O sertão no coração do poeta

Publicação: 2017-08-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Colaborou: Cinthia Lopes - Editora


Autor de hits como, “Pode Chorar”, “Coração”, “Você não vale nada”, dentre outros, o compositor, cantor e sanfoneiro potiguar Dorgival Dantas já chegou a alcançar o título de quinto autor mais tocado do Brasil (em 2010). Suas canções já foram cantadas por Fagner, Flávio José, Bruno e Marrone, Jorge e Mateus, Frank Aguiar, Aviões do Forró, Calcinha Preta. Até o Rei Roberto Carlos já deu voz a composições do artista reconhecido nacionalmente como “Poeta”.
Dorgival Dantas | Sanfoneiro, poeta, cantor e compositor
Mas Dorgival sempre buscou o sucesso com suas músicas, o que tem vivenciado cada vez mais nos últimos anos. Com agenda cheia, o artista roda o país com sua sanfona levando poesia para os mais diversos públicos. Quem vê o sucesso atual do artista talvez não tenha a noção do que ele precisou superar para chegar aonde está.

Nascido em 1971 na pequena Olho d'Água do Borges, distante 320 km da capital potiguar e com menos de 5 mil habitantes, Dorgival teria fortes motivos para não guardar boas lembranças de sua terra natal. Foi lá que ele perdeu sete irmãos para a fome, assistiu a seca tomar a paisagem, foi tocado pela miséria. Mas foi lá, também, que seu pai Cícero Dantas lhe ensinou os primeiros acordes de sanfona.

Num cenário tão árido, Dorgival floresceu para a música e fez da música sua ponte aérea para o mundo. Conhecido pelas composições de amor, o artista tem o dom de ver além do que as coisas são, e por isso, ele vê sua cidadezinha para além da escassez. Ele ama sua terra e dela nutre os melhores sentimentos. “As vezes eu subo no palco e me pergunto se não estou sonhando. Por isso, gosto de voltar para minha cidade, para lembrar de onde vim, ver o lugar onde tanto sonhei”, diz o artista em conversa a TRIBUNA DO NORTE.

De Fortaleza, onde mora, ele lembrou momentos importantes de sua carreira, a vida em Olho d'Água do Borges, a experiência com o grupo Os Terríveis, em Natal, onde viu surgir Solange Almeida, além de muitas outras histórias de um poeta sanfoneiro cantador.

Olho d'Água do Borges
Olho d'Água sempre foi bonita. A cidade se dividia em rua debaixo e de cima, só. A gente sempre mudou muito de casa, mas nunca tivemos trabalho com a mudança porque tínhamos poucas coisas para levar. Umas cinco redes, umas galinhas, um cesto de lenha, umas panela de barro. E pra dizer que a gente não era moderno, a gente tinha uma bateria de ferro. A energia só foi chegar na cidade em 1982, com a história do Pau Amarelo. Levei muito choque. Antes, a gente só bebia água gelada se chupasse uma pastilha Garoto antes.

Andar pelo mato

Eu gostava muito de caçar. Pegava minha baladeira, escolhia as melhores pedras, levava uma farinha com salzinho, uma cabaça com água e me mandava pro mato. Até hoje, no shopping eu me perco, mas no mato eu me acho. Eu caçava escondido. Já fui botado pra fora, nu, porque tava chupando manga, goiaba, caju, no sítio dos outros. Passou o tempo e hoje consegui uns pedacinho de chão lá. Também vendi muito peixe, andava com bacia com manga na cabeça, caju. Estudo eu não gostava de estudar, não vou mentir. Ninguém gosta de passar fome. Eu tinha que tá vendendo alguma coisa pra comer. Só Deus sabe o sofrimento.

A fome levou 7 irmãos
Todos faleceram de fome. Não tenho como esconder isso. Já eram grandinhos. A que eu mais me recordo, era Claudivana, que morreu segurando meu dedo, até respirar pela última vez, me olhando. Eu tinha 10 anos. Acho que foi a coisa mais difícil da minha vida.

É triste ver uma irmã ser carregada num cortejo, dentro de uma caixinha de madeira, que meu pai mesmo fazia, pregando uns pedaço de pau com grude. Lembro de mãe atrás com um paninho no ombro, enxugando o rosto. A gente passava em frente a igreja, estavam cantando: “Adeus meu pai. Adeus minha mãe. Adeus meus irmãos. Até quando Deus quiser”. Eram melodias tristes, mas serviam como calmante. Agradeço muito a Deus por não ter perdido os outros irmãos, Priscila, Dorgivânia e o Damião. Todos estão com saúde.

