O Sertão dentro de nós em A História da Eternidade

Publicação: 2015-04-02 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

O nordestino, por mais urbano que seja, carrega algo precioso dentro de si. E ele deve se orgulhar disso! É esse “algo”, o Sertão, inerente à sua origem, que o faz diferente, especial, não no sentido de superioridade e sim em termos universais, tridimensionais. Então se você, caro leitor(a), não consegue identificar a poesia na paisagem nem se distanciar dos estereótipos, siga a sugestão da música que o personagem Joãozinho, vivido pelo ator Irandhir Santos, coloca para tocar em uma das cenas do filme “A História da Eternidade”: ‘escute’, feche os olhos e sinta... “Se eu não entender / Não vou responder / Então eu escuto/ Eu só vou falar / Na hora de falar / Então eu escuto / Fala / lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá”. É nesse momento que a câmera essencialmente fixa da fotografia faz o mundo girar. 
DivulgaçãoO ator Irandhir Santos mergulha neste sertão imagético e mítico de “A História da Eternidade”. No papel de Joãozinho, ele foi premiado no festival de PaulíniaO ator Irandhir Santos mergulha neste sertão imagético e mítico de “A História da Eternidade”. No papel de Joãozinho, ele foi premiado no festival de Paulínia

É (também) no embalo da antológica “Fala”, dos Secos e Molhados, de meia dúzia de casas, um bar, um aparelho de tevê comunitário e um telefone público que o primeiro longa-metragem de Camilo Cavalcante, diretor e roteirista pernambucano, uma fábula poética sobre o amor, ancora seu discurso e suas metáforas para falar sobre a relação de três mulheres em diferentes fases da vida com seus desejos e sonhos. 

Em cartaz a partir desta quinta-feira na sessão Cinema de Arte, do Cinépolis Natal Shopping, com exibições de segunda a sexta às 19h30 e no fim de semana às 12h, a ‘hiper-realidade delicada e quase documental’ de “A História da Eternidade” faz jus aos prêmios que faturou em festivais ao longo de 2014 – entre eles os de melhor filme brasileiro e do público na Mostra Internacional de São Paulo, e de melhor filme, diretor, ator, atriz e crítica em Paulínia.

O filme também foi exibido na 2ª Mostra de Cinema de Gostoso, e o diretor, que conversou por telefone com a reportagem do VIVER, adiantou que estará em Natal no mês de maio para participar do festival Goiamum Audiovisual.

Dedicado a Dominguinhos (1941-2013), que compôs parte da trilha sonora original e fez deste seu último trabalho em vida, o filme conta a trajetória da adolescente Alfonsina (Débora Ingrid) que sonha em conhecer o mar; de Querência (Marcélia Cartaxo), mulher de meia idade que chora a perda de um filho ainda bebê; e da idosa Das Dores (Zezita Matos), líder religiosa da pequena comunidade sertaneja que sofre ao ser surpreendida por um desejo ‘mundano’.

Além da presença luxuosa de Dominguinhos, o filme também contou com presença do compositor polonês Zbigniew Preisner, que trabalhou com o diretor Krzysztof Kieslowski (1941-1996) nos filmes  “A Fraternidade é Vermelha” e “A Liberdade é Azul”. “Foi uma tremenda honra”, comemora. O realizador explica que a música no filme “é um elemento forte e marca a dramaturgia”.

Em 2003 Camilo lançou um curta homônimo, mas o elo com longa se traduz no ambiente sertanejo e na poesia, “uma cinestesia cinematográfica. Vivemos  sob uma nuvem de cinismo e ceticismo, onde os sonhos passaram a ser o de consumo. Hoje as pessoas estão muitos secas, e o Sertão de ‘A História da Eternidade’ irriga a alma”.

