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Alex Medeiros
Os bons ladrões
Publicado: 00:00:00 - 06/04/2022 Atualizado: 22:51:46 - 05/04/2022
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Foram as religiões que incutiram na civilização a dicotomia entre o bem e o mal até em situações sem divisórias, como classificar dois ladrões distintamente, como ocorreu na mitologia cristã. No alto do Gólgota, ladeando o Jesus crucificado, foram colocados dois condenados: Dimas, que conversou com o Nazareno enquanto esperavam a morte, foi considerado o bom ladrão, enquanto Gestas, que pouco se fala deele, ficou com a fama de mau ladrão. 


Divulgação


O tema é para lembrar de um tempo em que os ladrões e bandidos de Natal metiam um medo que hoje avalio como de ínfima ameaça. Era uma época de delinquentes alçados a personagens das páginas policiais dos jornais, todos eles bem menos perigosos do que muitos frequentadores das editorias sociais e políticas dos últimos anos.

A primeira vez que eu vi um ladrão querendo roubar alguém foi no ensaio da Escola Imperadores do Samba, a campeã quase “hors concours” em fantasia e que era orgulho das Quintas. O roubo foi só uma sombrinha de uma senhora.

O cara foi preso em dois tempos pelo “Sargento Garcia”, um gorducho que era apenas soldado e plantonista da delegacia do bairro. O clone do desafeto do Zorro era também a maior autoridade para os meninos daqueles tempos.

Vivíamos na disciplina ensinada em casa e na escola, conscientes do errado em se rebelar contra pais, professores, policiais e, principalmente, adultos de idade avançada. Alcançamos os resquícios de civilização do Brasil Grande.

Até a violência urbana era carregada de romantismo. Os bandidos nas páginas do Diário, Tribuna e A República eram reles punguistas de carteiras de idosos ou arrombadores de portas em busca de um rádio de pilha e mudas de roupas.

Assíduos nos becos, ruas e terrenos baldios de uma Natal aldeã, os meninos nada temiam, a não ser dos ladrões famosos da cidade. Nós tremíamos de medo só de ouvir os nomes de Pé Seco, Piolho, Traíra, Peneropé e Ruela.

Marginais com um modus operandi do que hoje chamamos pé de chinelo, não agiam com violência, a não ser em confrontos diretos com os policiais, que andavam em duplas pela cidade e eram chamados PPOs ou Cosme e Damião.

Um roubo e a prisão de ladrões eram contados no rádio com roteiro, numa narrativa pra lá de Orson Welles. Em casa, as pessoas ouviam, se informavam e ganhavam de lambuja o entretenimento dos risos constantes provocados.

E cada ladrão tinha sua marca. O Piolho, por exemplo, aprendera uma reza forte com uma velha, e usava nas fugas. Cercado pelas viaturas “Rita Pavoni”, se ajoelhava, orava e desaparecia diante dos olhos estupefatos dos “polidoros”.

Pé Seco, cuja alcunha adivinha de um aleijo em um dos pés, tinha fama de imitar o Homem-Aranha, escalando paredes e muros para roubar e fugir. Já Peneropé, diziam, tirava um relógio ou uma carteira sem tocar na vítima.

Traíra – nem precisa explicar o apelido – era temido até pelos colegas. Havia fins de semanas que os chefes de família (eram os pais que faziam a feira, não as mães) não iam às feiras livres por causa do aviso que Traíra estava solto.

O que mais metia medo na minha turma era Ruela, cujo superpoder era fumar maconha e soprar o vapor sativo por baixo das portas ou pelos orifícios das fechaduras. As famílias dormiam chapadas e ele adentrava tranquilo nos lares.

Naquele tempo, pessoas de bem temiam aparecer na imprensa por algum deslize, diferente de hoje onde figurões em delito mantêm a postura pseudo séria publicando seus sorrisos cínicos nas páginas políticas e sociais.

O temor de queimar o filme era representado na letra do jingle do programa Patrulha da Cidade, forrozinho do grande Zito Borborema: “Escute doutor / estou inocente / falando a verdade / com sincerida / preto não mente”.

E seguia na segunda estrofe: “Sou escurinho doutor / mas frequento a sociedade / não quero que os amigos / ouçam meu nome na Patrulha da Cidade”. Nos dias atuais, há muito espertinho querendo ver seu nome nas nominatas partidárias.

Escuridão 
O descaso com os pagadores de impostos da Rua Caramuru, em Candelária, completou um mês. Os vídeos noturnos circulando nas redes mostram a escuridão total. A Cosern informou que o problema não é seu; é da Semsur.

Esquerdidão 
A militância lacradora transformou a decana jornalista Miriam Leitão em nova bandeira de luta. É a busca desesperada por narrativas que atraiam votos. Sinceramente, acho melhor retomar as estampas da Anitta e da Karol Conká.

Centro 
Na eleição direta para presidente, em 1989, o eleitorado furou uma luta ideológica entre Brizola e Lula, e elegeu Fernando Collor, que foi governar com o “centrão”, um modelo que foi seguido por Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer.

Centro II 
É risível que esquerda e imprensa critiquem o “centrão”, quando qualquer partido só governa se for com ele. Assim como a opinião pública é um fenômeno de classe média, a sociedade brasileira é politicamente de centro.

Exorcista
A atriz espanhola Valeria Schoneveld não só viu o artigo da coluna de ontem sugerindo sua presença na nova trilogia de O Exorcista, como entrou no meu Instagram e postou figurinhas de espanto, de gargalhada e de satisfação.

Exorcista II 
Aos leitores Evaldo Gomes e Paulão Historiador, que assistiram as duas edições do clássico filme de 1973 e 1977: a coluna Roda Viva de Cassiano Arruda publicou em 1974 o êxodo de potiguares para ver o filme na Paraíba.

Estreito 
O escritor François Silvestre encontrou na internet um anúncio com oferta de emprego em Ribeirão Preto, de uma loja de ferragens fornecedora da empresa Usina do Estreito: - “Precisamos de motorista para levar ferro no Estreito”.

Quarta gorda 
Chelsea x Real Madrid, Villarreal x Bayern, Tachira x Palmeiras, Independiente x Emelec, Bragantino x Nacional, América MG x Del Valle, Tolima x Atlético MG, Alianza x River, 9 Octubre x Internacional, Fluminense x Oriente Petrolero.

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