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Rubens Lemos Filho
O sexto livro
Publicado: 00:01:00 - 13/05/2022 Atualizado: 20:37:10 - 12/05/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Nas salas de aula de colégios religiosos, ouvia professores de Português ou da infame Educação Moral e Cívica (tenebrosa farsa didática para omitir a Ditadura), repetindo enquanto conversávamos nas cadeiras lá de trás: “homem será feliz  na vida se tiver um filho, plantar uma árvore e escrever um livro.” Hoje eu digo, babaquice imensa. 

Horrível em Matemática, gostava de escrever. Fiz até um jornal à caneta imitando a Tribuna do Norte, onde meu pai trabalhava exercendo a editoria esportiva para não falar sobre política. Gesto de Aluízio, Agnelo e Zé Gobat Alves. 

Frequentava tanto a redação quanto o estúdio da rádio, espaço pequeno na Rua Tavares de Lira, em frente à banca de revistas de Bezerrinha, onde meu pai buscava toda semana a Revista Placar. 

Escrever é o que sei fazer e mais nada. Absolutamente. Não sei dirigir carro, nunca andei de bicicleta, detesto viajar, nem sei fritar ovo e até as avenidas numeradas do bairro do Alecrim não  decorei. 

Como se dependesse de caneta, depois,da máquina de datilografia Olivetti, em seguida do computador 386, dos notebooks, dos smartphones e do meu macio teclado adaptado pelo meu filho. Os dedos deslizam como se eu  fosse driblador de campo, algo que também nunca fui, acumulando incompetências. 

Na casa em que morei, havia não uma, mas duas árvores imensas, duas mangueiras frondosas, boas para mim pela sombra e menos agradáveis pelo sabor da fruta, exageradamente doce. 

A casa está vazia, as mangueiras, cortadas, os habitantes, vivendo cada qual a seu modo. Os mais velhos, mortos. Evito revê-la, ela, a casa. E a rua também. Se fosse minha, talvez mandasse ladrilhar e selecionar seus moradores, mantendo sua paisagem florestal. 

Voltando à escola, compensava a nota 2 em Matemática com um bom desempenho em Português. Orgulhoso, ganhei 10 fazendo um trabalho como se fosse script do Jornal Nacional narrando a brutal Guerra das Malvinas ou Falkland, entre argentinos e ingleses, bem perto da Copa do Mundo de 1982. Os Hermanos tomaram um sapeca-iaiá de chumbo e Maradona faria a revanche quatro anos depois. 

Entrei no jornalismo aos 17 anos e Fazendo o que podia: escrever. Pai de dois filhos, em 2001, lancei meu primeiro livro, a biografia do maestro Danilo Menezes, do ABC. Em 2008, um espelho autobiográfico de crônicas com meu codinome  verdadeiro designado por Adriano de Sousa: O Homem Óbvio.

Craque,  Adriano de Sousa  editou o livro dos 100 anos do ABC e Memórias Póstumas do Estádio Assassinado, de 2017. Sobre a derrubada do Estádio Machadão. Em 2019, colhi o depoimento biográfico do médico do América, Maeterlinck Rêgo, Doutor na Bola e na Vida. Nunca vendi menos de 300 livros no lançamento de cada um. 

Indiferença 
Terminei há pouco o texto definitivo de Juvenal Lamartine, Primeiro Estádio, trabalho de pesquisa delicioso que me pôs dentro do calor dos clássicos do campinho do Tirol, berço da bola do Rio Grande do Norte. 

Não faço relatório. Conto histórias, teclo reportagens  e, modéstia parte, gostei tanto do que está no Juvenal Lamartine que o nivelo ao libelo do Machadão. Mais de 400 páginas. 

Jogos nervosos, ídolos resgatados, episódios apimentados, personagens que dormem, na condição de almas penadas, no escuro do estádio vazio quando a noite cai. Há fantasmas ali, sim senhor e eles se reúnem a cada madrugada, redesenhando o passado desde 1928. 

O livro está pronto e imaginei que poderia lançá-lo por meios próprios(não posso), o que fiz em todos os outros, exceto o de Maeterlinck, que me contratou para consultoria. 

Cobre-me o manto cômodo de um silêncio – não quero crer -, pessoal. Uso minhas redes sociais, peço patrocínio, ninguém se manifesta. 
Claro que me entristeço. Há leis de incentivo, viés político e sou um desorganizado incorrigível. Não entendo de papel, requisitos, orçamentos e burocracias que aparecem para mim em mandarim.  

O projeto está parado. Natal de minha devoção não se manifestou. Ficou naquela omissão dos sorrisos irônicos. Nada contra, mas se montasse um compêndio de perfis piegas de atores de colunas sociais, a tiragem estaria garantida. 

O fato é que, talvez,  imprima  apenas um exemplar. Pelo menos ele, a me cobrar, da estante, a reciprocidade do amor entregue  à cidade que me devolve indiferença. Precisar é padecer no sadismo da vida. 

Rivalidade 
Um dos testes mais duros do ABC será amanhã em Ribeirão Preto contra o Botafogo(SP), time que revelou ao mundo o Doutor Sócrates.

Vaga 
Em 2016, o ABC eliminou o Botafogo e subiu da Série C para a Série B, gol do então garoto Elivelton, revelado nas bases do clube. 

Kelvin 
É, hoje, a unanimidade inteligente alvinegra. Machucado, é idolatrado. Curado, é um azougue diante dos zagueiros. 

Lateral 
Marcos Vinícios vem ensinando como se joga lateral-direito no ABC. 

Estatísticas 
Melhor do que exaltar o site de projeções Chance de Gol, que o coloca entre os classificados, é o América mostrar bom futebol. Sem ele, numerologia não adianta. 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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