Os tiros em Acauã

Publicação: 2019-06-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

No correr da semana me desliguei da tevê e da internet e, claro, do celular (que uso muito pouco), temendo que os ‘hackers’ de Brasília chegassem à minha calçada. Imagine, eu ‘aquiado’...  A chegada dos ‘hackers’ era o que faltava acontecer no Planalto Central, nesse tumultuado palco da política brasileira.  Então, peguei o tempo que me sobrava e fui espanar os livros das estantes empenadas e tentar arrumar as gavetas e pastas com os papeis que se acumulam há décadas.  Nos intervalos, uma ligadinha no rádio de pilha para saber das promessas de chuvas.  Há uma notícia positiva dos meteorologistas dando conta de que teremos boas chuvas nesse andar de junho nas regiões Leste e Agreste, chegando com certezas aos rincões do Potengi e do Trairi, Queimadas em festa. Choveu bastante e vai continuar chovendo no litoral e no agreste nordestino.  Viva Santo Antônio, São João e São Pedro!

Foi por aí, numa dessas gavetas desarrumadas que encontrei cópia de uma carta de Oswaldo Lamartine de Faria (1919/2007), datada de julho de 1998, dirigida ao Secretário de Segurança do Rio Grande do Norte.  A carta foi escrita na Fazenda Acauã, município de Riachuelo, onde morava Oswaldo.  A insegurança naquelas redondezas (repetida ainda hoje em todo o Estado) é o mote. Passados 21 anos, a carta está atualíssima. Poderia ter sido escrita ontem e repetida hoje.

 Oswaldo Lamartine (lembrar que em novembro, 15, celebraremos o centenário de seu nascimento; todas as bandeiras hasteadas) toca, também,  noutro tema muito em voga em Brasília:  a liberação da venda de armas de fogo. Bom, agora, gostoso mesmo na carta é o jeito de escrever de Oswaldo. Beleza! Vou transcrevê-la por inteiro:

“Fazenda Acauã (Riachuelo) 28/jul/98
Sr. Secretário de Segurança,

É de meu dever formalizar o que está aqui ocorrendo de vez que não sei prever o desdobramento de tudo isso e também para que, no amanhã, não se diga ter deixado de comunicar a autoridade maior.

Tenho avançada idade (78 a.) e vivo só, na Fz. Acauã, ao pé da Serra dos Macacos (Riachuelo), pouco mais de meia légua da pista (RN-121) que liga Bento Fernandes a BR-304. Vizinhança, apenas o casal que me serve, a distância de um grito.

A despeito de uma platônica placa fincada na entrada da Fazenda com os dizeres: Fazenda Acauã – Proibir caças – Lei 5197/67, – a reserva vegetal está sendo pilhada, a fauna dizimada e até o gado bovino, baleado e levado pelos ladrões.

No final da semana (noite sem luz de 25/26), cerca de 23,30 hs., uma moto seguida de camionete diesel, com capota e luzes apagadas, esbarrou na entrada – estrada de São Bento. Os tripulantes saltaram e tentaram forçar a porteira. Advertidos pelo vigia que oculto a tudo espreitava, dispararam cerca de 4 tiros no rumo dele que revidou com 2 disparos de cartucho 12. Surpreendidos, fugiram.

Indefeso de vez que nesse Brasil dagora só aos bandidos é facilitado a posse de armas e, coerente com a tradição sertaneja, fui me valer do Vigário – Monsenhor Expedito Medeiros – a quem pedi a proteção de Deus e, em seguida, ao delegado, a quem roguei os poderes da Lei.

Se V.Sa. não me julgar exagerado, o que pretensiosamente pretendo, é preservar esse sobejo de vida que me resta e lenço desse chão onde moro – restos da herança de meu pai.

Atenciosamente
Oswaldo Lamartine de Faria”.

O Brasil que cai
Do editorial do Estadão, de sexta-feira, 14, com o título “Bolso fechado, país estagnado”:

- Ressabiado, o brasileiro evita meter a mão no bolso e o consumo em queda é mais uma confirmação da piora da economia nos primeiros meses do novo governo. Depois de uma queda no primeiro trimestre, a atividade continua emperrada e já se fala, no mercado, de rever para baixo as estimativas para o período de abril a junho. As projeções de crescimento econômico em 2019 continuam caindo e já chegam ao mísero nível de 1%.

- Em abril, o volume de venda de bens de consumo não duráveis e semiduráveis, como comida, remédios e roupas, foi 0,6% menor que em março, segundo o IBGE. Esse foi o pior resultado para um mês de abril desde 2015, quando a queda chegou a 1%. Era o começo da recessão.
Literatura A UFRN vai sediar no final de julho (dias 29, 30 e 31) o III Encontro da Afrolic (Associação Internacional de Estudos Culturais e Literários Africanos). Tema central: “Oralidade e Crioulização nas Línguas e Literatura Africana”. A poetisa portuguesa Ana Malfada Leite e a escritora angolana Paula Tavares estão entre as palestrantes.

Livro
O escritor e jurista Ivan Maciel de Andrade está pondo o ponto final em seu próximo livro que será editado pela Caravela Selo Cultural.  Reúne crônicas e artigos publicados nesta Tribuna do Norte, cada sábado há vários anos. Lançamento previsto para o final do segundo semestre, coisas de novembro.

Greve
Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros do Estado interrompem suas atividades amanhã realizando protestos em frente à Governadoria (Centro Administrativo).  Tudo por conta do atraso dos salários dos policiais e dos bombeiros.

O governo petista não está atendendo as reivindicações das corporações militares, incluindo a reposição salarial de mais de quatro anos, herança (ou legado) do governo faltoso de Robinson Faria.

Nelson Rodrigues. Notícia boa, ótima, que nos chega de Londres. Nelson Rodrigues, o grande dramaturgo e cronista maior, finalmente está sendo traduzido na língua de Shakespeare. Sete peças suas foram traduzidas e lançadas quinta-feira, 13, na embaixada brasileira em Londres, onde acontece o evento “Nelson Rodrigues Festival London”, promovido pela Fundação Cesgranrio.

As peças traduzidas são: “Vestido de Noiva”, “Perdoa-me por me traíres”, “Toda nudez será castigada”, “Os sete gatinhos”, “Valsa número 6”, “Anjo Negro” e “ “Álbum de Família”.

Os ingleses vão adorar.






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