Os verões do Vila Negra

Publicação: 2018-12-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter 

No final dos anos 80 Ponta Negra começava a despontar como a praia mais badalada de Natal. O lugar era muito diferente do que é hoje. Nada de cozinha contemporânea com sabores do mundo. Turistas, só os de outros estados do Brasil. As ruas, muitas ainda de terra batida. A orla, simplesmente de areia, com barraquinhas de comida simples. 

Oscar Raposo lembra os tempos do Vila Negra e o famoso balcão com sua caixa-registradora antiga, que depois virou decoração do restaurante Camarões
Oscar Raposo lembra os tempos do Vila Negra e o famoso balcão com sua caixa-registradora antiga, que depois virou decoração do restaurante Camarões

Foi nessa época que o jovem Oscar Raposo, um cara doido por sol e mar, crescido na agitação da Praia dos Artistas, mas recém-chegado da noite do Recife, chega em Ponta Negra com a cabeça cheia de ideias. Ele adquire  uma casa típica de veraneio numa ladeira que dá acesso a Vila de Ponta Negra e faz do espaço sua morada – e bar: o Vila Negra Bar, um point que marcou época na noite natalense.

“A casa ficava na rua Afonso Magalhães, uma ladeira que dava pra Praça do Cruzeiro, na Vila. Lembro do número até hoje: 29. Tinha uma vista linda para o mar do Morro do Careca”, conta Oscar, o Oscarzinho. Nesta entrevista ele lembra da Ponta Negra desse período específico do Vila Negra, que durou apenas três anos (87, 88 e 89), mas três anos bem loucos,  inesquecíveis para muitos que viveram aquele movimento que, além do Vila Negra, tinha o Budega da Praça, o Bar do Buraco, o mar, o morro, a música, enfim, todo tipo de onda.  

Do “Depois do Escuro” para o Vila Negra
Eu morei um tempo em Recife. Frequentei muito a noitada de lá. Gostava muito do bar Depois do Escuro, no bairro do Espinheiro. Foi minha referência para querer ter uma bar. Quando volto pra Natal, chego cheio de ideias. Fui a Ponta Negra pra comprar uma barraca daquelas da orla. Tinha uma à venda. O proprietário morava na Vila. Subi atrás dele e no caminho encontrei uma casa daquelas de veraneio, bem simples, mas que mexeu comigo. Desisti da barraca e aluguei a casa. Fiz quatro festas pra arrecadar dinheiro, juntei com a grana de um empréstimo e ajeitei o espaço para abrir no verão de 87. Era bar e era onde eu morava.

Funcionamento até o amanhecer
O Vila Negra funcionava de segunda à sábado. O domingo era meu dia de descanso. Como o local também era minha casa, eu recebia uns amigos. Mas à vezes não tinha jeito. