Obama terá mandato complicado

Publicação: 2013-01-20 00:00:00
Altamiro Silva Júnior e André Lachini - Agência Estado

Nova York (AE) - Alguns presidentes dos Estados Unidos, quando reeleitos, gastaram o segundo mandato tentando consertar os erros do primeiro, ou então na inatividade, recebendo o apelido de “lame duck” (pato manco, em tradução literal). Analistas internacionais acreditam que esse não será o caso de Barack Obama, que tomará posse nesta  segunda-feira para o segundo mandato. As festividades da posse começaram ontem e se estenderão até o juramento oficial no Capitólio em pleno feriado nacional de Martin Luther King.
Barack Obama e Michelle, no juramento em janeiro de 2009
 Obama, contudo, terá um mandato “complicado”, antecipam analistas ouvidos pela Agência Estado, porque precisará negociar com a oposição republicana - que domina a Câmara dos Representantes (deputados) - e ainda lidar com o desafio de os EUA dividirem uma posição de protagonismo com a China não só na geopolítica, como também na economia. É um cenário diferente das duas décadas passadas, observam analistas.

“Vai ser um mandato extremamente complicado. Existe uma visão totalmente oposta entre democratas e republicanos a respeito da economia. Os democratas defendem o aumento dos gastos, os republicanos são radicalmente contra e querem cortar o Orçamento”, prevê Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal Paulista (Unifesp).

Para o estrategista global da gestora BlackRock, Russ Koesterich, apesar de ter grandes temas pela frente, o presidente Barack Obama vai passar boa parte do primeiro ano de seu segundo mandato tentando resolver questões fiscais e formas de reduzir a enorme dívida pública norte-americana. Ainda é difícil saber o desdobramento das discussões sobre elevação do teto da dívida e corte de gastos públicos e o que será efetivamente resolvido, por isso, ao menos na primeira metade de 2013, grandes temas vão ficar em segundo plano, como a questão energética, tratados comerciais e a reforma da imigração, que o próprio Obama disse que seria uma prioridade para 2013.

No geral, Koesterich vê os Estados Unidos mais debruçados nesse início de  segundo mandato em questões internas mais graves, com maior foco nos problemas domésticos, que são muitos, por isso exercendo menos liderança internacional.

Controle de armas terá resistência no Congresso

Washington (DW) – Uma das batalhas mais duras que serão travadas no primeiro ano do novo mandato é a restrição à venda de armas de alto poder de destruição, usadas nos recentes massacres nos Estados Unidos. O presidente deverá enfrentar dura resistência no Congresso ao  pedido por leis mais rígidas de controle de armas de fogo no país. “Estou seguro de que haverá uma oposição suprapartidária contra as suas propostas”, disse em comunicado o senador republicano Lindsey Graham. O senador reagiu assim à exigência de Obama de que, entre outros, seja proibida a venda de fuzis de assalto e carregadores com mais de dez balas de munição. O presidente norte-americano também quer uma verificação mais rigorosa dos compradores de armas de fogo.

Também o líder da bancada democrata no Senado, Harry Reid, reagiu com reservas ao anúncio. Segundo o jornal Washington Post, Reid declarou que o presidente fez “sugestões cuidadosamente elaboradas”. Ele disse que irá considerar em breve “um projeto de legislação que aborda a violência por armas e outros aspectos da violência em nossa sociedade.”

O político democrata declarou ainda estar preocupado que seu partido venha a perder votos nas próximas eleições parlamentares, em novembro de 2014, principalmente em regiões rurais com muitos defensores do uso de armas. Somente legisladores podem apresentar projetos de lei no Congresso, não o presidente.

Além de seu pedido por uma legislação mais rigorosa das armas de fogo no país, o presidente norte-americano assinou, na semana passada, 23 ordens executivas que reforçam o cumprimento da legislação existente e que não precisam de apreciação pelo Congresso. A iniciativa de Obama acontece quatro semanas após o massacre de 20 crianças e seis adultos numa escola de Newtown, cidade do estado norte-americano de Connecticut.

Poucas horas após o anúncio do presidente, a Associação Nacional de Rifles dos EUA (NRA, na sigla em inglês), principal lobby de armas do país, publicou um vídeo na internet em que acusa Obama de “hipocrisia elitista”. O presidente se posiciona contra o emprego de vigilância armada nas escolas, mas guarda-costas acompanham diariamente suas filhas até a escola, argumentou o lobby de armas.

