Cookie Consent
Rubens Lemos Filho
Odilon, arte do silêncio
Publicado: 00:00:00 - 20/03/2022 Atualizado: 12:34:16 - 19/03/2022
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Odilon era o átimo, o repente, o fogo aceso, a batida sutil e curvilínea na bola por pés que calçavam 37. O craque sem vaidade, o fugitivo da fama, o oposto do fanfarrão, do lobista dos gramados. Louvava aos céus quando repórteres cercavam os injustamente eleitos melhores em campo, ele saindo discreto e no estilo francês dos seus passes.
Reprodução


Em setembro de 1985,Odilon me fez triste.Havia o fora de minha primeira paixão. Foi bom experimentar, acabou sendo o último. Ocorreram peladas fugazes no campo sentimental adolescente, nada graves. Mas é o apocalipse para o menino de 15 anos. Odilon estava no Alecrim, que formara timaço com Didi Duarte e Edmo Sinedino no meio-campo criativo e operário.

O ABC tentava o tricampeonato é contratada 44 pistoleiros naquele ano, sem resultado algum. Do zagueiro Pedro Basílio, do Ceará, ao veterano Adilton, meia, ex-Fluminense e ao atacante Ademir Patrício, que jogou na Europa, Galícia e Bahia.

Lembro com nitidez de um certo Ricardo Santos.  Barrigudo que chegaram a comparar ao eterno Dedé de Dora. Com o garfo, sem dúvida. O América, de Marinho Chagas encerrando carreira, estava nas finais pela conquista do primeiro turno. ABC x Alecrim decidiriam o segundo.

Recordo com clareza a peleja pelo inusitado local em que a assisti. A arquibancada(linda) e ondulada do Castelão (Machadão) estava com seu anel lotado, a massa do ABC tomou conta do espaço do América e sentei no cimento do lado oposto ao do velho placar em que o funcionário do estádio atualizava os gols de cima de uma escada.

É de lá, no segundo tempo, vi o raio de camisa 8 partindo da ponta-esquerda, no lado do dito gol do placar. Fez a defesa alvinegra cair de dominó de fintas. Parecia boneco de videogame, pica-pau de desenho animado, bip-bip perseguido por impotentes papa-léguas.

O Alecrim foi bicampeão em 1985 e 1986 graças a Odilon. O ABC foi tri em 1993/94/95 e esqueceu de lhe pagar a fatura que seu temperamento arredio jamais cobraria.

Bem casado, pai de filho de poucos meses, contemplei Odilon fazendo gol inesquecível, campeonato perdido por antecipação pelo ABC e vencido pelos mistérios do sobrenatural. Sempre nos segundos finais dos clássicos. Aquele título foi para Caio, meu primogênito.

Odilon bateu escanteio de chapa, a parte interna do seu pé de Cinderelo da Frasqueira. A bola fez um passeio cruel sobre os zagueiros caindo dentro da trave do América. Gol olímpico. Secava o estoque de cervejas do Bar 10, nas intermediárias.

Desde então, a qualquer corner com Odilon na cobrança, a Frasqueira gritava: “Escanteio com Odilon é meio-gol!”. Antes das suas batidas feiticeiras de falta, cachaceiros apostavam aguardente no bar 18, onde se concentrava a parte etílica alvinegra. Odilon foi meio-time, cara-metade, craque por inteiro. Provou que o silêncio também pode falar alto. Na voz da arte.

Malvadeza

O Flamengo será finalista e tetracampeão carioca devem pensar as cabeças frias do futebol. O Flamengo precisa perder por dois gols de diferença do Ex-Vasco da Gama esta tarde para ficar fora da decisão contra Fluminense ou Botafogo. Não deve dar zebra.

Sim, é zebra hoje em dia o Vasco vencer o Flamengo. O antigo Clássico dos Milhões desde alguns anos, virou Clássico do Bullying, Clássico da Humilhação, Clássico da Malvadeza, Clássico da Surra Prévia.

Ou simplesmente um jogo qualquer, porque clássico é um acontecimento nobre, tradicional, imprevisível e tudo o que não é duvidoso é o encontro do Flamengo com o Vasco.

O Vasco tanto apanha quanto perde do rubro-negro, seu velho maior rival. O Vasco se mantém pela lealdade xiita de sua torcida, sofrida a cada apito final da arbitragem, ela bem resolvida a resolver no apito qualquer dúvida que venha a prejudicar o Flamengo. O VAR não vale para time pequeno, graduação do Vasco desde os anos 2000 e pior nas décadas de 10 e 20.

Surgido de uma dissidência do Fluminense, falta ao Flamengo o cômodo sentimento da piedade. Poderia emprestar alguns reservas ao Cruzmaltino em dia de jogo, apenas para animar a peleja, torna-la menos previsível e cruel para os eternamente derrotados.

No  último jogo, o Flamengo ganhou de 1x0 e perder por um gol de diferença equivale ao levantamento de um cobiçado troféu pelo Vasco, time que terá dificuldades em se manter na Série B.

Boçal à última instância, o técnico português Paulo Sousa( antes, o que se referia a Portugal era exclusividade vascaína), reclamou dos jogadores pelo “fraco” desempenho: 448 passes com média de 92,7% de acerto e 30 cruzamentos sobre a desesperada defesa do (Vice) Almirante.

Não vejo mais jogo do Vasco. Corrijo: assisto os antigos. Tenho uma penca de DVDs. Hoje, enquanto o uruguaio Arrascaeta estiver enfiando uma caneta nalgum perna de pau com a Cruz de Malta no peito, verei pela 137ª vez a final do Campeonato Carioca de 1988, gol de Cocada. Ser Vasco é ser velho.


Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte