Os diários de Celso Furtado

Publicação: 2020-01-25 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ivan Maciel de Andrade
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Celso Furtado é conhecido em nossa região principalmente pelo fato de ter sido fundador e Superintendente da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), criada em 1959 durante o governo de Juscelino Kubitschek. A Sudene, devo lembrar, representou uma intervenção estatal na economia nordestina, tendo como objetivo “promover e coordenar o desenvolvimento includente e sustentável da região”. Celso Furtado permaneceu nesse cargo até a deflagração do golpe de Estado que implantou a ditadura de 1964 (o Ato Institucional nº 1 cassou os seus direitos políticos por dez anos). Começou a partir daí o seu exílio, durante o qual foi professor de renomadas universidades nos EUA, na Inglaterra e na França. Somente voltou ao Brasil, para permanecer, com o advento da Lei de Anistia de 1979. Em 1986, foi nomeado ministro da Cultura do governo Sarney. A ele se deve “a primeira lei de incentivos fiscais à cultura”. Mas, em 1988, pediu exoneração do cargo de ministro e retornou às atividades acadêmicas, que constituíram a sua principal atividade intelectual ao longo da vida. Foi no exercício do magistério que se tornou um dos maiores intérpretes do Brasil.

Sua obra mais importante – “Formação econômica do Brasil” – foi escrita em 1958, enquanto Celso Furtado fazia o pós-doutoramento na Universidade de Cambridge (na Inglaterra). Uma obra fundamental para a compreensão histórica, econômica, sociológica e política de nosso país. Através de sua contribuição é possível chegar à origem dos fatores que entravam o nosso desenvolvimento.

Celso Furtado não foi apenas um grande, extraordinário economista. Foi também, e sobretudo, um pensador de elevada qualificação humanística, com reconhecimento e consagração nos maiores centros universitários e culturais dos Estados Unidos e da Europa. Além disso, o talento de escritor – na tradição do requintado despojamento estilístico de Graciliano Ramos – está presente em sua obra autobiográfica que compreende “A fantasia organizada”, “A fantasia desfeita” e “Os ares do mundo”.

Estamos agora diante do livro “Diários intermitentes” – publicado em outubro de 2019 – com organização, apresentação e notas da jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar (viúva de Celso Furtado). Os “Diários intermitentes”, segundo explica a organizadora, “estendem-se por 65 anos. Ele começou o primeiro aos dezessete; ao 82, tomou as últimas notas aqui publicadas”. De 1937 a 2002. É de justiça destacar tanto o valor historiográfico como literário desses “Diários”, que talvez retratem melhor, com mais fidelidade e maior relevo, o homem Celso Furtado do que sua obra autobiográfica.  

Em nota de 1.9.1964, em New Haven, afirma que sua vida foi “marcada” pela “preocupação com os problemas do homem ‘em geral’”. Diz que era como se ele se “sentisse responsável pela pobreza, pelos sofrimentos decorrentes dessa pobreza, pela condição de animalidade em que vive grande parte da humanidade”. Ainda jovem, conscientizou-se “de que a pobreza não era ‘natural’ e de que havia pessoas que lutavam contra ela, e que essa luta encontrava grandes resistências”. São preocupações atualíssimas, que demonstram o caráter atemporal e universal das ideias e ações de Celso Furtado.





Deixe seu comentário!

Comentários