O Resgaste de Rockfeller

Publicação: 2021-02-28 00:00:00
Ezequias Viana Moura
Diretor de Administração e Finanças da EMPARN 

A história e a ficção estão repletas de ações de resgate de objetos, animais e pessoas. São icônicos os resgates dos mineiros do Chile em 2010 e dos meninos da caverna na Tailândia em 2018, mas não podemos deixar de lembrar das pessoas resgatadas do World Trade Center, em Nova York, no fatídico 11 de setembro de 2001, antes que os edifícios desabassem.

A ficção nos traz uma bela estória com o Resgate do Soldado Ryan na II Guerra Mundial. O filme de Steven Spielberg não resgata apenas um soldado, único sobrevivente de uma família guerreira, mas, sobretudo, idealiza a necessidade do cumprimento do dever, mesmo com o sacrifício da própria vida.

Ora, a ficção, em particular a literatura, trata das questões de forma universal e, ao fazê-lo, baseia-se em princípios filosóficos, morais e éticos, que criam as bases do compromisso e do dever do homem consigo mesmo, a família, o trabalho e a comunidade.

Em outra vertente, a existência humana é repleta de adiamentos. Talvez a síndrome da postergação seja a atitude humana mais comum, em particular no serviço público, que por sua natureza é entendido como se a ninguém pertencesse e, por consequência, interessasse. 

Trabalho em uma pequena empresa pública, com importantes serviços prestados à população do estado, apesar das restrições financeiras históricas. Nos últimos anos, temos promovido várias correções em sua estrutura física que, ainda que soe estranho, é muitíssimo diversificada, embora esteja relativamente envelhecida e se espalhe por grande parte do território estadual. Ora, esses esforços são constantemente testados com os abalos provocados pelo tempo.

Atuo mais na retaguarda, providenciando meios e recursos para o alcance das metas. Dessa posição, assisti, de camarote, no dia 06/02/2021, a um resgate que, embora não se compare aos grandes resgates éticos e morais, apresentou-se pedagógico ao fazê-lo com simplórios 200 litros de leite bovino.
Há mais de um ano, a estrutura de uma das nossas fazendas de gado bovino recebeu algumas correções e manutenções na conservação e refrigeração de leite. No entanto, naquele dia, desde cedo pude acompanhar o esforço de alguns abnegados colegas para contornar os efeitos advindos de uma pane na rede elétrica que dá suporte à refrigeração do leite já colhido.

Sendo sábado um dia de descansar e dar trato às demandas pessoais, os funcionários se dispersaram em seus afazeres particulares em uma vasta região, distante, na maioria dos casos, da sede da fazenda, impossibilitando, para alguns, qualquer ação física naquele local. Restou-lhes a tecnologia de comunicação por telefone ou grupal via WhatsApp. 

Compreendi, ao acompanhar seus diálogos, ser uma questão de honra não perder o leite armazenado, já que a pane elétrica estava longe de ser resolvida. Afinal, o leite produzido não representava apenas o valor monetário de cerca de R$ 300,00, mas traduzia também o esforço biológico das vacas ordenhadas e de uma equipe que se dedicara a um trabalho árduo, honesto e enobrecedor de extraí-lo e conservá-lo. Deixá-lo putrefazer seria não só uma afronta ao trabalho conjunto de produzi-lo, mas, sobretudo, um pouco-caso com a organização para qual trabalham. 

Apartados pela distância, eles foram tateando e desenhando soluções que contornassem as dificuldades e a impossibilidade de comunicação em alguns casos, a pouca disponibilidade de pessoal típico de um fim de semana, e a ausência de veículos para transporte do leite – seja da empresa de laticínio, cuja frota estava incompleta, seja porque os nossos motoristas estivessem em missões longe do local –, até que, horas depois, resgatassem o precioso líquido. Fizeram isso de forma profissional, compromissada; sem a mínima cobrança, discussão e crítica, e, ao final, reconheceram o desprendimento, o esforço e a iniciativa daqueles que deixaram seus afazeres particulares e se apressaram para ajudar na resolução do problema. 

Não se trata do heroico resgate de Ryan, longe disso, mas se extrai do episódio conclusões exemplares. Primeiro e acima de tudo, que o êxito dependeu da ação e do compromisso individual; levou, em contrapartida, água abaixo a visão generalizada da falta do interesse pelo que é público; revelou que o espírito de cooperação institucional deve sobre-existir às diferenças e interesses individuais e grupais; e, resgata a honra como algo virtuoso.









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