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Cena Urbana - Vicente Serejo
Os dias passam...
Publicado: 00:00:00 - 26/06/2022 Atualizado: 12:45:47 - 25/06/2022
Adaptemos, nem que seja por uma vez, o verso de Nei Leandro de Castro e, como numa paráfrase, façamos de conta que uma dor não se abre fácil como um guarda-chuva. Mesmo que pareça desaparecer, dissolvida pelo silêncio que imita o perdão, ou como se fosse desculpa, a dor sempre resiste. Principalmente se vem nascida do injusto, daquilo que fere, ainda que seja apenas, e só, e somente, um puro querer bem de amigo, como nas velhas canções trovadorescas. 

Nada é apenas uma simples questão de desculpa ou de perdão. Ou, de fazer a conta do dito ou do não dito, se tudo foi feito. Ou não. Gestos passados não apagam carinhos. É não merecer o imerecido, se não é pleonasmo. Se o merecido é apenas, noutro verso, agora do poeta Manuel Bandeira - a vida que poderia ter sido e que não foi. O inesperado nunca amarga, desde que não seja injusto, para não cair nas mãos encardidas de ingratidão, velha madrasta da alma.  

Há os fortes. Mais: os muito fortes. Os que suportam a bofetada no rosto como se fizesse parte do teatro que a vida encena de vez em quando. Mas, nunca se sabe se os fracos são apenas fracos. Ou se do outro lado o que parece fraqueza não é o raro tecido do bem-querer que nada exige, apenas bem-querer. É prosaico, mas verdadeiro: como é difícil gostar do joio diante do brilho fascinante do trigo dourado, quando adeja sob o sol vantajoso das conveniências sociais. 

Os analistas da ciência da comunicação chegam a admitir que a vida faz parte de uma economia invisível, um mercado de trocas simbólicas. Ainda que não as tenhamos nas mãos ou no alforje, há moedas nas relações de vida. É preciso ter alguma coisa a oferecer, sob pena de não se participar do escambo. E é sempre terrível imaginar que até nas afeições a vida também acaba sendo mesmo uma troca de algum jeito vantajosa, sob pena de nada ser ou ser como antes.

Depois, e é triste pensar assim, mas inevitável: ninguém está livre de cair de moda, de um tropeço na pedra do desuso. O querer bem é algo nobre e deveria ser eterno e eternamente desejado. Na verdade, é falsa aquela velha cisma de que as águas passadas não movem moinhos. Há sempre novas águas e novos moinhos ao longo do rio e movê-los, às vezes, faz bem ao coração humano. Não é à toa que o desprezo é um dragão, filho do alívio, como se fosse prêmio. 

Ninguém está só quando escreve. Há olhos e ouvidos espreitando as palavras. É através dos olhos e ouvidos que o ser humano melhor sabe expressar o abandono. O mundo é muito grande, mas, ao mesmo tempo, é muito pequeno. Tão grande, que nele vivem todas as coisas comuns. Tão pequeno, que só as coisas grandes têm lugar. E tudo acaba na bela lição poética de Mallarmé que serve a todos: no balanço da noite, passam as horas, os dias passam e eu fico... 

Palco
AVISO - As mitras eméritas jamais confessarão: Dom Edilson Nobre é norte-rio-grandense, tem méritos e o apoio de Dom Jaime Vieira, mas não é o preferido da Arquidiocese de Natal. 

ALIÁS - O silêncio é obsequioso como castigo ou luminoso como o prestígio. É do velho estilo da vida eclesial. Um artifício que a Santa Madre Igreja sabe manejar como se fosse um florete. 

OFÍCIO - Deve ser lançada ainda este ano no Brasil a tradução de ‘A Morte é o meu Ofício’, de Robert Merle. Livro que teve o Prêmio Goncourt. Inspirado no nazista alemão Rudolf Hess. 

MONSTRO - Considerado um dos monstros do nazismo, o livro é baseado nas anotações do psicólogo que atendeu a Rudolf Hess na prisão. A sua edição, originalmente, tem setenta anos.
OUVIDO - Uma fonte política está convencida de que pode ocorrer um solavanco jurídico antes do início da campanha. Está com o ouvido no chão já há alguns dias. Ouvindo vibrações.  

TIRO - O ex-prefeito Carlos Eduardo vai ter que explicar como alguém que se diz bom gestor deixa R$ 300 milhões de dívida junto à Previdência, prejudicial à aposentadoria dos servidores. 

POESIA - Da poetisa Regina Azevedo, 22 anos, vários livros lançados, esses versos do seu livro ‘Por isso eu amo em azul profundo’: “Às vezes / o amor não passa / de uma dor que fica”.

DEDOS - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, irônico, gozando o país inculto que é o Brasil a escrever sem parar depois do Whatsap: “Hoje quem tem dedo diz o que quer”. 

Camarim

BALANÇO - A governadora Fatima Bezerra conseguiu atrair Carlos Eduardo para senador; Walter Alves para vice-governador e Garibaldi Filho a deputado federal. Evitou a candidatura de Ezequiel Ferreira a governador e tem Rafael Motta na disputa pelo Senado contra Bolsonaro. 

MAIS - Nas últimas semanas, a governadora está nos horários de maior audiência da tevê com uma mídia intensa com as realizações do seu governo. Tudo sem enfrentar um jornalismo crítico nas mídias tradicionais - rádio, jornal e tevê - e no conjunto maior das chamadas mídias virtuais. 

MAS - Mesmo assim, até agora, véspera do início de julho, em todas as pesquisas, confiáveis ou não, oscila na faixa entre 30 e 35% das opções de voto, rejeição elevada e com mais de 50% dos que declaram-se decididos a um terceiro nome. Resta saber se o PT tem consciência.     

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