A NRA critica ainda que somente portadores de armas “honestos e justos” seriam afetados. As crianças continuariam correndo o risco de um novo massacre, disse o lobby de armas. “Nossa prioridade maior é proteger nossas crianças e nossa sociedade”, assinalou a organização. No entanto, segundo pesquisa de opinião da agência de notícias AP, a ira dos entrevistados frente ao massacre em Newtown supera até mesmo a fúria sentida após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Segundo a pesquisa, seis em cada dez cidadãos do país defendem leis mais rigorosas de controle de armas, e 84% dos entrevistados declararam ser a favor de averiguações mais rigorosas de proprietários de armas. Os apoiadores de um controle mais acirrado de armas de fogo elogiaram a iniciativa de Obama. Numa primeira reação ao discurso do presidente, o diretor da Coalizão para Parar a Violência de Armas de Fogo, Josh Horwitz, disse que o presidente deu um passo adiante “incrivelmente significativo”.

O Centro de Política de Violência (Violence Policy Center), organização de pesquisa que faz trabalho de lobby contra armas de fogo em Washington, declarou que a iniciativa de Obama irá deter a “violência cotidiana por armas de fogo”, que destrói “muitas famílias e vizinhanças”. Associações de médicos também expressaram seu apoio a Obama.

A Coalizão Parar a Violência de Armas de Fogo apelou aos cidadãos norte-americanos para que façam pressão sobre deputados e senadores. Obama admitiu que não será fácil impor a iniciativa.  Segundo estimativas, existem por volta de 200 milhões de armas de fogo nos EUA.

Gabinete sugere governo de centro

São Paulo (AE) - No discurso de posse,  Barack Obama deverá adotar um tom diferente do histórico pronunciamento feito por ele em 20 de janeiro de 2009, assistido por dois milhões de pessoas, em que o democrata prometeu “mudanças”. Obama, dizem analistas de política internacional, moveu-se para o centro do espectro político e se aproximou dos republicanos moderados, chegando inclusive a nomear alguns desses políticos para seu gabinete, em uma ampla reforma ministerial. Os nomes mais importantes são o do ex-senador Charles “Chuck” Hagel para secretário de Defesa e de John Brennan para a poderosa e temida Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês).

“Obama tenta atrair políticos do Partido Republicano que servirão como uma ponte entre a presidência e os republicanos da Câmara. ‘Chuck’ Hagel já era cotado para ser secretário no primeiro mandato. Ele tem uma postura bastante pacifista e foi veterano da Guerra do Vietnã”, diz Gabriel Rico, executivo-chefe da Câmara Americana de Comércio (Amcham) em São Paulo. Rico lembra que Hagel é favorável que Israel estabeleça um diálogo com o movimento de resistência islâmica, o Hamas, e também defende o diálogo das potências ocidentais com o Irã a respeito do polêmico programa nuclear iraniano.

“Hagel é contra as guerras. Os EUA tentarão transferir problemas para os aliados. Não farão guerras como na era de George W. Bush”, diz Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal Paulista (Unifesp). Para ela, Obama está tentando montar um governo de centro e não nomeou democratas que estão mais à esquerda para os ministérios. “Obama quer a reconciliação partidária e um governo de consenso. Ela precisa fazer isso porque a marca (do segundo mandato) será a recuperação da economia e evitar uma nova recessão”, diz Pecequilo. “Certamente, esses republicanos não são fanáticos do Tea Party.”

Alguns não veem como construtiva essa aproximação de Obama com os republicanos, que no primeiro mandato também significou a adoção de táticas violentas no combate ao terrorismo, com o uso dos aviões não tripulados e teleguiados enviados contra islamitas no Iêmen, Paquistão e Afeganistão. Para o ativista de esquerda Noam Chomsky, de 85 anos, Obama é um homem que não tem um “centro moral”. Chomsky disse em entrevista recente à emissora Al Jazeera do Catar que a retórica de Obama “parece legal, mas quando você olha para a política de verdade... Quero dizer que a campanha de assassinatos dos aviões não tripulados e teleguiados é uma campanha mundial de assassinatos”, afirmou.

No plano interno, a “esperança” pregada por Obama deu lugar à “resignação” dos americanos, diz Pecequilo. “No fundo, o que ocorre hoje nos Estados Unidos é o seguinte: eles estão resignados. Os americanos olham para a Europa e pensam: ‘não está muito ruim aqui’. Mas olham para a China e veem uma forte expansão, muita vitalidade”, avalia a especialista. Ela acredita que Obama, eleito em 2008 com uma mensagem de esperança, assumirá a Casa Branca para mais quatro anos em um “clima de resignação” do próprio eleitorado, que em 2008 acreditou que fazia história e afastava os sombrios anos da era de George W. Bush.

