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Os maniqueus de hoje
Publicado: 00:00:00 - 23/11/2021 Atualizado: 23:36:52 - 23/11/2021
João Medeiros Filho
Padre 

“Não há nada de novo, debaixo do sol”, assevera-nos o Livro do Eclesiastes (Ecl 1,10). Esta frase veterotestamentária lembra o atual quadro brasileiro, marcado por dualismo e intransigências. Estes comportamentos datam desde a antiguidade, ressurgindo sob novas formas em diferentes países e épocas. No Brasil, as eleições terminam, porém os confrontos continuam na mídia tradicional e nas redes sociais. As concepções ideológicas e políticas dividem visceralmente os nossos compatriotas. Segundo o olhar e o pensar dos seguidores de cada partido: de um lado, estão os bons; e de outro, os maus. Essa radicalização não é nova. São como ondas que vão e voltam. Na metade do século III, surgiu na antiga Pérsia o maniqueísmo, teoria defendida por Mani (Manes ou Maniqueu), disseminada no Império Romano. Defendia a dualidade entre dois princípios antagônicos: o Bem e o Mal. Segundo tal pensamento, há uma oposição permanente entre a luz e as trevas. Esses princípios contrários não se unem. A história demonstra que tais ideias tiveram profunda influência quando surgiram, a ponto de Santo Agostinho tê-las abraçado, antes de sua conversão. Após sua adesão ao cristianismo, o bispo de Hipona tornou-se um ferrenho combatente dessa visão de mundo, argumentando que Cristo, ao contrário, pregava a unidade, respeitando a diversidade. “Que todos sejam um, como Eu e Tu!” (Jo 17, 21).

No século XI, os postulados maniqueístas voltaram a ter evidência na França. Revestiram-se das concepções religiosas nas seitas dos cátaros ou albigenses. Periodicamente, o maniqueísmo ressurge aqui e ali, não tanto como doutrina, mas como postura de vida e teoria política. Divide a humanidade em dois grupos que, à semelhança do óleo e da água, se encontram, porém não se misturam. Pregam que o outro deve ser considerado como um perigoso inimigo, pleno de defeitos, portanto, a ser exterminado, a qualquer custo. “O outro é o inferno”, afirmou Sartre. Para partidários de cada corrente, seu raciocínio é o único certo, sábio e verdadeiro, mesmo que muitas vezes se contradiga. A sociedade fica, então, dividida. Quanto mais o adversário fracassar, melhor, pois o “bem” triunfará. É o que está acontecendo atualmente no Brasil, eivado de intolerância e radicalismo, onde pensar e falar diferente é inaceitável e, por vezes, passa a ser criminalizado.

Temos dificuldades em conviver com quem pensa diferentemente. De modo inconsciente ou não, sonhamos com uma sociedade em que todos tenham a mesma religião, idêntico partido político e modo de pensar. Os sistemas totalitários, de direita ou de esquerda, alimentam-se dessa utopia e constroem projetos para torná-la realidade. Conviver harmoniosamente é difícil. Entretanto, “Homem algum é uma ilha”, escrevera Thomas Merton, intitulando um de seus livros. Se vivêssemos totalmente isolados, tendo tudo o que é necessário à nossa disposição, seríamos terrivelmente egoístas e pobres. O divergente e o contraditório nos enriquecem, levando-nos a um melhor autoconhecimento e crítica. 

Todavia, os maniqueus não admitem seus erros. Consideram-se infalíveis e irretocáveis, por isso incapazes de dialogar, tornando-se impositivos. A convivência requer respeito, escuta do próximo para o amadurecimento, a partir das maneiras distintas de ver o mundo e a vida. Cristo agiu dessa forma, interagindo com todos, sabendo conviver com os oponentes. Transigia e mostrava-se aberto ao diálogo, indo na contramão da mentalidade reinante de seu povo. “Como é que tu, sendo judeu, pedes água a uma mulher samaritana?” (Jo 4, 9). Esta frase revela o radicalismo dos contemporâneos de Jesus. Já imaginaram quão monótono, deprimente e triste seria um mundo feito apenas de robôs? Os dias atuais mostram-nos que o maniqueísmo continua vivo e atuante. E, como todo “ismo”, é ideológico e empobrecedor. Segundo a teologia católica e os clássicos parâmetros epistemológicos, Deus é trino, diverso e plural. Somos os seus filhos e não devemos ser e agir de outra maneira. A primeira Carta do Apóstolo Paulo aos coríntios é o hino da diversidade em função da harmonia e do bem comum. O Criador não quis a uniformidade, mas “a unidade na diversidade”. É o que se infere da metáfora bíblica: “Na verdade, há muitos membros, mas um só corpo” (1Cor 12, 20).

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