O refúgio

Publicação: 2019-08-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Cláudio Emerenciano [Professor da UFRN]

A paisagem, a contemplação inebriante da natureza, a influência de circunstâncias no estado de espírito, os devaneios que renascem na memória, a saudade de tempos perdidos, sua busca e sua reconquista, os ideais que animam e inspiram o viver, a fé que remove montanhas e lança o homem no infinito. Isso tudo integra o refúgio interior das pessoas. Íntimo indevassável da condição humana. Cada um detém e transmite sua experiência de vida. A decisão e o ato de partilhar, de comungar e de entrelaçar uns e outros entre si, em termos materiais e espirituais, permitem ao homem mergulhar no sentido da vida. Entendê-lo. Nada importa sem essa inserção na plenitude da vida, que significa amar, criar, unir, crescer, sonhar e ascender. Foi e será sempre assim. O sentido do curso existencial emerge de sua atemporalidade. O homem dá a própria vida por sonhos, ideais, princípios e sentimentos, dos quais o maior é infinito: o amor. O amor é o elo inesgotável, infinito, do homem com Deus. É o acesso exclusivo da eternidade.

Nada no mundo é diferente. Os sentimentos e as paixões não se distinguem pelo lugar. A condição humana irrompe e se manifesta originalmente pelos laços afetivos que a movem. Somos dependentes uns dos outros. O homem, mesmo sem o saber, carrega dentro de si a nostalgia de uma luz que nunca viu, a Luz de um Reino imperceptível e, para tantos e tantos, incrédulos de todos os tempos, inalcançável. Esse Reino é espiritual. Assume forma e se delineia pela fé.  Mas os valores e os sonhos de cada um percorrem caminhos e rumos distintos na vida. Não há fadiga. Há mudanças conforme as circunstâncias, que se apresentam como desafios, estímulos ou condicionantes. Em algum momento existencial. Em 1984 Milan Kundera publicou “A insustentável leveza do ser”, que alcançou êxito universal. O romance gira entre quatro personagens. Ressalta as consequências de opções na vida ou a interferência de conjunturas que oprimem, psicológica ou socialmente, o ser humano. O livro suscitou, mais uma vez, uma reflexão planetária sobre o assunto. Em 1988 Tom Wolfe publicou “A fogueira das vaidades”, tendo como cenário a cidade de Nova York e arredores. Mas sua temática ainda é atual, exibindo a perturbadora e sombria mistura de violência, impunidade, politicagem, corrupção e, sobretudo e principalmente, manipulações na maneira de ser, agir e pensar pela mídia eletrônica. De lá para cá se ampliou esse “tsunami social” com a incontrolável influência de redes sociais de todo gênero e gosto. Espanta-me, entretanto, o surto de “banalidade do mal”, que se alastra pelo mundo. Há, em proliferação, numa abrangência sem precedentes, uma cultura de violência, histeria e intolerância. A releitura do livro de Hannah Arendt “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal” realimentou minhas preocupações. A televisão, paradoxalmente, informa mas não forma opinião. Não opina. Não se compromete. Não defende nem consagra valores que enfeixam a alma nacional. A televisão brasileira se converteu numa espetacularização da violência, do desamor à vida, num continuado e crescente “leviatã”, que submete o pensar e a vontade dos homens. As exceções são raríssimas. As principais redes de televisão no exterior se manifestam, rotineiramente, em pequenos editoriais ou comentários, sobre relevantes questões nacionais e internacionais. Mas nossa televisão se esconde num biombo aético, que oculta razões enganosas e vis. Manipula a informação e não busca a verdade. Não possui senso de justiça. Tem consciência do seu poder e, por isso, a informação dúbia, imprecisa, é intensivamente veiculada, mesmo implicando em enxovalhar pessoas de bem. Essa televisão é cruel, pois, da noite para o dia, realiza a demolição da biografia de homens de bem. Indícios não são provas. São circunstâncias  susceptíveis de revisão. Sua precariedade é ignorada.  Mas verdade e justiça são indissolúveis.  

 A percepção de cada um nasce na infância. Lembro-me que, a partir dos sete anos, em veraneio na Redinha, costumava acordar antes das cinco horas da manhã. A casa se situava no “maruim”, área localizada à margem direita do Potengi. Na outra margem, em frente, era área do quartel de artilharia do Exército. A visão dali era paradisíaca. O firmamento, pouco a pouco, desnudava-se da negritude da noite e assumia um roxo frágil, que logo dava lugar a um azul claríssimo. O sol despontava bem distante na vastidão do horizonte. Parecia vir da África. Deslocava-se lentamente, como se fosse um noivo encaminhando-se para as bodas. Em frente à casa havia uma pequena elevação, na qual me sentava para desfrutar do espetáculo. Uma brisa suave, típica do verão, trazia-me o cheiro do mar. A praia do quartel terminava numa colina, coberta de grama exuberante e adornada por três frondosas arvores. Imaginava-me em cima daquele ponto, belíssimo e mágico, contemplando o Forte, o mar e a própria Redinha numa perspectiva que, anos mais tarde, Newton Navarro captou. É uma gravura que ele me presenteou, colorindo-a com aquarela. Voltemos àquele lugar telúrico e evocativo. No qual nunca estive. O cenário, infelizmente, agora não é o mesmo. Mas me pertence. Na memória e no tempo reconquistado. É um refúgio metafórico. Pertence-me em espírito. Eis sua forma de persistir.

Albert Camus é um dos meus escritores prediletos na literatura francesa. Em “O exílio e o reino” seis contos capturam o estado de espírito dos exilados. No “exílio” se revelam seus sofrimentos, amarguras e a inadaptabilidade no estrangeiro. Mas o “reino” é aquele templo personalíssimo, subjetivo e aliciante, em que seus personagens redescobrem a magia, a beleza e a ternura dos seus sonhos e da busca interminável de felicidade. Scott Fitzgerald, um dos grandes escritores da “geração perdida”, descreveu com nostalgia o refúgio do “Grande Gatsby”, um dos seus melhores romances. Ali Gatsby revolvia o passado, contemplava o presente e projetava seu futuro. José Lins do Rego convalescia. Odilon Ribeiro Coutinho o visitou (1957) e dele ouviu a descrição do seu “refúgio”, com lufadas de vento a sacudirem belas arvores, como as dos antigos parques e jardins do Rio de Janeiros, e canaviais da Paraíba. Cascudo, Gilberto Freyre e José Américo constituíram suas casas, em Natal, Apipucos e Tambaú, em “refúgios”, dos quais contemplavam e se inseriam no mundo e na vida. Perscruto o refúgio dos brasileiros ante esse turbilhão de indignidades, descrença e mediocridades. Nossa nação é animicamente pacífica e tolerante. Apesar de tudo. E – disse Camus – o “reino” é invencível: como a alma dos brasileiros.

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