O romance e a memória de Madalena Antunes

Publicação: 2017-04-05 00:00:00 | Comentários: 0
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A potiguar Madalena Antunes estreou na literatura aos  78 anos. Seu primeiro e único livro foi “Oiteiro – Memórias de Uma Sinhá-Moça”, de 1958, considerada a primeira obra memorialística do nordeste. Filha da elite rural, ela narra no livro sua infância numa Ceará-Mirim que vivia o auge da produção canavieira, detalhando não apenas aspectos da sua vida, mas o do cotidiano da época e pessoas com as quais conviveu.

Última edição foi lançada em 2003, pela coleção AS Editora
Última edição foi lançada em 2003, pela coleção AS Editora

Na última semana, Madalena Antunes (1880-1959) apareceu numa lista da revista Super Interessante como o nome mais representativo das letras potiguares. A seleção se baseou em números de prêmios, participações em Academias de Letras, cobranças nos vestibulares, número de traduções para línguas estrangeiras e reconhecimento por sintetizar a identidade do seu estado.

Para a professora e poeta Diva Cunha, a aparição do nome de Madalena é algo curioso, mas justo. “Seu livro é uma obra exemplar. Traz para a literatura do RN, além da linguagem, um documento sobre a vida num engenho”, diz a pesquisadora, que escreveu sobre Madalena no livro “Antologia de Escritoras do Rio Grande do Norte”, junto com a professora Constância de Lima Duarte. “Madalena trabalhou um gênero pouco explorado no Brasil daquela época, principalmente entre as mulheres. São memórias de uma menina de elite. É algo de grande importância literária e histórica. Além do conteúdo estético, é um depoimento muito significativo sobre o início da república no interior do nordeste”.

Madalena Antunes vem de uma família rica de Ceará-Mirim. É irmã de Etelvina e Juvenal Antunes. Seu lançamento tardio na literatura, segundo Diva, tem a ver com os costumes da época, em que a sociedade era extremamente patriarcal. “Ela relutou em relatar suas histórias ao público. O que não é novidade. A moral daquela época era a mulher, depois de casar, abandonar as 'veleidades culturais' para se dedicar ao lar”, conta. A professora lembra que a potiguar não tinha pretensões de ser escritora e só publicou por ter sido incentivada por vários intelectuais de sua geração, com os quais teve amizade, como  Câmara Cascudo, Nilo Pereira e Palmira Wanderley. Depois de lançada em 1958, a obra ganhou uma segunda edição somente em 2003, dentro da coleção Letras Potiguares, da A.S. Editores.

“Oiteiro foi bem recebido pelo público local. Mas ficou restrito ao estado. Sua linguagem é simples, mas de uma simplicidade difícil de alcançar. São histórias de menina, escritas de forma espontânea. É um pena que Madalena tenha produzido apenas um livro”, comenta Diva, que compara Oiteiro com o da mineira Helana Morley, “Minha Vida de Menina” (1942).

O escritor Paulo de Tarso Correia lembra que conheceu a escritora quando ela estava em seus últimos anos de vida. “Eu tinha 15 anos. Pude perceber seu bom humor e ouvir dela algumas histórias pitorescas sobre Ceará-Mirim. Era uma pessoa muito agradável”, conta.

Madalena Antunes deixou único livro, estudado até hoje
Madalena Antunes deixou único livro, estudado até hoje

Em Ceará-Mirim, Madalena Antunes é nome de escola e de rua. A casa onde viveu, no Engenho Oiteiro, está em ruínas.  Há anos fora de catálogo, seu livro pode ganhar em 2017 uma reedição capitaneada pela  Academia Cearamirinense de Letras e Artes, mas a presidenta da instituição, Juventina Simões, ainda busca meios para viabilizar a obra.

“Nos anos 1990 houve uma participação importante da literatura potiguar nas escolas locais. Muito por causa de livros como o de Tarcísio Gurgel, sobre a literatura norte-riograndense e a que fiz com a professora Constância de Lima Duarte, sobre mulheres escritoras. No vestibular também era cobrada obras de autores potiguares. Hoje cabe até uma reflexão sobre como está a literatura local nas escolas, já que o Enem não cobra autores locais”, comenta Diva Cunha. “Lembrar de Madalena é um começo para que se busque nas escolas trabalhar com muitos dos outros escritores do estado”.


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