Ode a geração de leitores

Publicação: 2010-08-31 00:00:00
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Maria Betânia Monteiro - repórter

Mário Prata é um daqueles fazedores de textos. Já elaborou uma porção deles para jornais, revistas, blogs, palco de teatro e livros. Apesar do volume de sua obra, o autor reclama do número de leitores no Brasil. “A última geração brasileira que leu foi a que se tornou adulta nos anos 40 e 50”. Para falar sobre o assunto, o escritor, jornalista e dramaturgo foi convidado para um debate, durante o “IV Seminário Prazer em Ler”, promovido pelo Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) e pelo Instituto C & A. A presença de Mário Prata foi confirmada para esta sexta-feira.

O escritor e dramaturgo Mário Prata fala sobre leitores e livros no Seminário Prazer em Ler, que começa quinta-feira, em NatalPara o escritor, a realização de um seminário deste porte já é fazer muito pela literatura. “Se estamos aqui para estudar a situação é porque a coisa deve estar grave”, pontuou Mário em entrevista ao VIVER. O autor revelou que seus pais liam e o hábito foi transferido para os cinco filhos, incluindo o próprio Mário.

O escritor tem a hipótese de que a atrofia literária do povo brasileiro é uma consequência das medidas tomadas ainda na década de 1960, ano em que foram incluídas obras literárias no programa do vestibular. “A partir dali a literatura, a química, a física, a biologia e a matemática se nivelaram. Ao entrar numa faculdade o jovem dizia: nunca mais vou ler nenhum livro de literatura, química, física, matemática e biologia, na minha vida.”. O jovem teria criado desta maneira forte rejeição pelas obras literárias, odiando os Machados e Eças, que foram obrigados a ler quando ainda não tinham sequer maturidade para entender tais autores. “Esta juventude que não lê hoje já é filha de uma geração que deixou de ler lá atrás. E você não recupera mais este possível leitor. Tenho lutado muito para tirar esta aberração dos vestibulares”.

Sobre o acesso facilitado à literatura, que é o objetivo do Seminário Prazer em Ler, Prata citou Mário Quintana, quando disse que o pior analfabeto é o que sabe ler e não lê. O analfabeto estaria nesta condição por não ver ninguém se divertindo ou aprendendo ou mesmo “viajando” com um livro nas mãos. “Porque ele vai ler, se ele nunca viu ninguém lendo? Se ler é uma ordem da escola?”, indaga Mário Prata.

Entre vampiros e o leitor que erra

Parafraseando Quintana, Mário Prata diz que “o pior analfabeto é o que lê errado”. A frase revela a má qualidade na oferta e na procura dos livros brasileiros. Mário explica que há algumas décadas o brasileiro e grande parte do mundo está lendo errado, está lendo por modismo. “Você deve se lembrar daquele livro do garoto e da pipa. A partir dele (que era um bom livro) virou moda ler literatura do oriente médio e proximidades. Um monte de merda foi editada. Autores surgiram do nada e para o nada voltaram depois de uns dois ou três anos. A moda agora é jovem vampiro, tipo crepúsculo”. O escritor lembra que há poucos dias, a lista dos “20 mais vendidos no Brasil”, da revista Veja, entre autores nacionais e estrangeiros, havia 14 (entre 20) livros sobre vampiros, sendo que 9 estavam entre os 10 mais vendidos.

Uma solução para a ausência de criticidade diante do que se consome, seria o ensino da leitura em detrimento da escrita. “Eu acho que não se devia ensinar o aluno quando ele entra na escola a escrever. Não, devia ser ensinado aos garotos ler. Depois que aprendessem a ler, naturalmente escreveriam”.

O conselho foi dado por um escritor, que já fez de tudo como escritor, mas que antes se encantou pela leitura, através do exemplo deixado pelos pais.

Como escritor, Mário lançou obras para crianças, imprimindo a sua principal marca: o bom humor. Autor de “Chapeuzinho Vermelho de raiva”, “E o Zé Reinaldo, continua nadando?” e “O Homem que soltava pum”, Mário Prata fala ao VIVER sobre literatura infantil.

Bate-papo » Mário Prata - escritor

A literatura infanto-juvenil chegou em que momento de sua carreira?

Quando meus filhos eram pequenos, nos anos oitenta. Eu preferia inventar histórias mais próximas ao mundo deles do que aquelas eternas e tradicionais europeias e americanas. Porque todas elas são de uma violência muito grande. É lobo comendo avó, bruxa engordando menino pra comer, madrastas mais que más, etc etc etc. Ficava inventando cada dia um pouco. Uma editora soube e eu coloquei no papel. O primeiro foi O Homem que Soltava Pum que ficou em segundo lugar nos infantis mais vendidos durante mais de um ano. Para meu orgulho, o primeiro lugar era O Menino Maluquinho.

É diferente escrever para criança?

É preciso muito cuidado. Eles acreditam bem mais do que os adultos. E nem sempre conseguem distanciar a realidade da ficção. Todo cuidado é pouco. Depois que meu filhos cresceram, nunca mais me aventurei. Na verdade eu escrevia era mesmo para eles dormirem me ouvindo. Eles adoravam.

O que tem lançado no mercado?

Confesso que estou muito distante deste mundo para responder pela qualidade e diversidade do atual mercado. Mas vamos ter aqui em Natal pessoas da área e muito mais informados do que eu para responder à sua pergunta. A única coisa que eu sei é que o Ziraldo continua vendendo e eu acho isso muito bom.