Natal
"O SUS está sendo estraçalhado e isso é um problema de gestão"
Publicado: 00:00:00 - 03/05/2017 Atualizado: 23:47:36 - 02/05/2017
Bate-papo com Gastão Wagner de Souza Campos, médico sanitarista e presidente da Abrasco.

Qual é hoje o principal problema do SUS? É de logística? Estrutura? Financiamento?

São muitos problemas. Mas os principais passam pelo financiamento e gestão. Apesar de se chamar sistema único, o SUS é muito fragmentado entre as políticas, programas, ações e municípios. Cada um tem estratégias diferentes de atuação, e isso impossibilita desde um problema hospitalar como enfrentar os problemas de dengue. O SUS está sendo estraçalhado entre serviços públicos, organizações sociais, fundações, entidades filantrópicas, uma Babel em que não há solução gerencial mágica.  Isso é um problema de gestão. A gestão do Estado brasileiro é muito contaminada pelo clientelismo, interesses partidários, privados e pela corrupção. O SUS conseguiu se proteger em parte disso mas não completamente.

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Como isso se exemplifica no dia-a-dia?
Pela dificuldade de fazer licitações, sai verba para construir hospital e não se constrói. O povo brasileiro não confia no Estado, com base em evidências. Em Portugal, por exemplo, os cargos de gestão e administração da saúde são feitos por concursos internos, no Brasil, todos os cargos são de confiança. Os prefeitos indicam, e o critério são é de competência, e isso fazer parte de um grupo político. Outro problema é que o SUS não desenvolveu uma política de pessoal adequada, não tem carreira. Por isso faltam médicos, enfermeiros, os salários são diferentes nos municípios. A gente enquanto população também cobra mal. O trabalhador do SUS não presta conta sobre o seu trabalho. O Estado desrespeita os direitos dos profissionais, que não tem estímulo e não consegue cobrar.

Qual o lado positivo?
Apesar dos problemas, o SUS passou a ter uma importância muito grande para a população brasileira, apesar dos problemas estruturais, que vem da falta de recurso e gestão. A gente critica muito as filas, a degradação do atendimento de urgência e emergência, um conjunto de problemas, mas o SUS tem programas muito sofisticados, muito efetivos, como o companhamento aos diabéticos, medicação básica, insulina, equipes multiprofissionais, médicos generalistas, saúde da família, enfermeiros.

Um dos fatores seriam as dificuldades para estados e municípios assumirem a parte que lhes cabe nessa engrenagem?
O modelo de gestão deve mudar. Ter política de pessoal nacional e não em cada município. Não dá para cada município ter um hospital especializado, tem que ter uma organização regional no mundo inteiro é assim. A gestão regional deveria ser feita em acordo entre os partidos, com critérios técnicos.

Qual é sua avaliação sobre o papel das cooperativas nessa engrenagem da Saúde Pública?
O SUS é um sistema público, mas que dependem muito do setor privado, como é o caso das cooperativas. Das 75% das pessoas que precisam do sistema, a capacidade é de atender somente 40%. O SUS compra muito serviço do setor privado. Se o contrato com essas cooperativas fosse bem feito da perceptiva sanitária e técnica e seguirem as regras, não há problema. O que não pode acontecer é comprar e deixar solto. O que a gente é contra é pegar serviços públicos e privatizar por causa de problemas. O que tem acontecer é melhorar a gestão.

Isso transformou-se em um problema de gestão? Acaba desviando o foco da gestão?
Sim. Se você privatiza a saúde, não tem porque cobrar imposto público. Se a privatização completa acontecer isso vai se tornar uma barbárie, é inviável, é um desastre sanitário. Por isso o SUS tem sido desconstruído gradativamente, os políticos estão reduzindo o financiamento e isso é uma desgraça para  a população. Ainda é feito algo por empenho das equipes, quanto mais um bairro consegue acompanhar e fiscalizar menor é o espaço de manobra para se fazer políticas partidárias, clientelismo e caixa 2. Apesar de ser um sistema nacional, o SUS é heterogêneo no Brasil.

Os problemas de saúde pública são os mesmos em maiores e menores capitais, como São Paulo e Natal?
Sim. A violência que mata é uma delas. Como isso não é enfrentado cronicamente, isso continua acontecendo. A maioria dos que morrem são jovens, soldados do narcotráfico e da segurança pública, que se enfrentam. Em geral, a região urbana, diferente da rural, sofre dos mesmos problemas.

O governo tentou reduzir o déficit de médicos no interior através do "Mais Médicos". Qual é sua avaliação sobre essa medida?
O programa Mais Médicos foi uma das coisas mais importantes que já fizeram. Apesar de ser uma gambiarra, aumento em 30% a capacidade de atendimento da atenção básica. Os municípios não conseguiam contratar médicos, e o Ministério da Saúde interviu. Enquanto não existir um planejamento de carreira para profissionais da saúde, vamos continuar dependendo dessas gambiarras. É uma prova de que os municípios não fazem saúde sozinhos. Com o Mais Médicos, se dobrou a capacidade de atendimento à população mais carente.


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