O vírus e a lupa

Publicação: 2020-06-05 00:00:00
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Marcos Lima de Freitas
Médico neurologista
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte – CREMERN

A palavra vírus vem do latim tendo como significado “veneno” ou “toxina”. Trata-se de um agente infeccioso microscópico capaz de causar doenças com graus variados de gravidade, comprometendo órgãos distintos de acordo com o tipo de vírus. Atualmente o mundo se rende aos efeitos de um desses agentes que afeta o sistema respiratório podendo evoluir com complicações e levar ao óbito. Sua capacidade de transmissão e o reconhecimento de circulação global fez com que a Organização Mundial da Saúde declarasse estado de pandemia em 11 de março de 2020. O Novo Coronavírus ou SARS-CoV-2 provoca a doença Covid-19 que teve sua origem na China.

A lupa é uma lente ampliadora de imagem, componente fundamental do microscópio eletrônico, instrumento essencial para o estudo de estruturas minúsculas como os vírus. Esse importante invento foi apresentado pelo físico alemão Ernst Ruska em março de 1931 e tornou visível o que, até então, era invisível para a ciência. 

Imaginem a existência, no sentido figurado, de uma lupa como ampliadora das necessidades humanas. Assim sendo, o vírus responsável pela pandemia modificou o foco dessa “lupa da humanidade” tornando evidentes elementos aparentemente invisíveis ou ignorados. Atualmente o vírus é o tema mais pesquisado nos “sites” de busca. Os sintomas, medicamentos, vacina, respiradores e unidade de terapia intensiva tem ocupado um lugar de destaque no interesse dos brasileiros. Itens relacionados a prevenção também foram pesquisados sendo a “máscara” a primeira preocupação, seguida de “isolamento”, “álcool gel” e “lavar as mãos”. Outros temas secundários também foram alavancados e atingiram os seus recordes como “notícias boas”, “oração”, “como cortar o cabelo”, “como fazer pão”, “videoconferência”. 

Sem embargo, o foco principal da lupa está direcionado para os sentimentos e relacionamentos humanos. O medo da contaminação e das informações destorcidas e alarmantes. A sensação de impotência diante de um agente infeccioso microscópico que conhecemos apenas parcialmente. A ansiedade por respostas rápidas da ciência que necessita de um tempo hábil para apontar evidências seguras. A solidariedade demonstrada através de iniciativas de ajuda ao próximo. A preocupação com o impacto na economia e consequente crise humanitária. A disciplina necessária para cumprir o que determinam as estratégias epidemiológicas que visam reduzir a transmissibilidade. 
Essa lupa também direcionou seu foco e holofotes para os profissionais da saúde elegendo-os protagonistas e tratando-os como heróis.

Sem a lupa esses profissionais já se dedicavam a amenizar sofrimentos e salvar vidas quando possível. Evidenciou-se que os atuais heróis brasileiros foram, num passado recente, responsabilizados injustamente pelo caos e pela ineficiência do sistema, quando foram preteridos e substituídos por estrangeiros. Expôs a desvalorização que sofrem com remunerações não condizentes com as responsabilidades assumidas, constantes atrasos salariais e insegurança jurídica nos contratos, inclusive em plena pandemia. A lupa ampliou as mazelas da saúde pública cronicamente combalida pela negligência, pela insuficiência de financiamento, pela falta de políticas públicas eficazes, pelo uso político inadequado e por decisões político-ideológicas equivocadas tomadas nas últimas décadas. Ficou nítida para a coletividade a importância da disponibilidade de leitos de terapia intensiva na preservação da vida e que a falta de insumos e medicamentos compromete a saúde de pacientes e profissionais. 

Que o foco dessa lupa, modificado pelo vírus, “veneno” ou “toxina”, permaneça nítido na memória de todos e que o sentimento de solidariedade e reconhecimento se perpetue. Que os fatos revelados por essa lente ampliadora, traga legítimos benefícios para a humanidade.  

Os médicos do Rio Grande do Norte seguirão proativos na busca pela boa prática da profissão e pela assistência digna aos seus pacientes.





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