O Tempo Não Apaga

Publicação: 2019-11-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A madrugada orvalhava a cidade com seu sopro invernal. Chovia muito. A solidão das ruas convivia com o silêncio das casas, albergando seus habitantes com a complexidade dos seus sentimentos. Naquela noite os sonhos renovavam esperanças. O amor explodia em suas mais diversas manifestações. Do desprendimento à renúncia. Da entrega à doação. Do serviço impessoal e anônimo ao absoluto despojamento do Ter. O Ser se impunha, apesar das irrupções de egoísmo. A condição humana se engrandecia.

Tudo aquilo se refletia na alma do jornal. Inclusive a perplexidade com mais um surto de prepotência. Sobrepairava a ameaça de ser empastelado. Motivo: transgredira-se a "ordem verbal" de não publicar qualquer notícia relacionada à vida e à obra de Dom Helder Câmara. Especialmente aquela informação honrosa para o Brasil e para a Igreja Católica. Seu nome fora indicado ao Prêmio Nobel da Paz, apoiado por políticos e intelectuais de todo o mundo, como Roger Garaudy, Bertrand Russell, Edward Kennedy, Tristão de Athayde, Olaf Palme, Aldo Moro, Pierre Trudeau e Nelson Mandela (na prisão). O pequenino sacerdote sempre combatera "o bom combate".

Vivíamos momentos dantescos no país. Em nome da Segurança Nacional vigiava-se e tolhia-se a liberdade. Estávamos num labirinto de contradições.  Censuravam a publicação até de clássicos como Platão, Aristóteles, Maquiavel, Montesquieu, Rousseau, Thomas Jefferson... Nem falar em Jacques Maritain, Tristão de Athayde, nas Encíclicas Sociais etc. Escritores de esquerda como Celso Furtado, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Júnior, Fernando Henrique Cardoso, eram estigmatizados pelo rancor de uma espécie de "guerra fria" brutal e insana, que os excluía da circulação e reflexão de idéias livres e legítimas. Eclodira e se exacerbara o primado da insensatez. O arbítrio, a virulência, a ignorância e o predomínio ilimitado da força e do ódio se estenderam por todo o país. Gerações e gerações foram sufocadas. Ressentimentos foram inoculados, numa estratégia macabra para realimentar um confronto desigual e desumano. Barbosa Lima Sobrinho, exemplo inimitável de dignidade e grandeza humana, ex-governador de Pernambuco, senador por três mandatos, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente da Associação Brasileira de Imprensa, sintetizou tudo aquilo: "vivemos o império do obscurantismo, da truculência e de inexcedível intolerância". Tínhamos o céu azul, mas só o enxergávamos cinzento.  Havia mesmo assim algo novo a nascer no Brasil. A união de todas as correntes que se opunham ao regime de arbítrio: dos liberais aos militantes de esquerda. Liderados por Ulysses Guimarães, firmava-se a convicção de que a democracia representativa e pluralista seria uma conquista irreversível e crescente.    

Eram duas horas da manhã. Estávamos reunidos: José Gobat Alves, Ticiano Duarte, Wodem Madruga, Francisco Macedo e eu. Agnelo Alves estava em Recife. Fora submeter-se a uma cirurgia para corrigir deficiência auditiva. Aluízio Alves estava no Rio, onde se mobilizava para manter vivo o jornal que fundara em 1950. Fruto de um sonho, que nascera num jornal feito à mão em Angicos: "O CLARIM". Ação de um menino com a mente de um homem, ainda de calças curtas, pretendendo agir com responsabilidade pública. Os tempos passaram e naquele instante impunham mais um desafio na vida do jornal: resistir e jamais sucumbir. Ser fiel à sua missão.

Aguardávamos a chegada dos executores da medida arbitrária e truculenta. A chuva se mantinha persistente. O cheiro peculiar do telhado úmido era uma espécie de "cântico de sereia", aliciando-nos irresistivelmente para o aconchego de nossas casas.

A alma do jornal se manifestou em José Gobat. Como sempre. Homem íntegro, cordato, sincero, digno e altivo, José Gobat era, naquele momento, um legítimo personagem da "Antígona" de Sófocles: não viera ao mundo para se render ao medo. Nem muito menos partilhar o ódio. Sentenciou, encerrando aqueles momentos angustiantes: "Vamos para casa. O jornal sairá com a notícia. Se vierem proibir a publicação, não a substituiremos por nenhuma outra. O espaço não será preenchido por outro texto. Nem o de Camões, como faz o "Estado de São Paulo". Apenas publicaremos, com uma tarja preta, a palavra SILÊNCIO. O que será, será..."

    Saímos reconfortados. Subitamente nos invadiram sentimentos de ternura e paz, que embalavam o sono de uma cidade tranquila, provinciana e de laços fraternos. Crescíamos com a experiência.  O jornal renovava seu compromisso com os ideais que o inspiraram em sua fundação. Mas também se revitalizava com a postura, a coerência e a serenidade dos que o faziam naquele momento. Integrávamos sua história.

               O episódio teve repercussão nacional e internacional. Jamais imaginávamos que referência à Tribuna ocorresse em jornais como o "Washington Post", "New York Times", "Le monde", "Diário de Notícias". Aluízio Alves comunicara o fato a Júlio de Mesquita Filho, presidente da Associação Interamericana de Imprensa. Desse modo, o constrangimento imposto a um jornal provinciano correu o mundo. Pois envolvia notícia e censura do governo à possibilidade de Dom Hélder Câmara, de reconhecido prestígio internacional, ser contemplado com a áurea do "Prêmio Nobel da Paz". 

Esta é uma lição das mais preciosas em minha vivência na Tribuna do Norte: colaborador, editorialista e editor por pouco tempo. São vivos os exemplos de obstinação. Sobretudo daqueles homens, que rompiam a madrugada, diariamente, manipulando velhas máquinas de linotipo e impressoras obsoletas. Todas de difícil operação. O sonho renascido em ver, aos primeiros lampejos de cada dia, a circulação do jornal se incorporar à rotina pacata da cidade. Missão sem fim...


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