Ópera-rock The Wall é revisitada

Publicação: 2012-03-06 00:00:00
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Jotabê Medeiros

Santiago - Helicópteros parecem se aproximar ferozmente, e o som quadrafônico espalha o rugido dos motores pelo estádio, enquanto explosões pontuam toda a extensão do telão. Uma réplica de um avião de guerra da Royal Air Force desce da torre de iluminação e colide com o muro, como se estivéssemos dentro de um Vietnã portátil. Logotipos da Shell e da Mercedes caem no abismo junto a símbolos como a estrela de Davi, a cruz católica. Um retrato de Mao Tse Tung é estilhaçado na tela, assim como outros de aiatolás e generais. Nos tijolos do muro (de 137 metros de largura), fotos de centenas de retratos de perseguidos políticos.
Roger Waters conduz ópera em Santiago: The Wall era para ser hoje uma velharia, mas ressurge atualíssima
Dificilmente se verá um show visual mais impressionante do que esse em 2012. Custa US$ 200 mil por dia (R$ 340 mil), segundo disse à reportagem o chefe de produção da turnê, Chris Kansy. The Wall, do Pink Floyd, vai encher o Morumbi, em São Paulo, nos dias 1º e 3 de abril com 70 mil pessoas por dia (ainda há ingressos para o segundo). É um titã tecnológico. Seis torres gigantes de som circundam o público. Marionetes colossais de mais de 100 metros de altura contracenam com a banda. Um muro continental é construído e demolido.

Ópera-rock de 1979 do grupo britânico Pink Floyd, revisitada sob a batuta do seu compositor, o baixista Roger Waters, levou 80 mil pessoas em duas noites ao Estádio Nacional de Santiago, sexta e sábado. Idealizada há três décadas para espaços fechados, agora foi repaginada para estádios e arenas gigantes. “Dedico esse show a Victor Jara, e a todos os torturados e desaparecidos”, discursou Waters em Santiago. O dramaturgo e poeta Victor Jara foi torturado e fuzilado pela ditadura Pinochet em 1973.

A atualização política do show é tão vertiginosa quanto a metralhadora que Waters dispara na segunda metade do concerto. Uma das canções foi dedicada ao brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia britânica com 9 tiros em 2005, ao ser confundido com um terrorista (Waters chega mesmo a cantar seu nome improvisadamente dentro de um verso).

“Há 32 anos, quando escrevi The Wall, acreditava que era minha história. Agora vejo que é algo maior, é de todas as pessoas que lutam contra a guerra. Abarca temas amplos e a luta do indivíduo contra a autoridade”, afirmou, em entrevista coletiva. Se o leitor puder, não perca o show: a reportagem visitou suas “engrenagens” no Chile, a convite da produção, e ficou estupefata. O interior do Estádio Nacional virou um hotel 5 estrelas, com buffets gigantescos, lounges, bunkers de produção local e internacional - no Chile, 400 pessoas trabalhavam no backstage, 160 delas chilenos. Leva 6 dias para montar o circo inteiro.

De cidade em cidade, a produção treina corais de meninos de instituições carentes para o coro de Another Brick in the Wall Part 2. No Chile, 16 garotos enfrentaram o boneco gigante do professor fascista criado pela mente delirante do artista visual Gerald Scarfe. Os “tijolos” do muro gigante, que atravessam o estádio de lado a lado, são de papelão especial. Segundo Kansy, que já trabalhou com o U2, o maior inimigo do show é a chuva, embora 40% do muro esteja coberto.

A coordenação de vídeo é inédita. Slogans em forma de grafites são bombardeados e repetidos no telão. “Big Brother is watching you”, diz um deles. A palavra “Capitalism” e Coca-Cola viram sinônimos. Durante a execução de Thin Ice, surge o retrato da figura que motivou a obra de Waters, seu pai, Eric Fletcher, morto em 1944 durante um bombardeio em Anzio, Itália.

O show tem um intervalo de 20 minutos entre a parte um e a parte dois. É um tempo bom - no intervalo, vestidos com as fantasias de soldados fascistas, os rapazes da banda tiravam fotos com fãs e suas namoradas no backstage. Um dia antes do show, no Chile, Waters pediu para se encontrar com a guapa Camila Vallejo, líder dos estudantes revoltosos de Santiago. “A educação deveria ser igual para todos”, disse. Em La Moneda, sede do governo, pediu ao presidente Sebastián Piñera para ver a sala onde Salvador Allende se matou, acossado pelos militares.

O filho do baixista, Harry Waters toca acordeon ao final do show, com o muro destruído - toda a banda junta, no palco, faz uma versão acústica de Outside the Wall, que parece música havaiana. Waters toca trompete. É aí que se vê que foram necessários três guitarristas (incluindo o veterano Snowy White) e um cantor para fazer a parte do ausente mais sentido do show - o guitarrista David Gilmour.

Roger Waters definiu a ópera-rock como “o meu bebê”. Gerada na época em um clima de autoindulgência, megalomania e clichês políticos. The Wall era para ser hoje uma velharia, mas sua advertência contra todos os tipos de totalitarismo - máquina de vilania em pleno funcionamento - ressurge com desconcertante atualidade. Com o reforço daquele que talvez seja o maior cinema da atualidade.

Roger Waters parece mais desafiador. Não está pelo mundo a passeio. O show parece respirar vida nova com essa disposição. O baixista deu declarações bombásticas sobre a disputa pelas Malvinas/Falklands entre argentinos e britânicos. “As Malvinas deveriam ser argentinas”, disse, acrescentado que sente mal estar com tradição imperialista de seu país. Outro britânico, Morrissey, também já chegou chutando o balde. “Todos sabem que as Malvinas pertencem à Argentina”. As declarações de Waters e Morrissey contribuem para tirar Cristina Kirchner do isolamento. Buenos Aires bateu o recorde sul-americano de um show em uma única capital, 9 seguidos. “Acho que vou alugar um apartamento em Buenos Aires”, brincou o produtor Chris Kansy. “Vou ficar mais tempo lá do que tenho ficado em minha casa.”