Parar de fumar

Nem quem inventou a televisão gostava mais da TV do que eu. Em Olho d'Água tinham só duas, uma era na casa de Bernadete. Para ver os desenhos da manhã, as novelas à noite, sabendo que ela fumava, eu passava na venda e comprava uns cigarros pra fumar com ela. Disso, acabei me viciando.  Depois, em Natal, peguei 19 maços de cigarro  e, olhando pra cima, disse, abaixo de Deus quem manda em mim sou eu mesmo. Joguei tudo fora. É fora do normal o prazer que o cigarro dá, mas não sinto mais vontade.

Encontro com a sanfona
Com 10 anos eu já cantava com meu pai, no quintal de casa, sem cobrar entrada, só pros vizinhos dançarem. Era a alegria da rua. Comecei a cantar com ele, depois toquei triangulo, zabumba. Com três catorze anos, meu pai tinha saído pra Caraúbas, eu me encontrei com a sanfona, estava em cima da cama. Uma Veronese 120 baixos. Eu nem podia com ela. Cantei minha primeira música. Eu era muito observador, via pai tocando, então peguei algumas coisas. Toquei uma música de Evaldo Freire, artista de Ipanguaçu. Depois foi outra de Zé Sertanejo, se não me engano ele é de Patu. Essas canções me marcaram muito.

Pai
Meu pai foi meu maior professor, meu ídolo. Se eu componho, toco sanfona, se tenho uma bela família, não passamos mais fome, abaixo de Deus eu devo a ele. Ao dom que Deus deu a ele e eu herdei e com esse dom eu consegui tudo que tenho agora. Perdi meu pai aos 21 anos, em Cidade Nova, em pleno reveillon de 91 para 92. Hoje fico um pouco agoniado quando chega o Natal e quando se aproxima do meu aniversário, no dia 5 de janeiro, porque são datas festivas próximas do dia que perdi meu pai. Mas no São João eu fico alegre, porque lembro de tocar ao lado dele. Meu pai foi meu herói.

O poeta
Uma vez, meu pai descendo o batente da cozinha, me olhou com a sanfona e disse: “faça uma musga” - ele falava “musga”. Eu disse que não sabia, que era difícil. Ele poderia dizer qualquer coisa, mas falou a seguinte frase: “é não, é igual a mata homem. Só é difícil o primeiro”. Eu nunca vou matar ninguém, mas sei que depois da primeira música só foi alegria porque não pareia mais. Mas foi com 23 anos que passei a compor bem. Na época eu estava nos Terríveis, que ira gravar um disco, e todas as músicas praticamente eram minhas.

Amigos importantes
Cheguei em Natal com a família por volta de 1986. Eu tocava com meu pai nas praias. Ponta Negra, Praia do Meio, Genipabu. Depois, mais crescido, toquei sozinho em barzinho, pizzaria, restaurante. Algumas pessoas me ajudaram bastante. Toque com Messias Paraguai, me ensinou muito. Toquei também com Raimundo Flor, tinha um campo em Igapó que a gente se apresentava. Nunez, um pessoa que tinha uma sanfona e depois de cinco anos sem tocar por causa da morte de papai, ele me ajudou. Ataliba foi outro pai pra mim. Numa situação muito difícil me arranjou um trabalho, assinou minha carteira. Eu não fazia nada, ficava só tocando música pra ele.

Os Terríveis e Solange
Entrei nos Terríveis em 1991, convidado por Ivan, o dono. Foi uma alegria para família toda. Toquei teclado. Tive dificuldade, não entendia muito do instrumento, era inocente, vinha do sertão. Ivan sustentou a peteca até eu dar conta do recado. O cantor era o Roberto, depois a Solange entrou. Cheia de talento, chegou arrebentando, se tornando peça importante na banda. Fomos vizinhos. Tenho muito carinho por ela e desejo todo sucesso na carreira solo dela. Em 98 sai e ela permaneceu. Depois nos encontramos com ela já no Aviões do Forró. E hoje, com ela está na carreira solo.

Meu Forró em Olho d'Água
Acho que precisa melhorar a cultura e o lazer, para que pessoas do mundo todo possam visitar a cidade, gastar lá, comprar os produtos locais, gerar renda. Já fiz festas na cidade e sei o quanto isso é importante para o povo. Espero ter condições de ajudar a população, indo para a área do entretenimento e comércio, fazer meu forró lá. Acredito que é a coisa que posso fazer. E torço para que outras pessoas também façam algo pela cidade.

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