Os ‘voos’ e os sonhos de Augusto Severo

Publicação: 2016-11-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Augusto Severo (1864-1902) teve um papel importante nos primórdios da engenharia aeronáutica brasileira, tendo promovido aperfeiçoamentos nos balões e inventado novos tipos de hélice e motores. No Rio Grande do Norte, ele batizou praça, escolas, aeroporto e até nome de município já foi – a hoje Campo Grande. No entanto, o ilustre aviador e político potiguar nunca ganhou um estudo a altura de sua história e feitos revolucionários. É justamente para preencher essa lacuna que o pesquisador carioca Rodrigo Moura Visoni se debruçou sobre sua vida e inventos para escrever “Os Balões de Augusto Severo” (Editora Tamanduá Arte), com previsão de lançamento para 2017.
ReproduçãoO livro “Os Balões de Augusto Severo”, da editora Tamanduá Arte (no prelo), de autoria de Rodrigo Moura Visoni, sobre a história do inventor potiguarO livro “Os Balões de Augusto Severo”, da editora Tamanduá Arte (no prelo), de autoria de Rodrigo Moura Visoni, sobre a história do inventor potiguar

Formado em Arquivologia, Rodrigo tem feito um destacado trabalho de resgate de brasileiros históricos ligadas às invenções, principalmente aviadores. Em suas pesquisas descobriu documentos inéditos sobre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Júlio César Ribeiro de Souza, Francisco João de Azevedo e Alberto Santos Dumont. Sobre este, é de Rodrigo a biografia ricamente ilustrada “Santos Dumont e os Balões”, que aborda sua fase anterior a dos aeroplanos.

Segundo o pesquisador, Severo teve alguns de suas invenções ofuscadas pelo contemporâneo Dumont. “Severo foi o primeiro a testar um dirigível no Brasil, o Bartholomeu de Gusmão, em 1894. E foi autor dos dois primeiros dirigíveis semirrígidos do mundo, o Bartholomeu de Gusmão (1894) e o Pax (1902)”, diz o autor, que começou a pesquisar o potiguar graças ao capítulo dedicado a ele no livro “Os Precursores Brasileiros da Aeronáutica”, de Pinto de Aguiar, publicado em 1975.

Em Natal, uma minibiografia escrita pelo jornalista Alexis Peixoto foi lançada em 2015 pela Caravela Selo Cultural. Mas em “Os Balões de Augusto Severo” Rodrigo vai além, trazendo uma obra abrangente e amplamente ilustrada, com cerca de 170 imagens. As fotografias provêm de arquivos e museus nacionais e estrangeiros que o autor visitou, bem como de agências de imagens. Os traços pessoais de Severo ele conseguiu em entrevistas publicadas em periódicos da época. “É a maior e mais luxuosa biografia já feita a respeito de Augusto Severo”, afirma.

O livro foi diagramado pela designer Miriam Lerner e está em fase de captação de patrocínio pela Lei Rouanet. “Pesquiso inventores brasileiros desde os 19 anos. O fato de muitos inventores brasileiros não haverem conseguido desenvolver suas ideias e lucrar seus inventos fez-me perceber o problema e procurar uma solução”, diz o autor, entrevista ao VIVER. 

Rivalidade era cordial
“Havia um clima de competição entre Augusto Severo e Santos Dumont, mas a rivalidade deles era cordial”, afirma o autor carioca. Na época, os dois brasileiros trabalhavam seus inventos com balões. Para Rodrigo, apesar do pioneirismo de Severo, o fato de Dumont ser mais consagrado se deve a ele ter faturado o Prêmio  Deutsch, na França, em 1901 – isso antes do voo do avião 14 bis, em 1906. Soma-se a esse ostracismo, o pouco material produzido a seu respeito. “Ninguém conhece direito a história de Augusto Severo, em razão das poucas biografias existentes serem antigas e pobres de dados e imagens”, diz.

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão nasceu em Macaíba, em 11 de janeiro de 1864. Saiu da cidade adolescente para estudar em Salvador e depois no Rio de Janeiro, quando cursou Engenharia na Escola Politécnica. No Rio, passou a se interessar por Aerostação, quando depois de estudos, fez seus primeiros projetos. Paralelo as pesquisas sobre voo, foi deputado federal.

