Ondas curtas

Publicação: 2017-09-12 00:00:00 | Comentários: 0
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CHICO BUARQUE, “Caravanas” (2017, Biscoito Fino)

Adentrando com sete composições inéditas e mais duas regravações (“Dueto”, foi gravada em 1980 junto com Nara Leão, além de “A moça do sonho”, gravada por Maria Bethânia), o medalhão da MPB – ortodoxa para alguns, mas com a crítica musical tupiniquim a seus pés – lançou foi uma espécie de disco anti-comercial. Após meia década sem trazer novidades, aqui não há vontade de tocar em rádio ou de ter as letras cantadas pela plateia nas hoje raras apresentações do carioca.

Ondas curtas

Quem espera um novo sambinha do Chico vai ter que se esforçar para lembrar as melodias jazzeadas, pois o que se escuta em “Casualmente” (um bolero em espanhol!) e “Desaforos” – ambas com eternas musas na área – desafia a memória musical, mesmo com as letras vindo em temas como futebol (“Jogo de bola”) ou entre o romantismo e a ironia.

Falando nela, a faixa de abertura, “Tua cantiga”, vista como machista por alguns fãs e rendendo aquela mesma polêmica acerca do ponto de vista da letra. No geral, o disco ficou acima da média da produção mpbística dos anos 2000, descontando-se aí o subaproveitado e deslocado beat-box na faixa título e o “Blues pra Bia”, que de blues tem quase nada, só uma raquítica guitarra intermitente e um piano com bem mais espaço. É uma verdadeira caravana chegar ao 38º disco de estúdio (23º solo) aos 73 anos. Só não chamem o disco de popular, por obséquio. (por Alexandre Alves)

TURNOVER, “Good nature” (2017, Run For Cover Records)

Explicar uma banda que um dia foi desesperadamente meio emo meio grunge e, de um disco para o outro, virou shoegazer de carteirinha? Este foi o trajeto que os estadunidenses do Turnover fizeram no disco anterior (“Peripheral vision”, 2015), saindo os riffs distorcidos e entrando os dedilhados espaciais do estilo criado pelo Ride, Slowdive e quetais (ou, ao menos, o lado menos explosivo e mais etéreo dos citados).

Ondas Curtas

Nas onze faixas de “Good nature” não há furacões, apenas um clima de fim de tarde veranil tomando conta das 11 faixas, baladas cheias de guitarras cristalinas já na abertura com “Super natural” e em “Sunshine type”. O ambiente do regressive rock da Class of ’86 britânica (Wolfhounds, Pastels, Bodines)  também passeia pela sonoridade das batidas de “What got in the way” ou “All that it ever was”. Todas as canções seguem na brevidade dos três a quatro minutos de duração, padrão estrofe-refrão-estrofe-refrão e nada de solo.

Se o Turnover convence? A produção, sim, mas a aura continua espedaçada, um tanto falseada. “Breeze” tem aroma do The Church do início de carreira e aí dá vontade mesmo é de ouvir os australianos (cujo primeiro disco é de 1979). Esquisito mesmo é ver a banda fazendo turnê recente na Indonésia (!) e a plateia cantando alto as sussurradas letras do (agora) indie pop do grupo. O mundo já não é mais o mesmo no novo milênio. (por Alexandre Alves)

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