O Tirol natalense

Publicação: 2017-09-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Algumas casas deram lugar a prédios enormes. O trânsito em volta ficou mais intenso e barulhento. O Stop Lanches, o Bar do GG, a mulher gorila, ficaram na memória. As árvores, pelo menos elas, ainda resistem. O Tirol mudou significativamente nos últimos 40 anos. No entanto, no olhar saudoso, mas não menos realista, do produtor cultural Jomardo Azevedo – morador do bairro de 1975 a 2000 –, o bairro ainda guarda muito de sua essência.
Jomardo Azevedo, produtor e idealizador do Festival Mada
Jomardo Azevedo, produtor e idealizador do Festival Mada

“Natal toda passa por um processo de mudança com o crescimento vertical em todos os bairros. No Tirol não foi diferente. Mesmo assim ainda encontrei vilas de casas e pequenas ruas que ainda mantém as mesmas características”, conta Jomardo, que depois de uma temporada de quase nove anos vivendo no Rio de Janeiro, hoje mora em Petrópolis, colado no bairro em que cresceu e vivenciou momentos importantes.

Adolescente, Jomardo desenvolveu a paixão pela música em casa, acompanhando as festas familiares sempre regadas à boa música, seja no toca discos ou com os instrumentos comandados pelos irmãos. Foi em sua casa no Tirol que ele também teve uma de suas ideias mais felizes e definidoras. Na esteira do movimento de revitalização da Ribeira, em meio a crescente cena musical da cidade, Jomardo criou com amigos e os irmãos o Festival Mada – Música Alimento da Alma. Com sua 19ª edição marcada para os dias 29 e 30 deste mês, no Arena das Dunas, o evento figura entre os mais importantes festivais de música do Nordeste.

Apesar de amar o bairro em que cresceu, o produtor nunca viu a possibilidade de levar o festival para o Tirol, ou mesmo criar outro evento para a área. “Fazer o Mada no Tirol nunca passou pela minha cabeça. Mas voltar no tempo para jogar bola na rua, ir para Praça Augusto Leite jogar conversa fora, tomar leite das vacas da Prudente de Morais e muitas outras coisas que ficaram na memória, isso sim, eu gostaria de poder fazer, novamente”, comenta o potiguar em entrevista a TRIBUNA DO NORTE. Personagem do Minha Área deste domingo, Jomardo recorda com alegria várias momentos vividos no Tirol.

Chaboque do dedo

Morei no Tirol numa época em que a  diversão estava na rua, com as peladas de futebol na rua ou no sitio de Luizinho. Essas peladas só terminavam quando alguém arrancava um “chaboque" do dedão ou quando o dono da bola perdia e, com raiva, ia embora com a bola. Mas no outro dia tudo voltava ao normal e as peladas continuavam, assim como os passeios de bicicleta, os banhos de biqueira quando chovia

Vacaria na Prudente de Morais

No bairro tínhamos a Cidade da Criança, onde muitas vezes pulávamos o muro para brincar. Naquela região também tinha uma vacaria na Prudente de Morais. A gente costumava ir lá logo cedo com um copo de Nescau para pegar o leite direto da vaca. É até difícil de imaginar uma coisa dessas em pleno Tirol, na Natal de hoje.

Mulher gorila

Os parques que se instalavam na Praça Augusto Leite era outra diversão garantida. Lembro da indefectível “mulher que vira gorila”. Íamos lá somente para tentar descobrir o seu segredo e revelar aos que estavam na fila.

Os locais de namoro

Na adolescência as diversões eram as festas que aconteciam nas casas dos amigos, os famosos “arrastas". Assim começaram os primeiros namoros. Tinham também os rachas  de carros na Romualdo Galvão, que naquela época ainda era de barro. No Aeroclube visitávamos a pista de patinação. E, no Clube do América, aconteciam as domingueiras e os bailes de carnaval, que também frequentávamos.

Skate na Prudente

Quando asfaltaram a Prudente de Morais, no trecho que tem uma ladeira e uma estação da Cosern, transformávamos a avenida numa grande pista de skate. Juntava um monte de gente para descer no asfalto novo e liso e fazer todo tipo de manobra. Nessa época a violência era somente nos filmes que assistíamos no cine Rio Grande ou no Rex, na Cidade Alta.

AABB e boa música em casa

Um programa que fazíamos em família era almoçar na Toca do Chicão, vizinho ao Aeroclube. Outro lugar que frequentávamos bastante era o Clube da AABB. Meu pai era funcionário do Banco do Brasil e aproveitávamos para jogar bola e tomar banho de piscina. Na minha área também tínhamos o STOP Lanches, na rua Ângelo Varela, o Clube do Radio Amador, com seus grandes “assaltos” no carnaval,  a Padaria de Chatosinho – que ainda existe e tem a melhor bolacha tieta do RN além de queijos de coalho e de manteiga –, o Bar de GG e o primeiro Dom Quixote – do meu amigo Carlos Sérgio, que começou ali nas imediações da praça Augusto Leite.

A música vem de casa

Tenho uma família envolvida com música o que quer dizer que no meu lugar sempre tivemos música por perto. Em casa eram comuns festas e reuniões em família. Meus pais cantavam e tocavam. Quando não estavam reunidos em torno do violão, se estava ouvindo os bons discos da época. Foi no Tirol que eu e meus irmãos começamos a tocar em festas, justamente nestas reuniões que rolavam em casa.

Surge o MADA

Logo depois que trouxe um programa da MTV chamado Palco MTV, que aconteceu durante dois dias na Ribeira, me veio a ideia de fazer um festival. Planejei tudo lá em casa, no Tirol, junto com alguns amigos e meus irmãos. Ganhei a logomarca que nos acompanha até hoje, feita na época pelo estudante de publicidade Renato Quaresma, que adorou a ideia e chegou com ela já pronta.

O bairro hoje

Depois de um bom tempo morando fora de Natal, nesse meu retorno vejo que o Tirol tem inúmeros lugares para se ir. Recomendo conhecer o Bar Dobradinha Tirol (o Bar de Ronildo, na Rua Joaquim Fagundes). Lá eles servem um frango à passarinho com batatas fritas que é excelente e combina bem com as cervejas geladas do bar.

Mais praças e parques

Hoje o grande problema que enfrentamos é a insegurança generalizada, em todas as regiões da cidade, incluindo o Tirol. Minha sugestão é aumentar o policiamento nas vias do bairro, melhorar a iluminação e criar mais áreas de parque e praças.

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