Os “tribuneiros”

Publicação: 2015-03-24 00:00:00
Certa vez, Aluízio Alves escreveu sobre a TRIBUNA DO NORTE: “Desde aquele primeiro teste para repórter, os repórteres que por aqui passaram, moldaram o espírito numa escola que não oferece aos homens diplomas ou doutorado, honras nem glórias, mas sim a visão completa das coisas e dos fatos que envolvem a comunidade. E como recompensa do nosso esforço e como coroamento da nossa vontade de quantos aqui ingressaram, nos enche de orgulho ver que aqui ou alhures, há sempre um “tribuneiro” pontilhando entre os melhores profissionais da imprensa”.
Ticiano Duarte
O início das carreiras de muitos dos profissionais que fizeram a TN ao longo das últimas décadas se confunde, inclusive, com a história do jornalismo local. Vários foram ou ainda são professores no curso de jornalismo da UFRN e em outras faculdades. Entre os “tribuneiros”  estão: Ticiano Duarte, Cassiano Arruda Câmara, Paulo Tarcísio, Osair Vasconcelos, Edilson Braga, Albimar Furtado, Antônio Melo e vários outros.

Na direção de redação do jornal, cada um deles imprimiu estilos pessoais e jornalísticos ímpares, mas compartilharam um adjetivo comum: qualidade. A mesma do início, com seus primeiros repórteres e diretores, que serve de base para os que hoje fazem a TRIBUNA DO NORTE.

Ticiano Duarte, o resistente 
Desde os idos de 1950, ano de nascimento da TRIBUNA DO NORTE, os ideais de liberdade e democracia norteavam o povo brasileiro. Rompimentos e novas alianças políticas no Brasil e no Rio Grande do Norte se faziam e davam um novo viés à história. A TN esteve presente em todas essas lutas. A de 1960, porém, foi a mais difícil, radical e o jornal acabou sendo atingido por querelas e ódios contidos.

Com a cassação de Aluízio Alves, em 1968, pelo Ato Institucional 5 (AI-5), o matutino viveu a fase mais crítica até hoje, em busca de sobrevivência, fugindo da perseguição do Regime Militar, dos seus agentes no Rio Grande do Norte, de alguns fascistas travestidos de democratas. Imaginavam que a morte da TRIBUNA DO NORTE estava anunciada.

Ticiano Duarte foi presença constante nessa batalha de armas desiguais e lutou, bravamente, a favor da TN para que não ocorresse o mesmo que vitimou o jornal Correio da Manhã, fechado pelo Regime Militar. Agnelo Alves foi preso e destituído da Prefeitura de Natal. Ticiano Duarte foi processado na Auditoria Militar, em Recife, pois era o editor-chefe à época. “O jornal está vivo. Como um exemplo de resistência democrática”, escreveu Ticiano Duarte, que acabou inocentando pela Justiça Militar. O caso dele estabeleceu, inclusive, jurisprudência para outras ações baseadas em atos de exceção da ditadura.

A prisão de Cassiano Arruda
Em sua primeira grande escola de jornalismo, o então editor Cassiano Arruda Câmara, nos idos de 1969, não pôs em prática somente sua veia jornalística como também provou o dissabor da Ditadura Militar em sua pior vertente: foi preso pelos militares. Os 49 dias de prisão foram causados pela publicação de duas notas sobre Esportes consideradas subversivas pelo comandante da Guarnição Militar em Natal (Exército), marechal Hildebrando Duque Estrada.

Os motivos da prisão de Cassiano Arruda Câmara foram plantados por volta da meia-noite do dia 15 de maio de 1969. Quando o jornal já estava fechado, pronto para ser impresso, uma misteriosa mulher apareceu, em um veículo da marca Volkswagen, e entregou um bilhete a Baltazar, então chefe da oficina do jornal. O bilhete, com uma assinatura falsa do então prefeito Agnelo Alves, determinava a inclusão, de última hora, de duas notas na Coluna Informes.

Numa das notas, foi referenciado o nome Hildebrando, o mesmo do general do Exército. Este, enfurecido, determinou não somente a prisão de Cassiano Arruda. Baltazar, o chefe da oficina, e Agnelo Alves também foram detidos e levados para o QG do Exército, onde hoje funciona o Memorial Câmara Cascudo. Cassiano foi levado para a Base Aérea de Natal, ficando preso por 49 dias e sendo absolvido no julgamento por falta de provas das acusações que lhe imputavam a autoria das notas subversivas.

Paulo Tarcísio e os episódios jornalísticos
Com duas passagens pela TRIBUNA DO NORTE, como repórter e editor-chefe, o jornalista Paulo Tarcísio Cavalcanti iniciou sua história como “tribuneiro” nos primeiros anos da década de 1960. Era véspera do Golpe Militar de 1964 quando ele cobriu as manifestações no estado potiguar e Brasil afora contra o Regime Militar. Mais tarde, em 1989, enquanto editor geral, participou da cobertura da Nova República, instalada pelo governo do ex-presidente da República, José Sarney.

Paulo Tarcísio Cavalcanti considera que sua passagem pela TRIBUNA DO NORTE foi salutar sob o ponto de vista pessoal e profissional. Dentre as grandes coberturas jornalísticas que teve a missão de chefiar, o assalto à agência do Banco do Nordeste no município de Assu, na região Oeste do estado, foi uma delas. “Desde os repórteres que lá estavam até a retaguarda na redação em Natal, todos estavam muito envolvidos em fazer a melhor cobertura para o leitor”, relembrou.

Do assalto à inflação: processo de mudança
A cobertura ao assalto ao Banco do Nordeste, em Assu teve, como repórter, o jornalista Edilson Braga, que na época era editor de política na TN. Mas, uma vez repórter, sempre repórter. Braga estava acompanhado da fotógrafa Ana Silva, voltando de uma cobertura  sobre a eleição em Serra do Mel quando ouviram, pela Rádio Cabugi, a notícia do assalto. Mudaram o roteiro para Assu.

Das 15h às 02h do dia seguinte, se mantiveram firmes na cobertura. Os assaltantes pediram um avião e foram atendidos. Entretanto, quando aterrissaram no Pará, foram detidos pela Polícia Federal. A cobertura deste episódio da história policial do Rio Grande do Norte foi uma das mais elogiadas nos 65 da TRIBUNA DO NORTE. Edilson Braga também foi editor geral no início dos anos 1990.

Hoje na assessoria de imprensa da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), o jornalista Albimar Furtado, foi repórter de editorias diversas na TN, mas se destacou ainda mais na Economia e na cobertura da inflação descontrolada nos anos 90. Entre os “tribuneiros” de sucesso, assumiu o cargo de professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), assim como Edilson Braga, e, mais tarde, a superintendência do Diário de Natal / O Poti, onde permaneceu por mais de dez anos.

Quem também contribuiu para a construção de uma TRIBUNA DO NORTE reconhecida por leitores foi Osair Vasconcelos. Repórter, diretor de redação e chefe de reportagem, ele afirmou que as mudanças pelas quais o jornal passou ao longo dos anos e a manutenção da qualidade do que é diariamente impresso, são qualidades inquestionáveis.

Sob a direção de Osair, a TN realizou a informatização da redação, criou o site do jornal na Internet e implantou a reforma gráfica-editoral de 1996. Uma das ideias deixadas por ele foi a realização de reportagens diferenciadas, planejadas para as edições de domingo, criando um diferencial para a leitura do fim de semana. Esse diferencial vem sendo mantido até os dias atuais.