O vírus da demência

Publicação: 2020-03-29 00:00:00
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Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República •  Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL •  Mestre em Direito pela PUC/SP

Em tempos de pandemia do COVID-19, eu tenho certeza de que outro vírus já atacou muita gente em nosso país: o da demência. Eu não estou falando de quem tem preocupações legítimas com a economia do Brasil. Todos nós, minimamente responsáveis, temos. Falo do e dos amalucados que querem mandar as pessoas às ruas sem a menor preocupação com a saúde de todos e, sobretudo, daqueles mais vulneráveis.

Será que ele e eles não enxergam o que está acontecendo no mundo? Na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos (sobretudo, em Nova York, a mais rica cidade do planeta)?

Será que todos os cientistas do mundo (médicos, epidemiologistas, geneticistas, estatísticos, matemáticos etc.) estão errados? Será que todas as autoridades públicas do mundo, da OMS, da Alemanha, da França, dos EUA, da Índia, da Argentina e por aí vai, estão erradas? Será que todos os economistas sérios do Brasil e do mundo estão errados?

Claro que não.

Entretanto, esses novos e velhos amalucados preferem acreditar em desequilibrados, que trabalham numa sala de ódio, produzindo e disseminando fake news e coisas piores.

Neste momento, só o isolamento social pode funcionar para achatar a curva de contágio do COVID-19 e permitir que o sistema de saúde aguente. Com calma e determinação, venceremos essa etapa. Os serviços essenciais funcionarão. E com um pacote econômico, protegeremos os mais vulneráveis. Nestas horas, viva John Maynard Keynes (1883-1946)!

A coisa é até simples. Como explica Anne Rooney, em “A história da medicina: das primeiras curas aos milagres da medicina moderna” (M.Books, 2013), “uma epidemia precisa de um reservatório, ou seja, uma população que armazene uma bactéria ou vírus e permita que esta ou este se manifeste periodicamente em uma profusão de novas infecções. Quando nossos ancestrais vagueavam por planícies e montanhas, e a terra era pouco habitada, as pessoas estavam espalhadas demais para prover tal reservatório. A doença contagiosa e epidêmica é, em grande parte, um produto da urbanização, quando as pessoas vivem em um número suficiente e próximas o bastante para tornar a transmissão entre elas um meio efetivo de disseminação de uma doença”. Não precisa ser muito esperto para entender isso. Basta não ser fanático.

O maior desenvolvimento urbano gera cada mais oportunidades para as doenças contagiosas. As viagens e o comércio transportam doenças para outros lugares. Aqui mesmo, na nossa América do Sul, “os conquistadores espanhóis contraíram sífilis em seu violento ataque à América pré-colombiana, mas trocaram-na por doenças como a varíola, o sarampo e gripes que devastaram populações locais ainda mais rapidamente que as espadas e armas dos europeus”. Nossas cidades são insalubres ao extremo. Nossas favelas – e aí me preocupo muito com o Rio de Janeiro, mas também com Natal – são um ambiente perfeito para o desastre. Como mandar mais gente para a rua e de volta, no fim dos dias, para as suas casas ou barracos?

Vamos seguir as orientações da ciência, da OMS e dos chefes de Estado e de Governo responsáveis: (i) isolamento social agora; (ii) preparar nosso serviço de saúde para o pior, numa corrida contra o tempo; (iii) testar as pessoas o máximo possível, para planejar os próximos passos; (iv) e criar uma rede de proteção social e econômica para os mais vulneráveis. Rogo!

Fazer o contrário é coisa de tresloucado. Coisa de um Alienista, que vai acabar preso, um dia, na Casa Verde do grande Machado de Assis (1839-1908)!


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