Entrada de Kerry não muda relação com Brasil

Washington (BBC) - O Brasil deve esperar “continuidade” nas suas relações com os Estados Unidos no segundo mandato do presidente Barack Obama. A principal mudança na equipe de política externa de Obama será a substituição da atual secretária de Estado, Hillary Clinton, pelo senador John Kerry – que ainda precisa ser sabatinado pelos colegas da Comissão de Relações Exteriores, o que deve ocorrer na próxima quinta-feira. 

Até lá, o Departamento de Estado americano evitará comentar as mudanças de equipe ou de estilo que podem vir com o novo chefe. “Queremos que ele seja o primeiro a falar sobre o que fará diferente de Hillary Clinton”, foi a linha oficial que um assessor do órgão deu à BBC Brasil.

Hillary Clinton, com estatura suficiente de presidenciável, elevou ainda mais a já alta visibilidade da diplomacia americana. Mesmo assim, não descumpriu a orientação do chefe, de estabelecer uma relação entre os EUA e o mundo menos bélica e menos intervencionista, em contraposição aos dois mandatos do republicano George W. Bush.

A atual secretária de Estado é creditada com as iniciativas da diplomacia para promover a igualdade de gêneros, que muitos analistas acreditam será uma de suas marcas à frente da pasta. Já John Kerry, creem analistas, pode ser uma figura ainda mais adequada ao perfil de Obama. Ele é visto como menos “político” e mais pragmático que Clinton e, devido à sua menor visibilidade, talvez até mais afeito às negociações de bastidores.

Mas não é esperada que uma mudança de “estilo” no Departamento represente grande mudança para as relações Brasil-EUA, “refundadas” pelos presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama.

A visita de Obama ao Brasil, em 2011, e de Dilma aos EUA, em abril passado, injetaram uma dinâmica positiva no relacionamento que estava desgastado no final do governo do ex-presidente Lula, em consequência das divergências em relação ao Irã, o golpe em Honduras em 2009 e posições conflitantes em fóruns multilaterais.

Dilma e Obama assinaram 15 acordos bilaterais e criaram – ou elevaram – os chamados diálogos de alto nível, incluindo quatro de nível presidencial, no qual os países debatem desde temas comerciais à política internacional e defesa, de integração energética à educação e o meio ambiente. Algumas destas iniciativas ficarão sob a batuta de John Kerry, quando ele for confirmado para substituir a secretária Clinton.

No entanto, mesmo os integrantes do governo Obama indicam que o ímpeto das relações Brasil-EUA não parte necessariamente do Departamento de Estado, e sim dos setores comerciais da administração.

Os contatos mais vívidos estão nos diálogos de comércio, energia, inovação e nas iniciativas de educação (programas como o Ciência Sem Fronteiras que, de certa forma, também foram pensados do ponto de vista econômico).

À BBC Brasil, o subsecretário americano de Comércio, Francisco Sanchez, disse que os dois países também estão procurando incentivar cada vez mais a participação do setor privado nos diálogos. Sanchez também destacou o “trabalho de formiga” de harmonizar os padrões e medidas, integrar as cadeias de produção e reduzir barreiras não-tarifárias, que podem surtir efeito a partir de medidas simples.

Posse do segundo mandato é um tributo ao povo dos EUA

São Paulo (AE) - A extensa programação da posse de Barack Obama se estenderá ao longo deste domingo até o ponto alto das celebrações, na segunda-feira, culminando com o juramento de Obama perante o Capitólio e um show com astros da música internacional, como a cantora americana Beyoncé. Para inaugurar o segundo mandato do democrata, entretanto, a ideia é que as celebrações não sejam um tributo somente ao presidente reeleito, mas aos cidadãos norte-americanos. O primeiro dia deverá reunir milhares de pessoas em Washington para acompanhar diversas celebrações de cidadania, mas o cenário econômico mais desafiador deverá resultar num público menor na posse do presidente Barack Obama para o segundo mandato em comparação com 2009, segundo o Comitê de Inauguração Presidencial. “Na última posse, foram 2 milhões de pessoas. Esperamos um número menor que esse agora, até porque é um segundo mandato. Estimativas não oficiais falam em um público de 600 mil a 800 mil pessoas em Washington”, afirmou Theo LeCompte, diretor de eventos e cerimônias do comitê.

O juramento de Obama e de seu vice, Joe Biden, será no domingo, conforme prevê a Constituição, que define que o juramento presidencial seja realizado sempre no dia 20 de janeiro. A cerimônia será na Casa Branca, já que o Congresso adiou as celebrações oficiais para o dia seguinte. À noite, haverá uma comemoração no National Building Museum.

