Os mistérios da saudade

Publicação: 2017-11-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

A perda de uma pessoa querida, o distanciamento da pátria, um misto de emoções que passa pela melancolia e nostalgia, tudo sintetizado numa única palavra: saudade. O termo, sem equivalente em outros idiomas, é esmiuçado de forma poética e afetiva no mais recente filme do cineasta paraibano Paulo Caldas. “Saudade” foi lançado no mês passado dentro da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quando arrancou lágrimas do público. O documentário agora aporta em seu segundo festival justamente na capital potiguar, com exibição com exclusividade dentro da programação do Cine Sol – evento gratuito que acontece no bairro da Ribeira até o sábado (11). O filme será exibido no dia 11, às 14h. Na sequência o Paulo Caldas conversará com o público.

O diretor e roteirista Paulo Caldas, estreia um novo longa-metragem no Festival Cine Sol (sábado)
O diretor e roteirista Paulo Caldas, estreia um novo longa-metragem no Festival Cine Sol (sábado)

Diretor e roteirista, Paulo Caldas é conhecido por longas como “Baile Perfumado” (1996), ao lado de Lírio Ferreira – a produção foi um dos primeiros sucessos da “Retomada do Cinema Brasileiro”. Em “Saudade”, o cineasta busca entender o significado da palavra e sentimento único da língua portuguesa a partir de depoimentos de artistas e pensadores lusófonos contemporâneos. O documentário levou três anos para ser realizado e foi filmado no Brasil, Alemanha, Portugal e Angola.

Caldas chegou a entrevistar cerca de 100 pessoas para o filme, totalizando 300 horas de material. Participam do longa o historiador Durval Muniz, o ator luso-africano Miguel Hurst, os escritores Bráulio Tavares, Milton Hatoum e Adriana Falcão, a fotógrafa Adelaide Ivánova, o cineasta Ruy Guerra, o dramaturgo Zé Celso, o poeta Arnaldo Antunes, dentre muitos outros. O resultado final ficou na casa dos 70 minutos. Mas o tema ganhará um desdobramento no próximo ano, quando estreia a série homônima. A produção terá oito episódios de 50 minutos e será exibida no canal Arte 1, que assina como co-produtora.

Em Natal para a exibição do filme e participação na Mesa Redonda “O Nordeste na Cena Contemporânea”, às 16h10, do sábado, ao lado de César Ferrário (RN), Zezita Matos (PB), Luiz Carlos Vasconcelos (PB) e Durval Muniz (UFRN), Paulo Caldas conversou com o VIVER sobre seu filme, o cinema nordestino e brasileiro.

Alex Flemming, personagem presente do longa Saudade
Alex Flemming, personagem presente do longa Saudade

Paulo, como surgiu a ideia de realizar um filme sobre esse sentimento tão complexo e difícil de descrever que é a saudade?
Primeiro gostaria de dizer que nos meus trabalhos não faço distinção entre documentário e ficção. Pra mim é tudo cinema. Com “Saudade” eu queria fazer algo meu, autoral. Cheguei a esse tema depois de perder dois grandes parceiros, o Paulo Jacinto e o Germaninho Coelho, e um sentimento de ausência me despertou para uma reflexão sobre a saudade.

Por que focar só em artistas?
Começamos as entrevistas com quem era próximo da gente, amigos, pessoas que poderiam dialogar de uma forma profunda. Por ser envolvido com o cinema, foi natural iniciarmos as entrevistas com gente da cultura. Apesar de partirmos de um roteiro, o processo de filmar foi de grandes descobertas. Nas entrevistas vimos que a saudade é um sentimento muito pessoal e que é aplicado na criação artística. Decidimos então abordar essa relação do sentimento com a produção de cada entrevistado.

Que outras descobertas você teve ao longo do processo?
Foi um filme que me ensinou muito. A saudade é um tema com milhões de possibilidades. Não é previsível. Fui surpreendido o tempo inteiro. O tema é uma questão filosófica e pessoal. Não tem como não se emocionar. Cada um tem a sua saudade. Talvez por isso seja um sentimento tão intraduzível. Muitos dos entrevistados, quando falam de saudade acabam falando de si mesmos.

