O teorema nacional

Publicação: 2020-09-06 00:00:00
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A “aldeia global” mostrou visibilidade no pós-guerra. Teilhard de Chardin e Marshall McLuhan a detectaram e visualizaram a complexidade e a interdependência crescentes entre os povos, que se impunham como realidade imutável e assustadora. Esse “novo mundo”, não tão fantástico quanto o ficcional de Aldous Huxley em 1932 (“O admirável mundo novo”), emergiu de um paradoxo. De um lado, o anseio por convergência, decorrente do fato de que o ser humano, em qualquer cultura e nação, tem sentimentos, sonhos e desafios comuns. 

Do outro, o contraponto da guerra fria. Conflito ideológico, cruel e insano, convertendo-se em mais um “freio” à marcha da História. Entretanto, George Orwell, em seu clássico “1984”, advertiu o mundo para uma espécie de estagnação do pensamento e da ciência. Sob controle totalitário do Estado. Premonitoriamente, uma conjugação de avanços científicos e tecnológicos, incorporando o uso de televisão e agora a internet, foi titulada no livro de “teletela”. Algo a fulminar a privacidade das pessoas. Essa antevisão de Orwell foi mais trágica do que a de Huxley. A  memória da Guerra, que tipificou a “loucura dos homens” (expressão cunhada por Albert Camus, herói da Resistência e Nobel da literatura), deflagrou  pleito pela paz. Nesse contexto, foi celebrado impactante “compromisso histórico” por  Alcides de Gasperi (líder democrata-cristão na Itália)  e Palmiro Togliatti (Secretário-Geral do Partido Comunista Italiano). Esse pacto teve repercussão planetária. Nada deveria obstar a pacificação interna das nações, tida como fator essencial à promoção da justiça e do bem comum. Sofreava-se o “centralismo soviético”, que pretendia impor  modelo único e totalitário aos seus partidários e ao mundo. Exemplo do Brasil, quando o Partido Comunista, na legalidade, submeteu-se às “ordens” de Moscou e apoiou  coligação com getulistas nas eleições parlamentares de 2 de dezembro de 1945. Logo depois o presidente eleito, Eurico Gaspar Dutra (1948), foi o algoz do Partido Comunista, propondo ao Congresso a decretação de sua ilegalidade, que prevaleceu até 1988. 

Um dos grandes equívocos, entre muitos, da “esquerda brasileira”:  exercitar centralismo incompatível com a democracia representativa e rejeitar valores e avanços universais. Inclusive em processos democráticos. Altivas palavras de Paulo VI na ONU (1967), para quem a paz é sinônimo de desenvolvimento, clamaram à humanidade. O desenvolvimento deveria ser compartilhado por todos os povos. O livro de Walt Rostow (“As etapas do desenvolvimento econômico”) ainda  suscita reflexões sobre o assunto. Também a visão atemporal de Jacques Maritain e Joseph Lebret, apóstolos do solidarismo cristão. As nações cristãs não podem ignorar a exortação de Jesus Cristo: “Ide e ensinai a todos os povos”, imperativo eterno e missão sem fim. Mas o Brasil ainda é cenário catastrófico de miséria, violência, ignorância, fisiologismo, injustiças, corrupção e insegurança social.

O mundo foi submetido, durante 50 anos, ao maniqueísmo entre direita e esquerda. O Brasil enfrenta sequelas desse conflito louco, histérico e estúpido, que radicalizou e ainda vitima gerações. Extremismos que refutam o peso, tradições e valores da  nação. É o caso atual, em que governantes, políticos e alguns segmentos, agrilhoados a passado vergonhoso e fonte de instabilidades, semeiam intolerância e  discórdia desvairada. O radicalismo (de direita e de esquerda) se vale da democracia, mas nela não acredita nem a professa. Não nos iludamos: a impunidade é também legado dessa contingência.  A erosão moral começou tempos atrás e até hoje avançou.

Afonso Arinos foi um misto de político, pensador, historiador, jurista, memorialista, legislador e orador no Congresso Nacional. Tive o privilégio de sua amizade. Criticava o presidencialismo brasileiro. Considerava-o deformação grotesca do sistema norte-americano. Classificava o presidente no Brasil em duas categorias: se eleito pelo povo, uma espécie de “monarca coroado pelo voto” para o período do seu mandato; ou um ditador, nos estilos do Estado Novo e do regime militar. E agora? Diria o que?

Odilon Ribeiro Coutinho, de saudosa memória, num dos seminários de tropicologia (Fundação “Joaquim Nabuco”), deplorou a ignorância de nossas origens por  governantes e políticos. Era a visão também do mestre e amigo Gilberto Freyre. O mestre Cascudo advertiu que o nosso modelo político deveria ter identidade com a maneira de ser do povo. Seria uma concepção política chantada na cultura nacional. Percepção depois sustentada por Darcy Ribeiro.

O Brasil é um amálgama de culturas. Magistralmente  retratado na literatura. Vianna Moog, em “Um rio imita o Reno” e “Uma jangada para Ulisses”, ressaltou que nenhuma corrente migratória se sobrepôs à cultura nacional. Pelo contrário. A ela se incorporou. O mesmo demonstraram Graça Aranha em “Canaã” e Érico Veríssimo em “O tempo e o vento”. Jorge Amado, em sua vasta obra, esmiuçou a alma nacional, plasmada em fusão original de raças e culturas, porém com paradoxos que a modernidade não erradicou. Raymundo Faoro, em “Os donos do poder”, analisou as irrupções autoritárias e elitistas em nossa História, sedimentando injustiças, miséria, virulência e ignorância. Denúncia veemente de Victor Nunes Leal em “O coronel, a enxada e o voto”. Mas subsistem até hoje “benesses” demagógicas e eleitoreiras...

Eis tema complexo e inesgotável. Sua discussão pode ensejar lúcida avaliação da política e dos políticos. Do presente e do futuro, que pretendemos construir.  

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