O sonho eterno na Casinha Branca

Publicação: 2018-08-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Uma casinha num lugar tranquilo, com quintal verde, varanda pra armar a rede, janela com vista para ver a vida passar desapressada. Diante de um mundo tão agitado e agressivo, provavelmente poucos são os que não desejariam um cantinho assim, sossegado, uma “Casinha Branca”, como bem cantou Gilson naquela que é sua música de maior sucesso – e que sucesso! Tocada em todo o Brasil no ano de 1979, quando estourou na trilha da novela “Marron Glacê”, a canção jamais caiu no esquecimento.

Gilson Vieira, compositor da música Casinha Branca
Gilson Vieira, compositor da música ''Casinha Branca''

“Casinha Branca” foi regravada mais de 100 vezes, ganhou a voz de intérpretes consagrados e continua a ser redescoberta, entoando trilhas de novelas recentes, como “Malhação” (2017-2018), na versão da jovem Roberta Campos, “Êta Mundo Bom” (2016), com Maria Bethânia, e na novela infantil “Cúmplices de um Resgate” (2015-2016).

Compositor da música ao lado de Joran, e de muitos outros sucessos, como “Verdade Chinesa” (Emílio Santiago), “Fim de Solidão” (José Augusto), “I Love You” (Adriana), o potiguar Gilson Vieira é o entrevistado deste domingo no Minha Área. Nascido em Macau, na Costa Branca do litoral do RN, em 1952, ele está radicado no Rio de Janeiro desde 1966. Foi lá que construiu sua carreira, apesar de ter dado os primeiros acordes ainda adolescente na capital salineira, com a banda “Sempre Alerta”.

Apesar da distância, o artista jamais perdeu o contato com seu estado de origem. Em meio ao sucesso fez shows em Macau e em Natal pelo projeto Seis e Meia. Quem articulava suas vindas à terrinha era o irmão, o também cantor e compositor Nazareno Vieira, figura bastante conhecida da noite natalense, falecido em 2012. Nesta conversa com Gilson, ele lembrou alguns episódios de suas passagens pelo RN, recordou também da infância, comentou o sucesso da sua grande música da carreira e contou outras boas histórias.

Depois de se dedicar por um bom tempo apenas ao trabalho de compositor, nos últimos anos ele voltou a fazer shows. No início deste ano lançou o EP de canções inéditas, dentre as quais “Nada pode acorrentar o amor”. Gilson adianta que deve aparecer por Natal em novembro para um show em parceria com o amigo e conterrâneo Elohin Seabra. “Ele mora aqui no Rio, está fazendo uns shows no Teatro Rival com alguns participações e me convidou. Disse que quer levar essa apresentação pra Natal em novembro. Então devo aparecer pela terrinha ainda esse ano. O dia e local eu ainda não sei os detalhes”, informa o cantor.

Esses retornos à Natal, embora rápidos, Gilson diz que são sempre de grande alegria, pois pode rever familiares e amigos. Mas seu desejo é passar mais tempo no estado. Como disse no papo, um dia, quem sabe, comprar um terreninho por essas bandas, num lugar tranquilo e erguer sua própria Casinha Branca. “Nada de luxo. Apenas um lugar bacana pra descansar perto da família. É meu sonho”, planeja o cantor.

A banda Sempre Alerta
Em Macau morei na rua Pereira Carneiro. Fiquei até os 4 anos de idade, depois fui pra Natal, de onde sai aos 14 anos para ir morar no Rio de Janeiro. Mas entre os 13 e 14 anos, eu tive uma banda com amigos, a banda Sempre Alerta. A gente tocava em Macau. Me lembro que o falecido Padre Bento comprou os instrumentos pra gente. Foi na época do Renato e Seus Blues Caps, a gente tocava todo o repertório deles, éramos fãs dos Beatles. Éramos convidados para fazer shows nos bailes da cidade. Eu era guitarrista e cantava algumas músicas. Da turminha lá, do que sei, acho que sou o único que ainda está na música. Aquele tempo foi maravilhoso. Guardo essas recordações com muito carinho.

