Olhar pastoral sobre a cidade

Publicação: 2018-01-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo de Natal

Queridos irmãos e irmãs!

Quero refletir sobre um tema muito debatido, mas que sempre necessita de nossa atenção e dos nossos esforços: a pastoral urbana, o olhar sobre a cidade. E o que nos anima é a perspectiva do Documento de Aparecida (DAp), tão fortemente assumida pelo Papa Francisco: “A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio as suas alegrias, desejos e esperanças, como também em meio as suas dores e sofrimentos” (DAp 514).

Deus vive na cidade! Essa é a constante que deve animar nossa caminhada pastoral na região urbana. O próprio Documento de Aparecida aponta alguns elementos, propondo e recomendando uma nova pastoral urbana. Dentre esses elementos de renovação destaco aqueles que nós, como Igreja Particular, já temos e que precisam ser assumidos com mais determinação e com mais empenho. É necessário, como afirma o documento, que a pastoral urbana responda aos grandes desafios da crescente urbanização (DAp 517, letra a). Com certeza, o processo de setorização é um caminho eficaz para que o projeto de renovação pastoral da Paróquia se torne realidade. Nós já temos algumas paróquias setorizadas, o que muito nos alegra. Mas, em algumas realidades paroquiais não existe nada, ou porque não tem condições ou porque não existe interesse. Se não existem condições de setorizar a paróquia, por causa de suas características, ressalto o que o Documento de Aparecida e o Papa Francisco nos fazem refletir e nos impelem a tomar uma decisão: ao transformar as paróquias cada vez mais em comunidades de comunidades, desenvolva-se uma espiritualidade da gratidão, da misericórdia, da solidariedade fraterna, atitudes próprias de quem ama desinteressadamente e sem pedir recompensa (DAp 517, letras c e d). O Papa Francisco assim se expressava ao clero de uma cidade italiana, quando de sua visita pastoral, realizada nestes últimos dias: “somos bons operários ou nos tornamos ‘funcionários’ de Deus? Somos canais abertos e generosos ou nos colocamos no centro de tudo?”. Eu retenho, e primeiramente para mim que, somente quando nos convertermos ao projeto missionário de Aparecida e estivermos atentos ao sopro do Espírito no testemunho de vida do Papa Francisco, poderemos ser bons operários da messe do Senhor. E embora fale especificamente para os padres, as suas recomendações valem para todos: nem sempre é fácil viver a comunhão e a fraternidade, ainda mais “por causa da cultura do egocentrismo e do individualismo pastoral infelizmente muito comum nas dioceses hoje”. Recomenda Francisco: “[...] se deve fazer a ‘escolha’ da fraternidade, da comunhão em Cristo no presbitério, ao redor do bispo [...], é preciso vivê-las concretamente, em perspectiva apostólica, com estilo missionário e simplicidade de vida”.

O que é necessário é que assumamos a pastoral ou o estado permanente de missão. Mas, que ninguém se iluda: a renovação pastoral da região urbana não se fará isoladamente. Não é função de uma só pessoa e nem se fará com individualismos, com egocentrismo nem com centralismo de ninguém. Como Pastor da Arquidiocese de Natal afirmo: nenhum leigo e nenhum presbítero ou diácono permanente pode agir por si só. Nós só podemos agir em nome da Igreja na comunhão. Entristece o meu coração quando a comunhão não existe. Por isso, conclamo, em nome de Deus: deixai-vos inundar pela beleza da comunhão e da fraternidade! Nós, principalmente os ministros ordenados, não existimos para sermos o centro nem vivemos para nós mesmos. O ministério que assumimos, pelo próprio significado do termo ‘ministério’, é um serviço aos outros. Nunca como hoje é preciso afirmar: somente o testemunho de serviço aos outros é que pode arrastar os corações para Deus.

A realidade urbana exige que nos aproximemos das pessoas como anunciadores da boa nova, com uma linguagem renovada, que não seja de um Deus distante ou que dê a impressão que o fazemos em troca de privilégios ou que seja apenas para sustentar estruturas que indicam obrigação, deveres e ainda que manifestem uma imagem de Deus que não traz alegria, ternura e paz. Uma imagem de Deus assim não cativa, não é conforme ao espírito de renovação eclesial vindo a nós pelos ares do Concílio Vaticano II e pela beleza de Aparecida.

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