Os olhos da urbe

Publicação: 2016-02-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

Quem circula por Natal, mesmo que não seja a pessoa mais atenta do mundo, certamente conhece os trabalhos do grafiteiro Kéfren de Lima Silva. Eles estão espalhados por todos os cantos: muros, postes, caixas telefônicas e de energia – e se você ainda não viu, não se preocupe, é garantido já ter sido visto! Kéfren, 26, é autor dos olhos que começaram a colorir as esquinas da cidade há cerca de três anos, e fica mais fácil identificar o artista pela assinatura Pok. Graduado em Design Gráfico por opção, auxiliar administrativo em um frigorífico por necessidade e grafiteiro por vocação, Pok realiza sua primeira exposição individual no Between - Food & Gallery, em Petrópolis, a partir deste sábado (20).
Yuno SilvaPok utiliza os olhos como metáfora para impor sua mensagem a cidade. Eles podem ser vistos as dezenas em muros, postes, caixas telefônicas e de energiaPok utiliza os olhos como metáfora para impor sua mensagem a cidade. Eles podem ser vistos as dezenas em muros, postes, caixas telefônicas e de energia

Hoje, durante o vernissage de “Urbanolhar” que começa às 19h, discotecagem marota sob comando do DJ Samir. A visitação segue até o próximo dia 19 de março, e todas as 20 obras (entre elas uma de grande porte) estão à venda. Pok utilizou como suporte o compensado de madeira, recortado de acordo com os contornos da pintura feita com spray e pincel – algumas telas receberam apliques que conferem tridimensionalidade.

“O grafite realmente surgiu como forma de mostrar toda força e resistência da arte em espaços públicos, e percebo essa ocupação de galerias de arte e museus como novos canais para disseminar os trabalhos. Não acredito que percam potência, é diferente e acrescenta muito ao artista”, avalia o grafiteiro quando questionado sobre essa mudança de ambiente. Pok está há um ano “focado” na produção dessas telas, criadas de 2015 para cá.

Ele considera “Urbanolhar” sua primeira exposição individual oficial, com tudo o que tem direito, mas Kéfren já ocupou o foyer do Teatro Riachuelo em 2013 como parte da programação do Prêmio Hangar de Música; também expôs no Bardallo's Comida e Arte, na Cidade Alta – além de ter participado das três edições já realizada da coletiva Graffiti Expo Natal.

Pok, assim como a maioria dos desenhistas e pintores, fez seus primeiros rabiscos ainda na infância. Nas ruas, começou a grafitar de 2010 para 2011 quando entrou na universidade e conheceu outros militantes da arte urbana. Os olhos coloridos se tornaram sua marca registrada, e “simbolizam a vida”.

“Quando faço meus trabalhos penso em alcançar o olhar das pessoas, ao mesmo tempo que, de certa forma, 'observo' o movimento da rua através deles. Devemos expressar nossas idéias a partir de como percebemos a realidade, a arte de rua fala um pouco sobre a vida em sociedade, a necessidade de ocupar espaços públicos com cor e arte”. Para Pok, o grafite tem capacidade de funcionar como um catalizador de transformações socioculturais e resignificar a estética da cidade.

“Atualmente a arte urbana tem sido vista de maneira mais simpática pela população, as pessoas estão mais abertas e curiosas. O que falta é interesse e sensibilidade dos governos em apoiar o grafite com editais específicos”, reclama.

Serviço comunitário
Apesar de estar próximo e fazer parte do mesmo universo, o grafite enquanto ideia e proposta estética é bem diferente da pichação, mas as duas formas de expressão ainda são consideradas contravenção no Brasil. Pok disse que faz trabalhos sob encomenda, em fachadas de estabelecimentos comerciais e mesmo em residências, mas quando está na rua o melhor é trabalhar de forma discreta.

“Há pouco mais de um ano fui pego pela polícia, estava pintando uma dessas caixas que controlam o sinal de trânsito ali na Av. Deodoro. Passei duas horas em uma cela com bandidos de verdade e fui condenado a prestar 30 horas de serviços comunitários. O mais irônico é que um dia antes de ser preso havia sido abordado por outros policiais, que gostaram do trabalho e permitiram que eu terminasse. Complicado, cada um sente de uma maneira”, desabafa.

A proposta de pintar 'olhos' foi justamente para agilizar o processo: “Tinha que pensar em algo que fosse rápido de fazer e acabou virando marca registrada. Para mim, os olhos simbolizam a vida”, explicou.

Já a escolha de colorir caixas telefônica, de energia e de controle de sinais de trânsito veio quando o potiguar participou de um evento no Rio de Janeiro. “Percebi que só assim elas eram notadas, antes disso não tinha nem visto aqui em Natal”.

Nascido em Macaíba, Kéfren contabiliza trabalhos em projetos da Casa da Ribeira, do Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, Terminal Marítimo de Passageiros de Natal, Construtora Cyrela Plano e Plano, Construtora Constel, Festival MADA, Circuito Cultural Ribeira, On Area Natal Street Art (que resultou no painel coletivo da Av. Do Contorno) e o espetáculo de teatro “A Estrada ou O Milagre da Fé”.

Ministrou oficinas e já mostrou sua arte em eventos realizados no Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco e Ceará. Participou de um documentário inglês sobre o grafite brasileiro e assina a capa do EP da banda de rock Talude (RN).

Serviço
Abertura da exposição “Urbanolhar”, de Kéfren Pok, sábado (20), a partir das 19h, no Between - Food & Gallery (Av. Campos Sales, 384, Petrópolis). Visitação até dia 19 de março.

Projeto de Lei propõe Dia do Grafite
A arte urbana ganha mais força e relevância a cada dia, e em Natal um projeto de lei apresentado pela vereadora Amanda Gurgel (PSTU) propõe a instituição do Dia do Grafite. A data escolhida foi 27 de março, dia da morte de Alex Vallauri, um dos pioneiros do grafite no Brasil, morto em 1987; e do grafiteiro potiguar Ivan Cláudio Bezerra de Melo, o Cavan, falecido em 2010.

“O grafite é a expressão de uma época, as marcas deixadas indicam determinado contexto sociocultural (…) e com a democratização adquiriu novos contornos. Este projeto de lei visa valorizar os profissionais e evidenciar que o Município entende o grafite como alegrias aos olhos, contribuindo para que nosso cotidiano fique mais bonito, colorido e humano”, diz o texto que justifica a criação da lei.

Coletiva de arte urbana estreia dia 27

O produtor Marcelo Veni, que ajudou a articular o projeto de lei (ainda em consulta pública), está à frente da organização da quarta edição da exposição coletiva Graffiti Expo Natal, com abertura marcada para o dia 27 de março na galeria de arte da Fundação Capitania das Artes. Artistas interessados em participar podem se inscrever através do e-mail ricardonelsonprodutor@gmail.com. Basta enviar mensagem com dados pessoais, currículo, fotos e a proposta do que pretende expor. Podem participar artistas que utilizam sprays, estêncil, areografia entre outras técnicas.




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