Começo da carreira no Rio
No Rio de Janeiro encontrei uma turma que gostava de música. Entrei numa banda baile. Passei 8 anos fazendo baile na noite do Rio. Participei de várias bandas nesse tempo. Em 74 fui pra São Paulo. Meu irmão Nazareno morava lá. Ele tinha uma dupla chamada Nazareno e Pena Branca. Ele me convidou para passar uns dias lá, conhecer a vida noturna de São Paulo e fui ficando. Trabalhei em boates. Quando voltei para o Rio, gravei em 78 meu primeiro disco. No anos seguinte foi aquele estouro.

Casinha Branca
Eu gravei “Casinha Branca” em 78 e ela estourou em 79. Passei mais de um ano nas paradas de sucesso. Foi uma coisa impressionante. Ela está com mais de 100 regravações, fora aquelas feitas de modo independente, que a gente desconhece. Foi gravada na Inglaterra, Estados Unidos. Nesses últimos anos voltou a fazer trilha de novela, na Globo e no SBT.

Um sonho que todos tem
“Casinha Branca” é uma música singela. Fala de algo que está no consciente coletivo de todo mundo, que é querer um lugar de paz. Agora muito mais do que antes, porque estamos vivendo num país com muita violência. As pessoas querem um cantinho para no final de semana fugir desse alvoroço dos centros urbanos, descansar a cabeça. No meu caso, o Rio de Janeiro, uma das cidades mais violentas do Brasil, é um desejo bem comum. A conjuntura atual do país acaba fazendo com que as pessoas se interessem por um lugar tranquilo desse, e a música vem junto porque representa esse ideial.

Shows pelo RN
Voltei a primeira vez a Macau em 81. Fiz um show no pátio do colégio Padre Bento. Dez anos depois votei pra Macau de novo, para um novo show. E em Natal, por três ocasiões me apresentei no projeto Seis e Meia, no Teatro Alberto Maranhão. Sempre o meu querido irmão Nazareno articulando a minha vinda. Nazareno tinha muitos amigos. Todo mundo gostava dele. Me levava na Tribuna para dar entrevista. Era meu fã. Fazia tudo para que eu fosse em Natal cantar. Nesses retornos eu sempre revia meus primos de Macau, alguns amigos do tempo da banda Sempre Alerta, familiares que moram em Natal. Ou seja, além do trabalho sempre deu pra matar a saudade. Também através do amigo Castelo Casado fiz outras visitas para gravar programa de rádio. Em 2018 mesmo, depois do carnaval, estive em Natal para fazer uns programas de rádio e de televisão.

Contato com artistas potiguares
No Rio de Janeiro tive contato com Terezinha de Jesus. Foi num programa de Televisão. Foi umas três vezes. Cantamos juntos na antiga TV Tupi, no programa Almoço com as estrelas. Foi bem legal conhecer ela. Nunca mais a vi. Paulinho de Macau, conterrâneo, conheci por intermédio do meu irmão Nazareno. E nas idas a Natal, conheci muitos músicos bons também, como o Joca Costa e o Eduardo Taufic. Eles tocavam comigo no Seis e Meia.

O talento de compositor
Eu comecei a compor estava com uns 16 anos. Um colega que trabalhava comigo na banda se ofereceu para mostrar minhas músicas para o Renato e Seus Blue Caps. Ele mostrou e tal. Mas eu ainda era muito imaturo. Eles não deram muita atenção. Depois de um tempo cheguei a gravar com o Renato e Seus Blues Caps, uma música chamada “Júlia”. Eles gostaram muito da música, cantam em todos os shows. Fico feliz com o carinho que eles têm por mim. Lembro também que na época da Jovem Guarda eu sonhava em ser Roberto Carlos. Depois vim a ter uma música gravada por ele. Se chama “Um mais um”. Como é a vida, né!

Vir morar em Natal
Gosto muito do Nordeste. Apesar de morar no Rio de Janeiro, o pessoal aqui está mais envolvido com funk, samba. Pra você ter uma ideia, meus convites de show são mais para Minas Gerais, no Norte e Nordeste. Sou muito bem recebido no Nordeste, especialmente Natal. Apesar de Natal estar com algumas doenças do Rio de Janeiro, no caso a violência, ainda é um lugar que pretendo comprar um cantinho. Não pra passar o fim de semana, mas pra morar mesmo. Uma casinha simples, nada de luxo. Só um lugarzinho confortável para ficar mais próximo da minha família.


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