Os sapatos

Publicação: 2021-01-13 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Por mais que cheguem aos nossos olhos e ouvidos as tristes notícias dos jornais quando morrem, nem assim, vou acreditar que um dia todos eles morrerão. Não creio na vida sem as suas páginas grandes e soltas. Muito menos, posso acreditar que o mundo um dia passará pelo cataclismo avassalador de sua própria desmaterialização para ser totalmente virtual. Acredito no jornalismo como combustão essencial e indispensável à evolução do processo civilizatório.    

O mundo moderno, a cada avanço tecnológico, anuncia a morte da tradição. Um ‘já era’, forte ameaça desabar como barreira, mas enfrenta a lição de Câmara Cascudo na advertência que fez há quase setenta anos, ao escrever no seu ‘Dicionário do Folclore Brasileiro’, em tom de advertência e aviso: um dia teremos o folclore do avião a jato e do transatlântico, então dois ícones da modernidade. E registrou quando viu Armstrong usar o pé direito para pisar na lua.   

Não leio tantos blogs, Senhor Redator. Alguns, de longe; uns poucos, de perto. A minha navegação zingra pequenos mares, uns bravios e instigantes, outros, principalmente os locais, de uma calmaria de expressão que até adormece as velas em pleno mar, quando não caem na modorra. É que nós, os velhos jornalistas, somos leitores profissionais. Na feitura do ofício de ser jornalista a leitura vem antes da escrita, daí ser o lastro que treina os olhos para a percepção.

Ninguém pode desconhecer o conforto de estatísticas exuberantes, o prazer da opulência dos números. Milhares leram, muitíssimos acessaram, vários comentaram, é como se anunciam. Blogs informam, mas há, e sempre, a banhá-los, as águas cúmplices pela turbidez dos interesses.  Daí o silêncio também promíscuo. Ou, tanto pior, notícias das coisas sem defeitos, como se as formas de poder concebidas pelo pobre homem não tivessem algo de miseravelmente humano.

Com o tempo, os olhos e ouvidos ganham filtros e aprendem a selecionar o que salta do mundo e cai dentro deles. E vai ficando menos difícil discernir as cores e os tons, fortes e fracas, graves e agudos. O tempo ensina a perquirir e a perscrutar melhor as coisas do mundo. É como se as mãos aprendessem a sopesar, os ouvidos a perceber as harmonias e desarmonias, a fermata que separa as notas - se tudo na vida é uma ópera no pentagrama onde estão os códigos musicais. 

Vi a grandeza que singulariza o grande jornalismo quando os olhos caíram na primeira página da edição de sexta-feira, dia 5, da Folha de S. Paulo. A fotografia de dezenas de pares de sapatos de mortos pela peste. Não estavam ali as botinas velhas e rotas de Van Gogh naquele quadro famoso que retrata seu quarto. Lá, eles apenas representavam, anonimamente, duzentos mil mortos, vítimas do Coronavírus. Sem rostos. Como as metáforas silenciosas da tragédia. 

LUTA – O Sistema Tribuna de Comunicação reúne a grande força da palavra e promove sexta-feira próxima um debate sobre a segurança jurídica indispensável para a retomada da economia.

QUEM - O tema vai reunir os ministros Dias Toffoli, do Supremo; Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União, e o ministro das comunicações, Fábio Faria, representando a União federal.

MAIS - O encontro será realizado de forma virtual, com transmissão ao vivo através de todos os canais do Sistema Tribuna, convidados e numa forte parceria com a Federação do Comércio.  

POESIA - A poetisa Diva Cunha depois de mais de dez meses de confinamento rigoroso, voltou a rabiscar poemas. Quem sabe, até o fim do ano, nasce um novo livro com os poemas da solidão.

LIVRO - O médico Reginaldo Antônio lança seu livro de poemas - ‘Bom Tempo’ - em sistema de drive thru, dia 20, no Colégio Cei, da Romualdo Galvão, mas do lado da Prudente de Morais. 

GESTO - O médico e poeta, tem um objetivo: a renda do livro de sua poesia será revertida em favor da Escola Municipal Santa Luzia, da comunidade quilombola de Capoeiras, em Macaíba. 

VIGOR - Nos seus 93 anos, o médico Genibaldo Barros resolveu mostrar seu vigor de sertanejo passeando de bicicleta em Pirangi, onde veraneia. O menino da Fazenda Pau Leite não é fácil.   

TOQUE - O poeta Diógenes da Cunha Lima também desistiu de ser veranista, ele que é um dos mais antigos no ofício. Recolheu o sino tenor que chamava os amigos e o canhão de guerra. 

PIRATAS - Está nos livreiros que anunciam no Mercado Livre a maior concentração de livros piratas do mercado editorial brasileiro. A denúncia foi feita pela Folha de S. Paulo e abrange a área de livros virtuais. Com cópias reproduzidas através de PDF e sem o controle dos autores. 

RECORDE - Segundo a denúncia, o site de anúncios de livros virtuais, no caso, responde hoje por cerca de 64% do volume total que é posto à venda. Ou seja: as cópias legais oferecidas pelas livrarias e editoras respondem só por 36% do que é vendido. A pirataria dominou o mercado. 

PRÊMIO - O olho resiste, apesar dos anos. Quando escrevi a crônica de hoje, ‘Os sapatos’, ainda no domingo, não havia chegado a edição de sábado que só chegou ontem. Nela, os seus leitores, no ‘Painel do Leitor’, defendem um prêmio para essa reportagem. Jornalismo é assim: quando é bom, marca.








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