Você viajou para quatro países. O que encontrou com relação a saudade em cada um desses lugares?
Cada lugar tem uma peculiaridade em se tratando da saudade. O português tem uma saudade trágica. Dá para notar isso pelo fado. Ao falar com angolanos vimos uma saudade muito sofrida. Ainda dentre os africanos, conversamos com gente de Cabo Verde e observamos uma saudade dramática. Talvez por se tratar de um país que é uma ilha isolada. Já a saudade do brasileiro é bem humorada. É uma saudade pra cima. Menos depressiva.

E qual é a sua saudade?
Ao longo do processo foi inevitável me impregnar da saudade dos outros. Mas acredito que hoje o que mais tenho saudade é do Brasil. Sinto que estamos perdendo nosso país.

O momento político que estamos vivendo de alguma forma afeta sua criação artística?
A situação problemática do país me toca muito e vai para os meus filmes. Mas em “Saudade” o conteúdo político surge mais nas falas dos entrevistados do que num direcionamento do roteiro. Meu próximo projeto de filme e série vai ser sobre a liberdade. Desta vez terá uma abrangência global. Também entrevistarei artistas, mas o foco será mais nos lugares em que a liberdade está ameaçada. E o Brasil é um desses lugares.

Estamos vendo uma série de ataques a exposições. Teme que a intolerância nas artes chegue ao cinema?
Com certeza. Isso que a gente está vendo é coisa da idade média. Nunca imaginei ver isso acontecer no Brasil. Essa intolerância foi semeada, está brotando e pode se frutificar e atingir o cinema. Mas o maior prejudicado será o público, que ficará impedido de ter acesso a cultura. Esse movimento é muito perigoso, é uma absurdo, é o fim do mundo. Acredito que os artistas precisam se posicionar. E o público também.

No Cine Sol você vai participar da mesa “O Nordeste na Cena Contemporânea”. Como você vê a produção audiovisual na região?
Enquanto nordestinos estamos vivendo uma coisa estranha. Alguns estados estão produzindo muito, outros, menos. É importante diminuir essa desigualdade. Estamos todos na mesma situação política e econômica. As condições de produção deveriam ser basicamente as mesmas para todos do Nordeste.

E sobre como a imagem do Nordeste no cinema, mudou muito desde a “retomada”?
Mudou a narrativa quando profissionais do Nordeste passaram a produzir e a ocupar cargos em produções na TV. Nós somos as melhores pessoas para nos entender e nos filmar. Ainda muito do que é feito na região não é compreendido em outros estados, mas quanto mais produzirmos mais o nosso olhar será compreendido. Mas essa é uma questão que extrapola as regiões do país. Por exemplo, a crítica estrangeira comenta dos filmes brasileiros que eles são pouco universais e bastante focados em temas locais. Esse seria um dos motivos para que o público de fora não se envolva tanto emocionalmente com as produções nacionais.

Curioso isso que você mencionou dos filmes brasileiros não serem universais. Essa questão chega a ser uma preocupação dos cineastas?
 Em Pernambuco a gente já vê um interesse das novas gerações em tratar de temas universais. O Kleber Mendonça Filho, por exemplo, tem em seus filmes uma representação universal. “Aquários”, que fez muito sucesso fora, transcende o Nordeste. Mas essa compreensão do outro é algo complicado de saber. Meu filme “Baile Perfumado” foi super bem recebido no Brasil, no entanto seu alcance internacional foi bem menor que o “Deserto Feliz”, que recentemente teve sua licença de exibição renovada por uma TV Alemã. No geral, os filmes brasileiros são muito mais difíceis de classificar. Há uma quebra de gêneros por aqui. Nos últimos anos é que se percebe uma mudança, com produções enquadradas em formatos tradicionais de comédia e terror.


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