O juramento oficial no Capitólio será realizado somente na segunda-feira, quando os EUA comemoram o Dia de Martin Luther King, feriado no país. Na programação das celebrações, o simbolismo relacionado à ascendência africana de Obama estará presente em diversas ocasiões. No momento do juramento, Obama estará segurando duas bíblias, uma do ex-presidente Abraham Lincoln e outra de Luther King. Já Biden fará seu juramento na Suprema Corte, diante da juíza Sonia Sotomayor, primeira hispânica a se tornar juíza da Corte.

Após a cerimônia oficial, Obama fará o tradicional desfile de posse pela Pennsylvania Avenue até chegar à Casa Branca. Na sequência, haverá um baile aberto ao público no Washington Convention Center, onde o Comitê de Inauguração Presidencial aguarda a presença de milhares de pessoas para celebrar a posse. Obama estará presente com a primeira-dama, Michelle. A programação está prevista para terminar apenas na terça-feira, quando haverá missa na Washington National Cathedral com a presença de diversas autoridades.

Segundo o Comitê, os custos da cerimônia serão bem parecidos com os da posse anterior e serão revelados somente daqui a 90 dias. As pessoas também poderão fazer doações até este final de semana “É um evento cívico e estamos levantando fundos e doações como em qualquer evento do tipo”, disse LeCompte. Há quatro anos, as doações privadas para a primeira posse de Obama totalizaram cerca de US$ 60 milhões.

Cronologia

2009

20 de janeiro: 
Barack Hussein Obama toma posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, o primeiro dirigente afroamericano da nação mais poderosa do mundo.

22 de janeiro
Primeiros atos afirmam  intenção de fechar, dentro de um ano, o centro de detenção americano da Baía de Guantánamo, em Cuba - um símbolo de muitos dos piores excessos cometidos pelo presidente anterior George W. Bush na chamada “guerra ao terror”. Quatro anos depois, a prisão permanece aberta.

27 de fevereiro
Elabora plano para concluir as missões de combate no Iraque e retirar todas as tropas americanas até o final de 2011.

20 de março
Anuncia um “novo começo” para mudar a tendência de décadas de mútuas hostilidades entre os EUA e o Irã.

5 de abril
Em discurso proferido em Praga, assume o compromisso de liderar a missão para um mundo livre de armas nucleares.

4 de junho
Em um discurso histórico para o mundo muçulmano no Cairo, Obama defende um “novo começo” para o Islã e os Estados Unidos com a promessa de por fim a anos de “suspeitas e discordâncias”.

9 de outubro
Obama ganha o Prêmio Nobel da Paz.

2010

23 de março
Obama assina lei histórica que prevê a revisão do sistema de saúde nos EUA.

21 de julho
Decreta a mais importante reforma financeira, desde a década de 1930, com a promessa de que os americanos não precisariam mais pagar pelos erros de Wall Street.

23 de setembro
Na ONU, critica os “cínicos” e “pessimistas” ao pedir que o mundo apoie seu plano para a criar um Estado Palestino e garantia a segurança de Israel no prazo de um ano.

22 de dezembro
Assina histórica lei que revoga a proibição de homossexuais assumirem sua opção sexual ao servir nas forças armadas.

2011

1 de maio
Obama anuncia que o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, foi morto pelas forças americanas no Paquistão.

2 de agosto
Agência de classificação Standard and Poor’s rebaixa a nota de risco dos EUA pela primeira vez na história.

23 de outubro
Obama saúda a libertação da
Líbia como uma “nova era de promessas” após captura do ditador Muamar Kadhafi, morto pelos rebeldes.

2012

30 de janeiro
Obama admite abertamente pela primeira vez o uso de aviões teleguiados (drone) para atacar extremistas no Afeganistão e Paquistão.

2 de maio
Anuncia a completa retirada de todas as forças americanas do Afeganistão até o final de 2014.

11 de setembro
Militantes atacam uma missão dos EUA em Benghazi, na Líbia, matando o diplomata norte-americano Chris Stevens e outros três cidadãos americanos.

6 de novembro
Obama conquista segundo mandato nas urnas, vencendo o   republicano Mitt Romney.

14 de dezembro:
Ao chorar a morte de 20 crianças no massacre numa escola primária em Newtown, Connecticut, Obama promete medidas para restringir a venda de armas.

2013

1 de janeiro

Após semanas de vai-e-vem político, o Congresso finalmente alcança um acordo para evitar o chamado “abismo fiscal”

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