O vendedor de redes nas praias de Natal

Publicação: 2020-01-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Descansando numa rede armada ao lado de outras em um posto de gasolina em Ponta Porã (MS), na fronteira do Brasil com o Paraguai, o comerciante Valdinei Reis estranha a aproximação do barulho de fogos de artifício, que já dura um tempo. Não demora muito a perceber de que se trata, na realidade, de tiros de fuzil disparados contra dois carros que estão na sua direção. Ao lado de outros comerciantes ali acampados, se esconde como dá no restaurante do posto, assiste o fuzilamento de um dos carros e tem a impressão de que está num filme da máfia.

Créditos: Magnus NascimentoColecionando histórias que poderiam ser de pescador, Valdinei vai contando suas aventuras carregando uma rede nos ombrosColecionando histórias que poderiam ser de pescador, Valdinei vai contando suas aventuras carregando uma rede nos ombros
Colecionando histórias que poderiam ser de pescador, Valdinei vai contando suas aventuras carregando uma rede nos ombros

Aproximadamente cinco anos depois, Valdinei me conta essa história sentado debaixo de uma barraca de praia, na Praia do Meio, em Natal, distante mais de 3,6 mil quilômetros de Ponta Porã. O homem baiano, de 27 anos, é uma espécie de caixeiro-viajante, profissão existente no Brasil desde a colonização portuguesa e cada vez mais rara de encontrar. As andanças começaram aos 12 anos junto do pai e o primeiro destino foi Montevidéu, no Uruguai, para vender redes – produto que vende até hoje.

"Toda temporada eu gosto de ir para um lugar diferente, uma praia diferente. Tem dois anos que eu gosto de vir para cá (Natal). Carnaval, agora fim de ano… na praia, que dá turista, é onde eu gosto de ir. É um passeio. Eu trabalho, me divirto, conheço culturas e pessoas diferentes. Minha família sempre fez isso", relata.

Encontrei Valdinei enquanto caminhava na areia da Praia do Meio na última quarta-feira (8). Ao lado do fotógrafo Magnus Nascimento, falei com ele na tentativa de conseguir uma entrevista com um vendedor ambulante local para essa série de reportagens sobre pessoas que sobrevivem da praia. Me deparei com uma história de 15 anos que envolve seis países da América do Sul, 23 estados brasileiros, tiroteios na fronteira, improvisos para fazer pedidos em restaurantes estrangeiros, noites de frio vividas em postos de gasolina, casos de racismo e acolhimento.

Valdinei nasceu em Cipó, município de 16 mil habitantes localizado no sertão baiano. No passado, a cidade teve o turismo como forte atividade econômica por ter águas termais, mas hoje o funcionalismo público e o artesanato são as principais atividades. "Na minha cidade, quem vive do artesanato ou produz ou sai vendendo por aí. Eu prefiro vender porque eu faço o preço que quero, consigo negociar e ainda conheço muitos lugares", explica.

As viagens são feitas geralmente em grupo, composto pela família e por amigos e sócios do pai – artesão, vendedor e principal influente do filho. Na primeira, em Montevidéu, ficou sem o pai, que precisou voltar a Bahia por problemas, e precisou aprender com a própria experiência. Um dos momentos mais marcantes para o então jovem de 12 anos foi ir a um restaurante sozinho. Na tentativa de pedir um frango, não conhecia a palavra "pollo" (frango em espanhol) e precisou fazer mímica para o garçom.

Créditos: Magnus NascimentoValdinei percorre as praias de Natal vendendo redeValdinei percorre as praias de Natal vendendo rede
Valdinei percorre as praias de Natal vendendo rede

A primeira visita a Natal foi em janeiro de 2019. Valdinei gostou das vendas e da cidade e retornou há um mês e meio. Para vender, caminha nas praias todos os dias  oferecendo as redes de barraca em barraca, com preços iniciais a R$ 85 (o valor varia de acordo com a cidade). A preferência é pelas praias da Redinha, Forte e Meio. "Aqui é povão, que fala a mesma língua que eu. Aí eu consigo vender mais, negociar melhor. Tem outras praias que o povo trata a gente com desdém, brinca com nossa cara, tem preconceito"

Chegou a passar dez meses fora de casa. Graças a natureza da atividade, que exige a iniciativa e o contato com as pessoas, aliado a uma política de economia máxima, que o coloca em estadias simples, o baiano esteve exposto às diversas faces de um Brasil e de uma América do Sul reais, com todas as contradições sociais e culturais. Teve que aprender a lidar com isso para vender as redes com a maior vantagem financeira.

Essa natureza, entretanto, naturalmente carrega o cansaço.  "Tanto emocional, quanto físico, porque a gente pega em toda mesa uma conversa diferente. A pessoa vai cansando, o psicológico. Tem dia que eu não aguento ouvir ninguém falar, que eu não quero que ninguém venha conversar comigo."

Ficar fora de Cipó na maior parte da vida levou o afastamento de amigos e familiares – a irmã, conta, não vê há “muito tempo”. O ensino básico também não foi concluído. Valdinei lamenta todas essas coisas, mas, uma vez em casa, a saudade do mundo também se estabelece. "Isso aqui é muito viciante. A gente tá em casa e daqui a pouco da aquela saudade do mundo. Aí a gente pega e vai embora”, me diz como última frase da entrevista. Faz algumas fotos em seguida. Enquanto olho os resultados com o fotógrafo, o caixeiro-viajante reinicia a sina dos últimos 15 anos.

O que
A TRIBUNA DO NORTE inicia uma série de reportagens para contar a vida de pessoas que, de algum modo, estão ligados à praia – sejam trabalhadores, moradores, turistas que utilizam a praia como lazer, atletas, pesquisadores. A cada reportagem, uma história vai ser relatada. As publicações serão nas edições de terça, quinta e sábado. 







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