O Vinho imitando a vida

Publicação: 2019-01-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Este tema pode parecer demasiado poético, ou até mesmo utópico, e é, mas longe de qualquer elucubração desvairada, tomo emprestado para abordá-lo algumas analogias e exemplos da própria vida, como para dar sentido a essa retórica que funde vida e vinho de forma tão convergente. Se partirmos da gênese dessa bebida, no seu sentido mais enológico, veremos que a planta que produz a uva, matéria prima do vinho, não se chama uveira, mas VIDEIRA. Do ponto de vista semântico, a grafia VIT, radical latina da palavra VITICULTURA, também dá origem ao termo VIDA. E por falar em VITICULTURA cabe uma distinção entre esta e AGRICULTURA, pois a agricultura tende a buscar a padronização, o alto rendimento, a consistência na maior escala possível, enquanto a VITICULTURA busca as sutilezas, a distinção, exatamente como as nuances que distingue a todos nós de uma mesma espécie, mas ao mesmo tempo tão distintos. Para o VITICULTOR o vinhedo não é um espaço de terra passivo, mas uma biosfera poderosa, animada e dinâmica. Obviamente que estou me referindo àqueles viticultores que não são movidos apenas por interesses comerciais. O exemplo de obstinação da videira, assemelha-se também à nossa determinação pela vida, pois “quanto mais ela luta para sobreviver, mais forte se torna, mais doces são seus frutos, e melhor o seu vinho. Tal como nós, seus valores são forjados pelos dissabores.

vinho

Nascido o vinho, ainda na sua fase de latência, porta-se como nós, imaturos. Seus elementos reverberam em vigor, desajeitadamente, desprovidos de equilíbrio que são. Em se tratando de um grande vinho julga-lo ruim nessa fase pressupõe que nós é que somos os imaturos enquanto apreciadores. Evoluído, em sua fase madura, quando seus elementos se encontram lapidados pelo tempo, o mesmo tempo que nos forja a sabedoria, o bom vinho, conjuga força e elegância, intensidade e complexidade, potência e polidez. É exatamente quando nossa reatividade deixa de ser impulsiva para ser reflexiva, quando tudo em nós se completa de forma harmônica. Quando depois de vivenciado esse longo platô, o vinho inicia seu declínio, a força gradualmente vai dando lugar à debilidade, o frescor transforma-se em fluidez, mas mesmo aí, o aceno da juventude não os torna de imediato débeis, e a exemplo de nós, humanos, cabe desfrutar da maturidade que nos priva do vigor, mas nos compensa com sua delicadeza, com sua grandeza histórica, com sua elegância, e com sua caudalosa complexidade. Como nós, há vinhos fáceis e complexos, ligeiros e longevos, cheios de personalidade e anônimos. Como nós, os vinhos são únicos na espécie, mas plural na individualidade de cada garrafa, esse invólucro do qual o libertamos para o nosso bel prazer. Como os vinhos, há pessoas que queremos, há outras que toleramos e há aquelas que desprezamos. Há vinhos que falam, há vinhos que nada dizem, assim como há pessoas que nada dizem e, as que ouvimos. Por isso sem querer menosprezar vinhos e pessoas, ouso dizer que há vinhos como pessoas, e há pessoas como vinhos.

A Linguagem do Vinho
Exatamente pelo fato do vinho imitar a vida, é que a linguagem utilizada para o descrever é a mesma que utilizamos em nossas inter-relações. Termos como elegante, jovem, maduro, velho, magro, potente, equilibrado e complexo, são apenas algumas das muitas polissemias que traduzem as muitas sensações provocadas pelo vinho. Recorremos à analogia para tornar cristalino o que, de outra maneira não passaria de uma algaravia, de um linguajar turvo e incognoscível. Com os aromas que o vinho nos suscita ocorre o mesmo. A associação é o único recurso que dá lógica ao diálogo da descrição vinícola. E isso é mais uma demonstração de como o vinho contribuiu para nos tornar humanos, ou seria o contrário?


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