O vírus da estupidez

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Marcelo Alves Dias de Souza  

Nestes tempos de pandemia, tenho visto muita gente chamar o COVID-19, ironicamente, de vírus chinês. Isso diminuiu um pouco, é verdade, já que, com o recuo estratégico de Trump na sua peleja com a China, aqueles que o macaqueiam tiveram de enfiar a cabeça na máscara. 

Não se pode, claro, desconhecer uma possível responsabilidade chinesa pela divulgação atrasada da dimensão da coisa (e isso deve ser visto a seu tempo, imparcialmente, no futuro). Mas teorias conspiratórias de que se trata de um vírus produzido em laboratório, para fins de guerra biológica, hoje totalmente desacreditadas pelos cientistas, beiram o delírio. E imagens de animais sendo comidos vivos ou crus ou mesmo de inocentes cães sendo cozinhados também vivos, para atacar os chineses, beiram o sadismo.

Muito disso é resultado da estupidez dos que teimam em desconhecer a ciência e a sua história. E quando falo em ciência, falo daquela que vem em livros, em artigos científicos ou de divulgação realmente sérios, e não aquela repassada em textos falsos de WhatsApp.

Na verdade, a explicação para o surgimento do COVID-19 parece ser bem mais simples, provavelmente decorrência da interação entre animais e homens e na mutação do vírus ainda naqueles ou já nestes. Como registra Anne Rooney, em “A história da medicina: das primeiras curas aos milagres da medicina moderna” (M.Books, 2013): “Quando os coletores-caçadores se assentaram para cultivar alimentos e criar animais há mais ou menos 12.000 anos, o contato íntimo com animais aumentou nossa exposição às bactérias, vírus e até mesmo a parasitas que eles portavam. Muitas doenças saltaram a barreira das espécies. Pegamos gripes de porcos e aves, resfriados de cavalos, e sarampo de cães e vacas. E o processo não ocorre em um único sentido; pesquisas realizadas em 2008 sugerem que a tuberculose que atinge o gado originou-se nos humanos, e não o contrário (como se pensou durante anos). Não é nem mesmo um processo encerrado. O aparecimento nos anos 90 da doença variante Creutzfeld-Jacob em pessoas que comeram carne infectada com BSE mostrou que ainda não estamos livres e o vírus da influenza continua a cruzar a barreira entre as espécies. A variante H1N1, por exemplo, surgiu no México em 2009 e originou-se em porcos”. É difícil entender?

Mas se não bastasse isso, ainda devo alertar que essa polêmica é improdutiva, para não dizer estúpida. Precisamos da China, que parece já ter dado adeus ao pico da peste. Os Estados Unidos precisam da China. Já até mandaram buscar as coisas lá. E, enquanto criamos, insensatamente, um incidente diplomático com o maior fornecedor mundial de insumos para o combate à pandemia, os EUA, mais ricos e mais inteligentes, ficam com os “nossos” respiradores. Ganhamos bananas e bananinhas.

Ademais, para o futuro, vem ainda o problema da discriminação. Ninguém, nenhum país, quer ter seu nome ligado a uma pandemia. Como foi o caso da gripe espanhola, injustamente assim nominada, por ser este o único país da Europa, neutro na primeira guerra mundial, a divulgar o surto da peste. A gripe espanhola, ao que tudo indica, nasceu nos EUA, no estado do Kansas, e foi para a Europa com as tropas americanas. Por isso, países escondem surtos. E, se continuarmos com essas denominações, vão esconder no futuro. Entendeu, cara pálida? 

Bom, imitando aquele assessor do Bill, o Clinton, dá até vontade de dizer àqueles que insistem nessa ladainha de vírus chinês: é a ciência. No caso, médica, diplomática e política.






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