Quadrantes
Onde todos vivem
Publicado: 00:00:00 - 03/10/2021 Atualizado: 19:17:09 - 02/10/2021
Cláudio Emerenciano 
Professor da UFRN

Não importa a dimensão físico-geográfica. Seu conteúdo não se externa por sua configuração, tamanho e população. Pois o que mais alcança e domina o tempo, sobrepujando-o, são as relações humanas, os sentimentos, os sonhos, o espírito coletivo, os encantamentos, a cultura, a criatividade em todos os aspectos e a maneira de viver: define- lhes sua personalidade e identidade. Nesse sentido, a felicidade de cada homem não pode ser individual, exclusiva. Não se sedimenta nem se amplia indiferentemente, alheia às circunstâncias dos outros. Queiram ou não, há interdependência entre os que fazem e compartilham um meio social. Os laços definem a solidariedade, a paz e a fraternidade. Eis uma perspectiva em que não há distinção entre uma aldeia, um minúsculo ajuntamento, um povoado, pequeno, humilde, rústico e esquecido, uma caravana de nômades no deserto, uma cidade e uma grande metrópole, uma comunidade campestre, cercada de pomares verdejantes, cortada por rio e envolvida por múltiplas e idílicas manifestações da natureza; ou uma pobre vila em plena caatinga nordestina, resistindo, heroica e estoicamente, na terra esturricada, desafiando a estiagem e o calor; também ilhas paradisíacas nos mares do sul e das Antilhas, consagradas em livros como “A ilha” de Aldous Huxley, “Contos dos mares do sul” de Somerset Maugham, “As viagens de Gulliver” de Jonathan Swift e “A ilha do Tesouro” de Robert Louis Stevenson. Antoine de Saint-Exupéry, em livro de profunda densidade filosófica, inacabado (“A cidadela”), consagrou o peso da solidariedade, da paz, da convergência espiritual de uns com os outros, assim como o respeito mútuo, que irmana raças, gêneros. cultura e status social: “É por isso que convém manter permanentemente acordado no homem aquilo que é grande, objetivando convertê-lo à sua própria grandeza”.

A “cidadela” é a denominação universal, atemporal, espiritual e mística do espírito coletivo, que existe na alma de todos os homens. Nela a humanidade se sublima. Nela se exercitam sentimentos e valores que permitem ao homem ascender, evoluir, crescer e aprimorar-se.  Enfim, dignificar a condição humana. A escalada de violência emerge invariavelmente de contradições, injustiças, paradoxos e misérias que se acumulam onde se vive. Desde a Revolução Francesa, quando faltou pão em Paris, convencionou-se chamar esse clamor popular de “Ponto Termidor”, onde a crueldade sufoca a legítima indignação.

Haverá sempre duas comunidades. Não se contrastam entre utopia e realidade, sonhos e pesadelos, alegrias e tristezas, passado e presente. São faces de duas realidades. Pois uma é caminhada, percurso, ascensão do homem a Deus. Nessa se conjugam meios e fins da existência humana, renovando o sentido da vida. A outra é a antítese da “cidade” amada e sonhada por Sócrates (Atenas), que preferiu morrer a abandoná-la indefinidamente. Viver longe dela seria abdicar as fontes umbilicais do seu modo de viver, de sua cultura e dos seus sonhos. Nos jardins de Getsêmani, Jesus contemplou Jerusalém, chorou e suou sangue. Antes, deplorara- lhe a perda de humanidade: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”. Mas Santo Agostinho amalgamou a Jerusalém terrestre com a celestial. Uma, a exemplo da “escada de Jacó”, é via de acesso à outra: a “Cidade dos Homens” e a “Cidade de Deus”. Por todos os tempos e culturas, eis vínculos, enigmas e desafios sem fim para o gênero humano: redescobrir em sua cidade, em seu lugar de permanência, o sentido amplo da vida. Buscar e concretizar qualidade de vida para tantos quantos a integram. Identificar a inserção individual no ser coletivo, onde cada um é responsável por todos. A cultura e a civilização, desse modo, têm como fonte cada pessoa.  Confirma-se, portanto, que a violência globalizada dos nossos dias, cruel e insana, nasce no âmbito do lugar de permanência dos homens, embora se amplifique  através da internet e da televisão germinando contradições, que se transformam em ódio, inveja, cobiça, desumanidade, irreprimível subversão de valores, em que o homem – disse Thomas Hobbes – é “lobo do próprio homem”. Circunstâncias pré-apocalípticas dos dias de hoje...

Ernest Hemingway contemplava a Paris intemporal ao amanhecer, sentado na escadaria da Basílica de “Sacré-Coeur” em Montmartre. O grande Prosper Mérimée (escritor e estilista genial, criador de Carmem), em “A Vênus de Ille” externou seu encantamento por uma aldeia dos Pirineus Orientais. Envolta por neve, era sua “cidade sentimental”, eterna e imutável. Erich Maria Remarque, alemão, revelou arrebatamento e identidade com Paris em “Arco do Triunfo”. Fenômeno semelhante acometeu Romain Rolland, Nobel da literatura em 1915, inserindo-se na alma de um vilarejo suíço, Villeneuve, à beira do lago de Genebra. Ali produziu a maior parte de sua obra. Quantos e quantos poetas e cronistas reverenciaram a alma do Rio de Janeiro? Ignorando, sobretudo hoje em dia, a insegurança e antagonismos. Visualizando apenas o belo, humano e superior ao tempo. Gilberto Freyre, do seu casarão em Apipucos, comovia-se ao descortinar Recife e Olinda perenes, misturando história, sentimentos, valores e cultura. Câmara Cascudo viu em Natal tudo o que mais aliciara sua sensibilidade: a província, o mundo, o homem em todos os tempos. Amando e se misturando com a natureza: ode à vida, amálgama da utopia com a realidade. Em “Civilização e Cultura”, o mestre identificou valores e posturas universais, presentes em todos os lugares.  Mas a utopia assumiu dimensão idílica com Manuel Bandeira em “Vou-me embora pra Pasárgada”, pois “Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei...”    

A força do amor pela terra comum não cede a nada. A alma coletiva é indômita, virtuosa, silenciosa e surpreendente. É o terror dos tiranos, que sempre a subestimaram ao tentar garroteá-la. Os pacíficos, ao longo da História, paulatinamente tornaram a liberdade e a busca da felicidade caminhos,. meios e objetivos da condição humana. Segundo Ralph Linton (“A árvore da Cultura”), antropólogo, amigo e correspondente de Cascudo, existe, latente, uma cultura da liberdade e da paz na consciência de todos os homens e aprimorada pela Educação. É uma das sínteses da obra de Paulo Freyre.

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