Ondas Curtas

Publicação: 2017-08-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Depeche Mode

Depeche mode – “Spirit” (2017, Columbia Recs.)

Após mais de 35 anos de banda fica difícil crer que, no 14º álbum de estúdio, o hoje trio britânico Depeche Mode se reinvente diante de tantos clones deles no mundo ocidental ou como a canção de abertura (“Going backwards”) relata: “we’re going backwards/ignoring the realities/turning back our history”. Os mesmos timbres soturnos desde “Black celebration”, de 1985 (antes disso o grupo tinha um semblante mais, digamos, diurno-colorido), continuam batendo nas 12 faixas do álbum, com a sonoridade eletrônica mais ambiental que nos anos 90 – como em “Where’s the revolution?” e “The worst crime” –, contando com a econômica guitarra de Martin Gore, que desde que passou a tocá-la em “Enjoy the silence”, o grande hit do grupo desde 1991, nunca mais largou as seis cordas, embora a alterne com os sintetizadores. Os vocais graves do hoje cinquentão Dave Gaham emprestam uma seriedade extra ao som das drum machines nas sincopadas “Scum” e “Cover me”. Em todas elas, as teclas do “maestro” Andrew Fletcher e para as pistas o máximo perto disto é “So much love” com sua guitarra desértica, mas em composições como “Eternal” (não confundir com “The eternal”, do Joy Division) e “Poison heart” as letras derramam um simplório romantismo melancólico na realidade de um público hoje tão mal informado e capaz de pensar que a banda é debutante, mas o Depeche Mode vem de longe. Não é um clássico como “Music for the masses” (1987) ou “Violator” (1991), todavia, o espírito segue em frente e nada de modismos fugidios.

My Magical Glowing Lens, Cosmos
My Magical Glowing Lens – “Cosmos” (2017, Honey Bomb/PWR/Subtrópico)

Liderados pela figura da guitarrista/vocalista Gabriela Deptulski, os 39 minutos do disco de estreia do quarteto espírito-santense rodam no círculo inexato do rock alternativo de efeitos, digamos, espaciais, uma espécie de Flaming Lips menos possante feito nos trópicos (mas sem aquelas armas dos pedais dos americanos). Batidas sincopadamente eletrônicas emergem na pink-floydiana “Space woods” e “Da selva pro mar”, dupla de faixas que exibem anti-canções, na verdade, quase arquitetando partes incompletas de composições. Nas tentativas na língua pátria, “Raio de sol” (esta cheirando o Slowdive do começo de carreira), “Tente entender” e “Noite estrelada”, o máximo que conseguem é trazer frases neo-simbolistas sob leve camada experimental de teclados, loops arrastados e guitarras esvoaçantes, a exemplo dos cinco minutos de “Portal”. Pouco senso melódico, experimentalismo intermitente – o silêncio precisa ser mais bem trabalhado –, vozes etéreas (alguém aí sussurrou Cocteau Twins?), nome longo e despreocupação comercial são o cartão de visitas do grupo, agradando àqueles que adoram dizer que são “cult” por gostarem de uma banda desconhecida do grande público como os Lens, na estrada desde 2013. Porém, fica o recado de que a mágica ainda precisa render outras poções para alcançar universos mais pluralmente psicodélicos e de equilíbrio sonoro. O próximo disco os aguarda, pois o tempo ainda é o cosmos.

Por Alexandre Alves

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