã, no sertão paraibano.

O escritor alfabetizou-se muito cedo e dividia o seu tempo entre leituras, destacando-se os romances de capa e espada, e as brincadeiras na fazenda. A sede de Acauã (tombada pelo Iphan) foi construída em meados do século XVIII e é formada pelo seguinte conjunto arquitetônico: Capela da Imaculada Conceição, em estilo barroco (cujo teto em madeira abriga uma singela e belíssima pintura de Nossa Senhora. Estaria aí um início de inspiração para o Auto da Compadecida?), residência e armazém.

As leituras de Ariano nos livros deixados pelo pai assassinado representam uma procura, um resgate de algo perdido. Este aspecto evidencia-se em suas obras, principalmente em “A Pedra do Reino”. Sobre o romance, Carlos Lacerda ressaltou: “entremeado, todo o tempo, de símbolos e alusões, de recordações e fantasmas, poço inesgotável de estudos analíticos, livro de cabeceira para psicólogos e sociólogos, esse romance é uma explosão de maravilha. Não há que buscar nele o folclore, o regional, o ocasional, o circunstancial, e sim o universal, o permanente. Como em Dom Quixote”.

Eis que lendo “A Pedra do Reino”, “em atmosfera de febre” como sugeriu Carlos Drumond de Andrade em comentário ao livro, eu pego no sono. Sonho, então, com 23 de julho de 2014, dia do encantamento de Ariano. Vislumbro o teto da Capela da Imaculada Conceição se abrindo e a imagem de Nossa Senhora ganhando vida em todo o seu esplendor. Não há dúvida, o escritor acabara de chegar ao Céu.

Lá, ele encontrou João Grilo, Chicó, D. Pedro Diniz Quaderna, “cangaçeiros, rudes beatos, profetas” e toda a gente que povoou a sua obra. Vejo a cena de todos entrelaçados como ocorre com os personagens criados pelo protagonista de “8 1/2” de Fellini.

Estavam lá também Homero (todo grande escritor há de ter algo do bardo grego), Sófocles, Cervantes, Dante Alighieri, Rabelais, Shakespeare, Matias Aires, Alexandre Dumas, Dostoiévski, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Garcia Lorca, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Albert Camus, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e o seu amigo Hermilo Borba Filho.

Companhias que acompanharam Ariano da infância à velhice. Porém, naquele momento, elas não bastavam. O velho escritor procurava quem havia perdido há muito, como um Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir. De repente, aparece diante dele João Suassuna. Com o abraço tão aguardado do pai, o afago a tanto tempo sonhado, aquele corpo alquebrado se transfigura e volta a guardar os contornos de uma criança.

Que a arte de Ariano Suassuna continue a nos inspirar na busca por dias melhores, almejando sempre reencontrar o País real, da gente simples, que guarda os melhores instintos.







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