Ocupação criativa

Publicação: 2017-05-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

“Tio, ele vai fazer uma reportagem sobre a gente?”, pergunta uma das crianças enquanto penteia o cabelo deste repórter. Outras meninas correm pelo galpão, dão cambalhotas, os meninos testam o equilíbrio na fita de slackline. Sentado ao chão, no centro de todo esse movimento, bem à vontade enquanto dá entrevista, o rapper, grafiteiro e educador Miguel Carcará responde a uma criança que lhe mostra um passo de break dance: “Você deveria vir nas aulas de dança de rua. Tem uma turma só para meninas”.

Galpão começa a ganha cor pelas mãos de artistas e atletas. O espaço abriga aulas diárias e ensaios de grupos de dança da comunidade
Galpão começa a ganha cor pelas mãos de artistas e atletas. O espaço abriga aulas diárias e ensaios de grupos de dança da comunidade

Acostumada a aparecer no noticiário policial, a Comunidade da África, no bairro da Redinha, onde acontece a conversa, dessa vez é notícia positiva. Tudo porque na Travessa Gameleira, número 20, um galpão sem uso da prefeitura de Natal, antes abandonado, foi revitalizado pelos próprios moradores e agora serve como sede para o Movimento Cultural Nossos Valores.

Organizado de modo independente e sem fins lucrativos, o projeto traz a cultura urbana em sua essência e vem a preencher a lacuna da falta de espaços de cultura e de lazer no bairro, principalmente para a juventude.

Um dos coordenadores do Nossos Valores, Carcará conta que o funcionamento no galpão começou no final de janeiro. Antes o grupo residia próximo a praia, mas por questões financeiras precisaram sair. Encontraram o galpão abandonado na África. A região conhecida pelos crimes, muito com jovens envolvidos, despertou a vontade do coletivo de agir naquela realidade, então resolveram ocupar o espaço. Acontece que o imóvel pertence a prefeitura de Natal, que retirou os equipamentos do coletivo e fechou o local. Carcará e outros envolvidos com o projeto foram atrás de dialogar com a prefeitura e conseguiram a autorização, por interlocução da Funcarte, para utilizar o espaço.

Um ajuda o outro
“A Redinha não tem área de lazer para a juventude, a não ser a praia. A gente vê que tem muita cultura no bairro, mas esbarramos na falta de incentivo e de espaços”, diz Carcará, que reforça o papel do Nossos Valores. “Agora temos esse galpão para produzirmos e mostrarmos nossa cultura”.

Aberto diariamente, o projeto oferece oficinas de hip hop, break dance, rap, grafite, basquete, slackline, capoeira. A cada 15 dias acontecem sessões de cinema para o público infantil e uma vez por mês é realizado a “Revolução Urbana”, evento com apresentações de dança, de música e a participação de artistas de outros regiões de Natal. Nos domingos, Carcará tem feito ensaios abertos de sua banda “Carcará na Viagem”. A ideia também chamou a atenção de outras bandas, que também já pensam em vir ensaiar no local.

O educador diz que chegaram a tentar outros imóveis, mas viram que ainda há muito preconceito com a cultura urbana. “Algumas pessoas não aceitam nosso jeito de se vestir, não reconhecem nossa arte. Vimos que para defendermos a nossa identidade precisaríamos do nosso espaço”, comenta. Com o trabalho voluntário de alguns parceiros e moradores, o galpão hoje tem uma cara mais atraente, com grafites nas paredes externas e internas.

Meninada do bairro passa pelo galpão para aulas de ‘slakline’ com um mestre do esporte, o atleta Laerte Ferreira (no centro)
Meninada do bairro passa pelo galpão para aulas de ‘slakline’ com um mestre do esporte, o atleta Laerte Ferreira (no centro)

A estrutura é básica, mas permite a realização das atividades, que já contam com cerca de 60 jovens participando. Há tabela de basquete, tapete de break dance, equipamentos de som e para a prática de slackline – conseguido com a Slack Proof, patrocinadora pessoal de Laerte Ferreira, o Real, um dos coordenadores do projeto e professor nas oficinas de slackline e break dance. Real tem 28 anos, nasceu e cresceu na comunidade da África. “A comunidade abraçou o espaço. As crianças chegam sozinhas no lugar, participam das atividades. Além disso, já acontecem festas de aniversário, ensaios do arraiá local e reuniões da igreja”,  conta Real.

Carcará também endossa a opinião de Real. Há oito anos atuando como educador na Redinha, hoje, terminando o curso de Pedagogia, ele mora em São Gonçalo do Amarante, mas não arreda o pé do bairro. “A gente sabe que o espaço não é o ideal, ainda tem muito para melhorar. Mas vamos fazendo aos poucos, com a colaboração da comunidade. Os moradores reconhecem o valor do espaço. Já somos convidados para discutir os problemas da comunidade e alguns empresários locais já ajudam com apoios”, comenta Carcará. Outras parcerias são com estudantes da UFRN, IFRN, grupos sociais e movimentos de rua.

Identidade local

Com 35 anos, sendo 20 dedicados a cultura de rua, Miguel Carcará sabe a importância dessa expressão contemporânea e de seu papel social. Mas ele não esquece da cultura local e do sentimento das pessoas pela comunidade, apesar dos problemas. “O cotidiano da África é muito complexo. Quem vive por aqui não sabe como vai terminar o dia. Muitos pais e jovens já perderam parentes para o crime. Independente disso, a gente vê aqui que as pessoas têm orgulho do nome da comunidade. Há esse sentimento”, diz o educador.

“Nossa inspiração é a cultura de rua. Ela também existe para esse tipo de trabalho social. Queremos fazer arte para transformação. Mas temos na comunidade outros tipos de manifestação cultural que não podemos esquecer. Temos um grupo de cultura indígena centenário, um grupo de carimbó formado só por idosas. Queremos de alguma forma aproximar esse pessoal do projeto”, comenta.


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