Ora, se flutua!

Publicação: 2021-01-21 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Agora faço como Dorian Jorge Freire quando queria brincar com a sua pobre condição de cronista caído de moda: os seis leitores desta coluna sabem que a verdade um dia desprega do lodo, no fundo do lago, e flutua. A contemporaneidade dos jornais que arrefece a densidade histórica, com o tempo vai ganhando solidez. Primeiro, vem em forma de descoberta; depois, vira denúncia; com algumas décadas, acaba sendo capítulo dos livros de história de um país.

Um caso assim, com todas as nuances, flutuou na edição de domingo passado numa nota que fechou a coluna de Elio Gaspari, com o discretíssimo título de ‘A morte de um patrono’. É a notícia aparentemente natural da morte do bilionário norte-americano Sheldon Adelson, aos 87 aos, com uma fortuna que teve o mérito de ser capaz de acumular e avaliada em torno de 35 bilhões de dólares. Era dono de resorts, hotéis, cassinos, em Las Vegas, Macau e até Singapura.

O detalhe magistral, de alta voltagem jornalística, começa no seu passado mais remoto, como apoiador eleitoral de presidentes norte-americanos, como Donald Trump, mas também de líderes como Benjamin Netanyahu. Quando da campanha que elegeu Barack Obama, teve a ousadia de declarar que estava disposto a gastar 100 milhões de dólares para evitar que Obama cruzasse a soleira da Casa Branca. A firmeza democrática de Barack incomodava a Sheldon. 

Pois bem. Depois de cercar o personagem das circunstâncias jornalisticamente reais e necessárias para que o leitor tivesse o retrato real, Elio Gaspari revela: Sheldon Adelson esteve no Brasil em 2018. Pousou discretamente no seu próprio avião, no aeroporto do Galeão, o hoje Tom Jobim, hospedou-se numa suíte do Copacabana Palace e, lá, sem ser notado, protegeu com cuidado duas visitas: o candidato Jair Bolsonaro e o hoje ministro da economia, Paulo Guedes. 

Não é surpresa que seus visitantes tenham chegado à sua suíte, como registra Gaspari, pela cozinha do Copacabana Palace. Menos pelo risco de agitar uma multidão de fás, como faria, certamente, o ex-beatle Paul McCartney, e mais para evitar o olho da imprensa que eles tanto repudiam. O fato é que chegaram à suíte e, verdade seja dita, não há documentos sobre a conversa, mas apareceram vestígios que, bem vistos, revelam o que desejava nosso bilionário.

Segundo Gaspari, depois da posse, o Brasil ouviu um eco da conversa na suíte do Copa: o ministro Paulo Guedes defendeu a abertura de cassinos no Brasil, como novas fontes de renda, defesa que fez durante aquela que o colunista da Folha de S. Paulo chama de ‘a tétrica reunião ministerial de abril’. Se faltou alguém em Nuremberg, como um dia gritou David Nasser nas páginas vibrantes de O Cruzeiro, pode faltar alguém no tribunal da draconiana da Lava Jato.

RECEITA - Na política quem nomeia quer uma das duas coisas dos nomeados: que falem ou que calem. No cardápio do secretariado do prefeito Álvaro Dias tem os dois tipos. É só esperar. 

ALIÁS - Há, na vida política, os viciados em cargos públicos. Uns, pelos salários; outros, pelos mimos que afagam o ego. Em alguns deles se retirar os cargos públicos o currículo desaparece.

JOGO - Os índios mais bem informados da tribo de Felipe Camarão, arranchados bem ali nos altiplanos da Praça André Albuquerque, asseguram que na STTU tem uma solução provisória.  

TOQUE - O tributarista Paulo Cesar Medeiros sinalizaria só um desejo de mudança de Álvaro Dias. Viria um técnico para salvar Natal do caos do trânsito e dos transportes coletivos. Tomara.

HISTÓRIA - A Assembleia Legislativa lança no reinício dos trabalhos legislativos a segunda edição de ‘Uma História da Assembleia’, de Câmara Cascudo, editada originalmente em 1972.

COMO - O livro nasceu de um convite do então presidente da AL, Moacir Duarte, em 1971 e o plano da reedição foi retomado na presidência deputado Ricardo Mota, e só agora executado. 

COVID - Se ao invés da disputa velada a governadora Fátima Bezerra e o prefeito Álvaro Dias estivessem unidos, teriam produzido um fato benéfico: um bom exemplo em favor da vacina.  

OITAVO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, convencido de que falta o oitavo pecado capital: “Quem, por medo ou soberba, nega uma paixão, não merece o reinado do céu”.

HISTÓRIA - Você já pode passar no Sebo Vermelho e adquirir seu exemplar de ‘Quadrantes’, reunindo quatro estudos sobre a historiografia do RN, de Luiz Henrique do Nascimento, seu organizador; Gileno de França, Carlos Henrique Pessoa Cunha e Sérgio Luiz Bezerra Trindade. 

QUAIS - Luiz Henrique escreve sobre “Os natalenses pobres na Primeira República”. Gileno França, “Oligarquia e Poder no RN”; Carlos Henrique Cunha, “Coronelismo, breve discussão conceitual”; e Sergio Trindade sobre o “O processo de Fundação da Escola Superior de Guerra”.

PRESENÇA - Quem esteve, discretamente, no lançamento prévio da grande biografia de Jean Mermoz, de Roberto da Silva, no Sebo Vermelho, foi monsieur Patrick De Bure, neto de Marcelo Bouilloux-Lafont, presidente da Aeropostale, quando Mermoz era um dos seus pilotos.












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