O tempo

Publicação: 2020-08-11 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação


O adiamento, até trinta de setembro, para a aprovação da reforma da previdência, não pode ser visto como uma simples prorrogação de dois meses. Para quem conhece a dinâmica real da política é um longo prazo que pode produzir três desfechos: o avanço do governo na busca de conquistar os dois votos que lhe faltam, e são essenciais; a resistência da oposição na preservação dos seus onze votos; ou uma saída negociada capaz de superar o impasse sem fazer derrotados.

Constatada a configuração, só na terceira hipótese a política vencerá a crise, como é da sua natureza, corrigindo as distorções que hoje alicerçam o impasse. A vitória de um lado sobre o outro implica, inevitavelmente, em derrotar o lado mais fraco, aqueles considerados os únicos prejudicados: os servidores de menores salários, entre quatro e seis mínimos, vítimas da redução da faixa de isenção em benefício dos grandes salários, os que estão no topo da pirâmide salarial.

No centro do impasse, a questão da discussão em sessões presenciais que a bancada do governo derrotou quando proposta pela oposição. O tempo de dois meses vai permitir aquilo que a falta de sensibilidade preferiu não enxergar: o direito de quem se sente prejudicado - embora lute desde a fase inicial - de buscar na Assembleia Legislativa a chance de levar a discussão ao plenário, o espaço natural da sociedade, como o poder representativo da pluralidade de ideias. 

A postura da oposição não é contra a aprovação da reforma. Seria uma estultice diante de uma medida já aprovada no âmbito da União. Mas de lutar contra distorções que, se aprovadas, serão para sempre. Tanto mais quando se sabe que não está na faixa de um a seis mínimos todo o inchaço que se reclama como força onerosa da folha. Para demolir a argumentação do governo basta que se publique a pirâmide salarial, da base até o topo, confrontando-se os seus abismos. 

Assim como, do ponto de vista da razoabilidade política, mostra-se insustentável que um governo petista tenha assumido a posição de conduzir sua bancada a vetar o debate presencial, portanto, aberto, livre e democrático, valores tão incansavelmente sustentados pelo sotaque que o socialismo petista sempre ostentou na oposição e como compromisso de campanha. Ainda que para construir sua maioria tenha abrigado representantes apontados como os mais conservadores.

Daí ser lógica e logicamente sustentável a busca da saída negociada como o caminho mais coerente com a retórica petista, sob pena de levar para casa uma vitória, mas também a sequela que amanhã estará no centro do debate eleitoral - na eleição municipal deste ano de 2020 e da própria sucessão da governadora Fátima Bezerra. E certamente será uma peça de resistência do marketing adversário com algumas vozes que hoje parecem defendê-la em nome do seu poder. 

AGENDA - A primeira parcela da folha de agosto, cumprido o que está garantido, amanhecerá já na conta do servidor público, sábado, dia 15. A recomendação da governadora é não atrasar.

LUTA - O governo ainda não tem reservas para o 13º salário, mas as projeções garantem que vai ser possível, se mantidos os números de até hoje. Mesmo com os efeitos da peste do Coronavírus.

REBOTE - Sem que baixem os índices de transmissão do Covid-19, nas cidades mais próximas a Natal, há risco de um retorno do vírus. Como nos casos de uma segunda onda. Exige controle.   

RETRATO - Patética a disputa do ex-deputado Roberto Jeferson, do PTB, aquele do Mensalão, com o ministro Rogério Marinho, a mostrar quem tem mais prestígio com o ídolo Jair Bolsonaro.

ALIÁS - É comum, na psicologia da idolatria, principalmente no poder, o ciúme entre machos ser mais avassalador do que o ciúme feminino. O poder, muitas vezes, seduz mais do que a carne. 

RETRATO - Eleito prefeito de Natal o hoje senador Jean-Paul Prates, será convocado o segundo suplente, Theodorico Neto. Jovem empresário natalense que tem a cara do partido comunista...    

EXEMPLO - A condenação do coronel por sobrepreço nas obras do hospital da Guarnição de Natal não atinge a instituição. Mostra que a honestidade é um valor da cidadania. Civil ou militar. 

FALSOS - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama depois de ouvir uma discussão sobre socialismo versus capitalismo: “No Brasil todos os pecados de um você encontra no outro”.

DEDO - A verdade é leve e um dia flutua, já avisou esta pobre coluna. Quem leu a biografia de Maria Thereza, viúva de João Goulart, soube do pior: o poeta João Cabral de Melo Neto fez um relatório ao então Governo Médici, dedurando o ex-presidente quando viveu exilado no Uruguai.

DURO - Cabral era ministro-conselheiro da embaixada brasileira no Uruguai. A 25 de junho de 1975, informa o encontro de João Goulart com um ‘sujeito desconhecido’. O autor afirma: “Era o poeta que servia na embaixada ... e esbanjava seu talento espionando para a ditadura militar”. 

FONTE - O relato está no livro ‘Uma mulher vestida de silêncio”, de Wagner William, edição da Record, Rio, 2019. À página 382, um pouco antes do caso João Cabral, o biógrafo registra as notícias que vinham do Brasil de políticos brasileiros torturados e, entre eles, Djalma Maranhão. 


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