O repórter chega à Academia

Publicação: 2016-07-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


São 72 anos, 50 destes dedicados à escrita, principalmente ao jornalismo no Rio Grande do Norte. Potiguar de Nova Cruz, Cassiano Arruda Câmara teve passagens pelos principais veículos do Estado, foi um publicitário influente, criou uma agência de propaganda, um jornal, fez campanhas para políticos locais e publicou livros. Cassiano fez o que quis com seu ofício.
Alex RégisReconhecido como grande entrevistador, leitor voraz dos periódicos, Cassiano Arruda se define como “um profissional da palavra”Reconhecido como grande entrevistador, leitor voraz dos periódicos, Cassiano Arruda se define como “um profissional da palavra”

Agora chegou a vez de ter essa trajetória reconhecida. Na próxima segunda-feira (18), o jornalista toma posse na Academia Norte-Riograndense de Letras (ANL), ocupando a vaga deixada com o falecimento do jornalista, ex-deputado e amigo Agnelo Alves. Ele foi eleito no final de 2016, depois de concorrer com os candidatos Maria Jandir Candeias, Rubens Guedes Nunes, Naide Maria Saraiva de Gouveia e Whashinton Luís Andrade de Araújo. Teve 26 dos 29 votos válidos.

Para o presidente da ANL, professor, advogado e escritor potiguar, Diógenes da Cunha Lima, Cassiano é o jornalista da palavra exata. “Ele passou a vida recebendo e dando notícia com precisão vocabular. É um escritor de preocupação estética. Seu lado publicitário mostrou a economia verbal. Será muito bem-vindo. É a presença de mais um jornalista, como Agnelo foi”.

Apesar de nunca ter buscado isso, Cassiano diz que participar da academia o orgulha muito. “Com a morte de Agnelo alguns amigos começaram a falar que uma forma de homenageá-lo era apresentando minha candidatura. Escrevi minha candidatura para os acadêmicos. O regulamento pede que o pretendente tenho no mínimo dois livros publicados. Como cumpro esse requisito, me candidatei e fui aceito”, explica.

Seu primeiro livro “Um Repórter da Roda Viva”, de 2002, foi uma forma de marcar os 30 anos da coluna Roda Viva, que até hoje publica diariamente, agora no Novo Jornal. “No meu primeiro livro busquei colocar evocações do jornalismo, complementado com duas séries de reportagem que eu fiz no exterior, uma a Cuba e outra a Califórnia, nos EUA”, comenta.

Sete anos depois do primeiro livro, Cassiano lança “Hotel de Trânsito”, obra resgata a história de sua prisão, em maio de 1969, junto com então prefeito de Natal, Agnelo Alves. O motivo foi a publicação de duas notas que misturavam futebol e política, suficientes para deflagrar o último grave episódio de censura à imprensa na Ditadura Militar no RN. A partir desse fato, Cassiano revela a história de uma cidade e de um jornal, que ainda existem, mas que pouco se parecem com o que era na década de 1960.

Ele diz que o motivo de escrever esse livro tem a ver com seu hábito de escrever diariamente. “Estou condicionado a escrever pelo menos cinco laudas todo dia, pelo menos. Ficar sem escrever era algo que eu não sabia fazer. Uns amigos lembraram dos 30 anos da minha prisão com Agnelo e me sugeriram a escrever sobre esse fato”, diz Cassiano, que se define como “um profissional da palavra”. “Meu diferencial são os 50 anos de batente no jornalismo. Conquistei o direito de dar opinião. Em todos esses anos escrevendo sobre o meu estado, posso dizer que sou especialista no RN”.

Seu olhar sobre a cultura
Na cultura, Cassiano é da opinião de Cascudo: “Natal não consagra, nem desconsagra ninguém”. Apesar disso, ele vê a cidade viver um bom momento artístico. “São várias exposições acontecendo, artistas na música despontando, muitos livros sendo lançados”. Mas ele pondera dizendo que isso não é inédito, que Natal já teve artistas e movimentos de alcance nacional, como o cantor de brega Carlos Alexandre e o Poema Processo..

Para ele, o importante é dar espaço para as novidades. “Essa banda que está fazendo sucesso agora, a Plutão (Já Foi Planeta) vai chamar a atenção para outros artistas daqui. É claro que nem sempre vai surgir algo bacana. Tem muita porcaria também sendo produzido hoje”. Mas ele é crítico em alguns pontos. “O difícil é que, pelo nosso próprio comportamento, nós não somos associativistas. Se você pegar uma baiano, ele certamente vai levar junto com ele outros artistas conterrâneos. Aqui a gente vê umas briguinhas. Os artistas acham que podem crescer sozinhos”.

Apesar do bom momento cultural, várias são as contradições. Para ele, poucos natalenses conhecem o mínimo da história de Natal. “A primeira coisa que precisamos é conhecer o que nós somos”. Além disso, o que sente falta é da presença mais forte do poder público para alavancar o que é feito localmente. “Por parte do estado, a gente sente um marasmo. Não dá pra acreditar, por exemplo, que o Teatro Alberto Maranhão está um ano parado”.

Viciado em leitura de jornal – ele lê sete jornais por dia -, seu consumo literário se concentra em janeiro, quando vai pra praia de Jacumã e leva os livros que estocou durante o ano. Uma das coisas que nota na produção literária do Estado é a carência na ficção. “Faltam bons romances. Mas tem coisas boas. Aquele editor José Correia Torres faz um trabalho interessante, buscando talentosos escritores para escrever biografias”.

Livro novo à vista
Cassiano tem um livro pronto que está em fase de edição. A previsão de lançamento é para outubro e vai sair pela editora Flor e Sal. O nome é “50 Anos de Reportagem” e reúne textos marcantes que escreveu sobre o Rio Grande do Norte no período em que trabalhou na Tribuna do Norte, no extinto Diário de Natal e publicações nacionais em que foi colaborador, como a revista Fatos e Fotos.

“Fiz um apanhado das minhas reportagens publicadas e entreguei ao editor Adriano de Souza. Ele que fez a seleção. São reportagens feitas sobre os mais diversos assuntos da sociedade potiguar, da política, passando por economia, até cultura e esporte”.

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