Em 1892, conseguiu auxílio do governo para mandar fazer um dirigível em que incorporava suas ideias de aparelho semirrígido. O modelo foi batizado como Bartholomeu de Gusmão, nome de um inventor brasileiro. Em 1894, a invenção foi ao ar e Severo se tornou o primeiro a testa um dirigível no país.

Em 1901, motivado pelo Prêmio Deutsth, que prometia 100 mil francos a quem voasse 11km em meia hora, contornando a Torre Eiffel pelo percurso, o potiguar embarca rumo a França. No entanto, antes de conseguir montar seu dirigível, o conterrâneo brasileiro Alberto Santos Dumont realizou realizou o percurso e faturou o prêmio. Mas Severo continuou com suas invenções e investiu todo o dinheiro que tinha na construção do Pax, orçado em 150 mil francos. O dirigível tinha 30 metros de comprimento, 20 de altura e 13 de diâmetro, contava com dois motores à petróleo e sete hélices. O modelo o destacou dos outros inventores da época. Com dezenas de curiosos acompanhando a apresentação, a aeronave partiu à 400 metros de altitude sobre a Avenue du Maine. Tudo ia bem até que uma explosão incendiou o balão, tombando o dirigível. Severo, então com 38 anos, morreu na queda. Seu mecânico, o francês Saché, foi carbonizado.

*Colaborou: Cinthia Lopes, Editora

Bate papo com Rodrigo Moura Visoni, escritor e arquivologista

Por que o nome de Augusto Severo não é tão lembrado como o de Santos Dumont? Fora do Brasil, Severo é conhecido?
Augusto Severo não é tão lembrado como Santos Dumont por não haver ganho o Prêmio Deutsch, que tornou Santos Dumont mundialmente famoso, nem ter se dedicado ao avião. Ninguém conhece direito a história de Augusto Severo, em razão das poucas biografias existentes serem antigas e pobres de dados e imagens. Há algumas menções a Augusto Severo em livros estrangeiros, pelo fato dele haver tentado o voo na França e construído um dirigível lá.

O que levava pessoas como Augusto Severo e Dumont a explorar o céu naquela época?
Vários motivos. A humanidade já havia estabelecido rotas comerciais terrestres e marítimas, e o ar, se dominado, prometia impulsionar a globalização e revolucionar a economia mundial. Augusto Severo voltou-se para o problema da dirigibilidade dos balões ao tomar conhecimento das promissoras experiências de direção aérea feitas em 1881 e 1882 pelo paraense Júlio Cézar Ribeiro de Souza, que testou aeromodelos no Brasil e na França. Já Santos Dumont sonhava desde jovem em se tornar um aeronauta por influência dos livros de Júlio Verne, permeados de máquinas voadoras futuristas”.

Além de aviador e inventor, Severo teve uma atuação política. O que você descobriu desse lado da vida dele?
Augusto Severo aparenta haver sido um raríssimo caso de político brasileiro honesto e bem intencionado, havendo sido inicialmente eleito deputado estadual e depois federal. As causas que defendeu foram nobres: combateu a escravidão, criou projetos de auxílio à infância desamparada e de saneamento da Capital Federal.

Na 2ª Guerra Mundial Natal foi uma importante base aérea para as forças armadas dos Estados Unidos. Você estuda essa história?
Sei que há alguns livros sobre a participação da Base Aérea de Natal na Segunda Guerra Mundial, como 'O trampolim da vitória', de Augusto Fernandes. Há também um filme a respeito, 'For All - O trampolim da vitória', mas não é algo que eu estude.

Quem
Livro “Os Balões de Augusto Severo”, editora Tamanduá Arte (no prelo), de autoria de Rodrigo Moura Visoni, sobre a história do inventor potiguar, primeiro homem a testar um dirigível no Brasil, o Bartholomeu de Gusmão, em 1894. E foi autor dos dois primeiros dirigíveis semirrígidos do mundo, o Bartholomeu de Gusmão (1894) e o Pax (1902), quando morreu em um desastre em Paris





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