O Sertão nunca visto

Publicação: 2017-11-09 01:47:00 | Comentários: 0
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O jornalista Osair Vasconcelos conheceu Henfil e teve alguns encontros com ele na época em que viveu em Natal. Para ele, um dos fatos mais surpreendentes a respeito do cartunista famoso era seu total desconhecimento acerca da caatinga nordestina, até vir morar em Natal.

O jornalista Osair Vasconcelos conta sobre os encontros com Henfil
O jornalista Osair Vasconcelos conta sobre os encontros com Henfil

No livro “Encontros Passageiros Com Pessoas Permanentes” (Coleção Letras Natalenses – 2008), Vasconcelos deixa clara essa impressão, quando escreve: “Talvez o fato mais interessante de todos os vividos por ele entre nós seja o de que , somente após vir morar aqui, veio a conhecer a caatinga tão bem retratada nos cartuns de Zeferino, Bode Orelana e Graúna. Até então, Henfil se orientava por velhas lembranças de leitura de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Aqui, conheceu o interior nordestino de perto, primeiro em visitas a Taipu e, depois, em passeio a Caicó, organizado pela recém-fundada Cooperativa de Jornalistas – Coojornat, em 77”.

O rápido engajamento de Henfil naquela cooperativa, liderada por Sávio Hacrkadt e Demir Azevedo,  com participação de Osair, teve um outro momento, para o jornalista, “pitoresco”: o encontro entre o cartunista engajado e o empresário José Mindlin. Osair havia entrevistado Mindlin em Natal naquele período e dissera a ele, por acaso, que quem discursaria na fundação da Coojornat seria Henfil, cujo trabalho mais famoso da época era o “Cartas à minha  mãe”, que era publicado mensalmente na Revista Isto É. Mindlin era fã de Henfil, sem contar que era também um sujeito que possuía posições contrárias à ditadura militar. “Mindlin se convidou (para a abertura da entidade). E, no sábado à tarde, entre os  morcegos que voavam baixo no sótão do Itepan, aqueles morcegos típicos de igreja, num ato promovido por uma entidade quase clandestina, um dos empresários mais poderosos do País assistiu a um dos mais violentos críticos do regime falar sobre política e jornalismo”, relata Osair.

No mesmo texto, Vasconcelos relembra a vez em que recebeuuma ligaçao de Henfil, que ficara sabendo que a Coojornat iria fazer uma excursão até Caicó e ele queria ir. Seria sua primeira incursão à caatinga. “Então, de queixo caído, ouvi do homem que melhor retratava a caatinga naquele momento me confidenciar: Nunca estivera no sertão nordestino”. Suas impressões retratadas com a Graúna, o Bode Orellana e Zeferino,  vinha de leituras de livros de Graciliano Ramos, filmes de Glauber Rocha,desenhos de Perci Lau e, claro, sua imaginação. “Daí sua excitação em misturar-se a um bando de jornalistas provincianos, encarar o desconforto de quatro horas de viagem num ônibus para estudantes e deslumbrar-se com uma ou outra banalidade que eu, por nada, não, só por conhecer a caatinga, lhe contava sobre o Seridó”.


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