Os Motas do Oeste

Publicação: 2019-07-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Tomislav R. Femenick
Mestre em economia, com extensão em sociologia – Do Instituto Histórico e Geográfico do RN

Entre a descoberta do Brasil pelos portugueses e a efetiva colonização da nova terra, decorreram vários anos sem que nada acontecesse de concreto. Mesmo depois de 1534, quando a Coroa Portuguesa instituiu o regime de capitanias, dividindo o novo território entre quatorze capitanias hereditárias, nada de expressivo aconteceu, vez que somente as capitanias de Pernambuco e São Vicente tiveram êxito.

A exploração da Capitania do Rio Grande fracassou antes de começar. Um dos donatários, Aires da Cunha, veio a falecer, o que teria levado o intento a colapso (VARNHAGEN, 1978). A colonização efetiva, porém, não oficial, se deu por portugueses e indivíduos de outras nacionalidades, extraviados ou desencaminhados das expedições que vieram ao Nordeste e à Capitania. Eram degredados, desgarrados ou aventureiros que se embrenharam pelas ribeiras dos rios, vivendo além da jurisdição das autoridades coloniais; portanto, sem registros públicos.

Nesse cenário não é tarefa fácil encontrar esse ou aquele indivíduo, pertencente à essa ou àquela família. No entanto, nos alfarrábios coloniais encontramos algumas anotações que, se seguidas, evidenciam alguns rastros de pessoas e famílias.

A primeira referência direta que se tem sobre um membro da família Mota no Rio Grande do Norte, data de 1611, quando foi concedido a Jorge Pacheco da Mota o direito de explorar uma “data de terra”. Posteriormente, no dia 19 de novembro de 1748, o capitão Carlos da Mota recebeu uma Carta de Data e Sesmaria, com “terras no lugar chamado dos Cavalos e no sítio Oiti, Ribeira do Assu”. Em 2 de novembro de 1754, o mesmo capitão Carlos da Mota e o alferes Pedro de Souza receberam Carta de Data e Sesmaria, dando-lhes o direito de explorar “terras na serra que chamam Pericu, Ribeira do Assu”. Em 1778, uma Carta de Data e Sesmaria outorga a seus requerentes “terras na fazenda São João, pegando nas ilhargas da data do Riacho dos Cajueiros, buscando o Sítio Santa Rosa, de Antonio da Mota Ribeiro, Ribeira do Apody” (PINTO, vol. 1, 3 e 4).

Nos registros históricos de Mossoró, até a primeira metade do século XIX, há poucas referências à presença de integrantes da família Mota. Um dos documentos a nominar componentes dessa família apareceu quando do movimento, empreendido por alguns moradores do arraial de Santa Luzia em 1838, objetivando elevá-lo a condição de Paróquia. Uma petição foi endereçada ao bispo da Diocese e uma outra à Assembleia Provincial do Rio Grande do Norte, apresentada em nome dos moradores da freguesia. Entretanto os residentes da povoação de São Sebastião (atual Município de Governador Dix-sept Rosado) se rebelaram contra essa intenção, endereçando também abaixo-assinado à Assembleia, alegando que já eram assistidos por um pároco da vila de Apodi, “pago a sua custa” e que não viam nenhuma vantagem em se deslocar para Santa Luzia “em tempo de eleições”. Entre os signatários deste último documento estavam Antonio Gomes da Mota, da Fazenda do Carmo, e Matheus Gomes da Mota, do lugar Estrada, cuja assinatura foi acompanhada pelo seguinte esclarecimento: “sua mulher Anna Vital, hum filho, mais huma mulher tão bem de comunhão e hum escravo”.

Em um outro abaixo-assinado dirigido à Assembleia Provincial, esse datado de oito de janeiro de 1852, solicitando “a criação de uma nova Vila, e Município com Tribunal de Jurados na mencionada Povoação de Santa Luzia de Mossoró”, aparecem assinaturas de membros da família Mota. Entre as trezentas e cinquenta pessoas que assinaram o documento estão Manoel Gomes da Mota e o mesmo Antonio Gomes da Mota. O primeiro se classificou como criador e o outro como proprietário. Foi esse documento que provocou a emancipação política do povoado, dando-lhe o status de Município. Na década de setenta desse mesmo século, Antonio Gomes da Mota aparece como o maior proprietário de escravos do Município.

Entre 1890 e 1900, alguns estabelecimentos comerciais da cidade de Mossoró pertenciam ou tinham sócios que eram da família Mota: Mota & Cavalcanti, Benício & Mota; Vicente da Mota & Cia. e Manoel Lucas da Mota. Em 1898 Francisco Pereira da Mota era o Oficial do Registro Civil do Primeiro Distrito, da Sétima Circunscrição de Mossoró. Já havia muitos Motas na cidade (CASCUDO, 1955; ROSADO & ROSADO, 1977).

Algumas pessoas ainda fazem questão de distinguir Mota e Motta, como se dois troncos familiares fossem. Na verdade, há um só. A diferença gráfica tem origem na liberalidade com agiam antigamente os registros de batismos nas igrejas e os cartórios de registro civil e nas quase vinte reformas ortográficas acontecidas entre 1907 e 2004. 



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