Mais de uma década
Camilo Cavalcante trabalhou 12 anos no projeto, gravado ao longo de dois meses no vilarejo de Santa Fé em 2012, a 60km de Petrolina (PE). Insistiu até ter sua proposta aprovada em edital de fomento a produções audiovisuais de baixo orçamento do Ministério da Cultura – o longa custou R$ 1,8 milhões, destes R$ 1,2 milhão são do MinC, R$ 520 mil do Funcultura do Governo de PE e o restante do Canal Brasil, que por sinal exibiu o filme nesta última terça (31). O diretor também captou mais R$ 400 mil (MinC e Governo do PE) para distribuição.

Bate-papo - Camilo Cavalcante
diretor e roteirista

Camilo, não sei se você teve acesso a alguma das obras do escritor e sertanista potiguar Oswaldo Lamartine (1919-2007), elas falam muito desse Sertão interior que habita nas pessoas...

Não conheço o autor, mas é exatamente essa a ideia: mostrar o Sertão que habita em nós como um território da alma. Nasci no Recife, mas passei toda minha infância no interior do Piauí, da Paraíba, de Pernambuco. Meus pais são médicos sanitaristas e trabalhavam circulando por cidades do interior nordestino. Então, de certa forma, o Sertão ficou, está dentro de mim, e permeia muito meu imaginário.

Por isso fez questão de fugir dos estereótipos?
As relações no Sertão estão muito estereotipadas pelas artes em geral, mostram como um lugar seco onde as pessoas precisam se sacrificar para sobreviver. No Sertão as relações se dão de maneira direta, franca,  honesta, um quadro muito propício para que floresçam amores brutos como os que estão no filme. Quem assistir não vai ver imagens estouradas, aquela luminosidade forte não fere a retina do sertanejo; por isso o contraste muito bem demarcado, uma relação de claro e escuro definida como nos trabalhos de (pintor italiano) Caravaggio (1571-1610).

Já trabalha em algum novo projeto? Tem a ver com Sertão?
Fiz muitos curtas ambientado no Sertão, mas não significa que minhas produções estão limitadas a esse universo. Meu próximo filme será um road movie chamado “King Kong em Assunción”, que conta a história de um matador de aluguel que vai se esconder no interior da Bolívia. Arrependido, velho e no fim de carreira, ele sai em busca de uma filha que não conhece que mora no Paraguai.

O Canal Brasil exibiu seu filme esta semana (terça-feira, 31). Isso atrapalha o desempenho no cinema?
Pois é, tentamos prorrogar essa data de exibição para junho, justamente para poder circular mais nos cinemas. Foi meio que uma imposição. De qualquer modo é um filme feito para ser visto no cinema. É tudo muito delicado, elaborado, o som, a luz o enquadramento.

Você divide o filme em três partes (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu). Qual a intenção dessa marcação?
Cada imagem é emblemática, traduz e metaforiza o sentimento dos personagens naquele capítulo. O Pé de Galinha, por exemplo, se refere ao amor ainda escondido, protegido, como quando as galinhas sobem nas árvores a noite para fugir de predadores. O Pé de Bode celebra o amor que já ultrapassou a epiderme, quando o desejo já toma conta de tudo. E o Pé de Urubu tem a ver com a morte.

Mesmo com todos os prêmios e boa recepção de crítica e público, “A História da Eternidade” está em cartaz em uma sessão especial. Como furar esse bloqueio para produções independente entrar no circuito comercial?
Cara é uma máfia do mercado exibidor. Já está tudo loteado, cada um tem sua gleba e conseguir furar essa barreira é muito difícil. O filme ganhou prêmio do público na Mostra de São Paulo, um festival internacional super importante, e a (rede) Cinemark, que pagou o prêmio dessa categoria, não lançou nosso filme no Recife. Tentamos, e eles protelando com a desculpa de que teriam que voltar os filmes do Oscar. Sei que na semana de lançamento (26 de fevereiro), a maior estreia no Brasil foi Tinker Bell, um filme que nos Estados Unidos saiu direto para home vídeo. A questão é puramente comercial de grandes corporações. O cinema nacional está sendo barrado no próprio país.



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