Cookie Consent
Viver
'O Sertão de Oswaldo Lamartine' é lançada hoje, às 16h, no auditório da reitoria da UFRN
Publicado: 00:01:00 - 27/05/2022 Atualizado: 22:45:39 - 26/05/2022
Tádzio França
Repórter

A obra do maior estudioso do sertão em território potiguar está finalmente reunida: a coleção “O Sertão de Oswaldo Lamartine” será lançada nesta sexta-feira, às 16h, no auditório da reitoria da UFRN. A publicação faz parte das comemorações dos 60 anos da Editora da UFRN. A publicação consiste na reedição de um conjunto de livros em cinco volumes, nos quais Oswaldo Lamartine de Faria (1919-2007) destrincha com erudição, objetividade e sensibilidade, os hábitos, costumes e tradições do velho mundo sertanejo. A coleção pode ser baixada gratuitamente no repositório da UFRN. Já a tiragem impressa será destinada às bibliotecas. 

Cedida


O critério para a organização da coleção foi o foco nos livros. “Se a gente incluísse artigos, cartas, e outros textos soltos que ele escreveu, seria mais difícil fazer uma obra com unidade, então optamos por focar nos livros”, explica o jornalista Vicente Serejo, que organizou a publicação junto com Graco Aurélio Melo Viana e Helton Rubiano. Amigo íntimo de Lamartine, Serejo também é possuidor da obra completa do escritor, e foi orientado pelo próprio sertanista sobre como proceder com as publicações do material após a sua morte. 

A coleção traz as belas capas e ilustrações feitas por Newton Navarro, acrescida de textos de outros mestres sobre a importância de Lamartine, como Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna, e Virgílio Maia. Outra peculiaridade da coleção está no quinto volume, que apresenta três discursos importantes que também ajudam a entender o autor: um é o do reitor Ivonildo Rêgo quando outorgou o título de Doutor Honoris Causa a Oswaldo, o discurso de Vicente Serejo, e o do próprio Lamartine, agradecendo a honraria. 

Os cinco volumes funcionam como um detalhista documentário o sertão nordestino, “uma civilização antiga que está morrendo”, segundo Serejo. “Esses textos documentam a vida de nossos ancestrais, é um registro precioso de nossos traços culturais mais marcantes, da nossa identidade”, afirma o jornalista. É uma obra de escrita embasada, profunda e ao mesmo tempo sentimental sobre os interiores nordestinos. Os costumes, as tradições, a geografia, vestuário, alimentação, o modo de vida: tudo que identifica o sertanejo foi estudado por Lamartine. 

Volume a volume
No primeiro volume da coleção, Oswaldo Lamartine escreveu sobre a caça nos sertões do Seridó; algumas abelhas do sertão do Seridó: notas de carregação; e conservação de alimentos nos sertões do Seridó. No volume dois da coleção, o escritor discorre sobre o “ABC” da pescaria nos açudes do Seridó, e os açudes dos sertões do Seridó. 

O terceiro volume traz Lamartine destrinchando informações sobre encouraçamento e arreios do vaqueiro do Seridó; ferro de ribeiras do Rio Grande do Norte; e apontamentos sobre a faca de ponta. No volume quatro, o assunto é o vocabulário do criatório (de gado) norte-rio-grandense. E no quinto volume, além dos discursos da solenidade de Honoris Causa, traz o texto sobre os alpendres do Acauã – sua fazenda favorita, em Acari.   

Serejo explica que o único livro que ficou de fora da coleção, por desejo do próprio Oswaldo Lamartine, foi o “Uns fesceninos”, lançado em 1970, uma compilação de poemas eróticos nordestinos, registro de “escárnio” popular e “lírica obscena”, como definiu o autor. “Por ser um livro de conteúdo erótico, Oswaldo preferiu que a obra não fosse submetida a nenhum tipo de financiamento público”, diz. 

Vicente Serejo conheceu Lamartine na década de 80, período em que o escritor morava no Rio de Janeiro, mas estava sempre fazendo a ponte aérea com o Rio Grande do Norte. Quando estava em território potiguar, nunca deixava de visitar o amigo Hélio Galvão, em Tibau do Sul, outro escritor importante da história do estado. 

“Quando eu ia ao Rio de Janeiro, também sempre o encontrava por lá. Nos tornamos bons amigos, e estávamos sempre nos comunicando por cartas e telefone. Nesse processo de amizade, eu me tornei uma das pessoas que ele escolheu para confiar suas obras originais, cuidar da preservação e organização delas”, conta.  

O jornalista se considera muito feliz por ter enfim realizado o desejo do velho amigo sobre a reunião de sua obra. “Mais que uma amizade, também foi aprendizado. Ele foi um professor, aprendi muito sobre as nuances do sertão, sobre a alma desse território que é tão significativo para nós”, afirma. Serejo ressalta que a própria aparência da coleção reflete a presença de Lamartine que, segundo ele, era um homem “monástico”. “Um cara inteligentíssimo, culto, mas despojado, sem luxos. A coleção que a EDUFRN é assim também, simples mas com muito conteúdo, é um reflexo de seu auto”, analisa. 

No alpendre
Oswaldo Lamartine nasceu em Natal, filho de Silvina Bezerra de Faria e do ex-governador Juvenal Lamartine. Em 1940, formou-se na Escola Superior de Agricultura de Lavras. Administrou fazendas no interior de vários estados. Foi técnico do Banco do Nordeste, professor da Escola Doméstica e do Colégio Agrícola de Jundiaí. Também atuou como pracinha durante a Segunda Guerra Mundial.

Depois do período no Rio de Janeiro, Lamartine refugiou-se na Fazenda Acauã, onde morou até novembro de 2005. No alpendre da velha casa-grande, escrevia suas detalhistas pesquisas sobre açudes, abelhas, caça, conservação de alimentos, e as facas de pontas. Estudioso  das  coisas  do  sertão  do Seridó, região que abarca suas raízes, publicou obras fundamentais sobre a cultura sertaneja, como “Notas de Carregação”, “Apontamentos sobre a Faca  de  Ponta”,  “A  Caça  nos  Sertões  do  Seridó”,  “Conservação  de Alimentos do Sertão do Seridó”. 

“Oswaldo nunca foi um antropólogo, mas um observador culto e apaixonado. Ele estudava o homem como centro da civilização nordestina. Ele decalcou cada elemento dessa vivência”, declarou Serejo. 

Serviço:
Lançamento da coleção “O Sertão de Oswaldo Lamartine”. Sexta, às 16h, no auditório da reitoria da UFRN. Link para baixar: 
https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/45954

O Sertão de Oswaldo Lamartine
Coube ao reitor da UFRN, professor José Daniel Diniz Melo, traçar um pouco da biografia do sertanista, disposta na apresentação dos cinco volumes de O Sertão de Oswaldo Lamartine. Daniel lembra que, quando Oswaldo recebeu, em 2005, o título de Doutor Honoris Causa da UFRN, já ultrapassava oitenta anos de existência. “O reconhecimento, a seu tanto tardio, mas obviamente oportuno, fazia justiça a um autor que, não tendo pertencido à academia, produziu obra de suma importância sobre o semiárido seridoense, numa prosa por todos elogiada”, relata o professor.

Na opinião do Reitor, Oswaldo poderia ter optado por sua opção intelectual, ainda mais pelo que parecia ser o destino de estudar de forma incansável a terra que funde culturalmente os estados irmãos Rio Grande do Norte e Paraíba: os sertões do Seridó. “Ocorre que esse doutor natalense, dominado pelo sentimento telúrico, tinha a correr nas veias o mais autêntico sangue seridoense, herdado de outro amoroso por aquelas terras, cujas tradições chegou a pesquisar, em Velhos costumes do meu sertão, o ex-governador Juvenal Lamartine”, descreve José Daniel Diniz.

No texto Oswaldo Lamartine por ele mesmo, disponível no volume 5 da coleção, o próprio se descreve como caçula de uma ninhada de dez. “Desasnado na escola da Professora Belém Câmara (1927); primário no Colégio Pedro II (Natal, 1928-30) do Professor Severino Bezerra e preparatórios no Ginásio do Recife (1931-3) e Instituto La Fayette (Rio, 1933-6). Técnico agrícola pela Escola Superior da Agricultura de Lavras - MG (1938-40). Casou-se com Cassilda Aranha Soares (1944), que lhe deu Isadora (1945-1972) e Cassiano (1948), agrônomo da UFRN. Lamartine lecionou na Escola Doméstica de Natal e Escola Técnica de Jundiaí/RN. Pracinha daquém mar nº 1918 da III Cia. de Metralhadoras/16º RI, durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1950, ‘tomou um Ita no Norte’ e foi encarregado da Fa.

Oratório, Macaé/RJ. Administrador da Colônia Agrícola do Maranhão (Barra do Corda, 1951-2) e Núcleo Colonial do Pium/RN (1952-4). Em 1955, ingressou no Banco do Nordeste do Brasil onde esteve depositado até se aposentar (set./1979). [...] Teve uma segunda união com Maria de Lourdes Leão Veloso da Rocha (1961). Repartia o seu entardecer catando livros raros nos sebos do Rio de Janeiro e plantando árvores num ‘lenço de chão’ que apelidou de Acauã (Ipatira-RJ) para o amanhã alheio, ocupação que agora está transferindo para os sertões de sua terra”, descreveu Oswaldo sobre si mesmo.

Ainda em seu texto, José Daniel Diniz diz que do pai, herdaria Oswaldo o amor irrecorrível pelo sertão do Seridó, fascinado por tudo que se refere a sua geografia física e humana: a pecuária, a fauna, a flora, os instrumentos de trabalho, as técnicas de armazenamento de água, as serras e a Caatinga, o vaqueiro, a comida, a lírica popular. “Desde que começou, ainda muito jovem e já merecendo reconhecimento de quem lia seus textos (especialmente do velho parceiro Vingt-Un Rosado), Oswaldo Lamartine logo se colocou em uma vastíssima galeria, da qual permito-me destacar nomes como os de Manoel Dantas, Zila Mamede, José Bezerra Gomes, os governadores Lamartine e José Augusto, Paulo Balá e o inesquecível professor Muirakytan Macêdo. E de pronto se tornou admirado pela intelectualidade brasileira, merecendo referências elogiosas de intelectuais do porte de Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna e José Lins do Rêgo”, acrescentou.(Agecom/UFRN)

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte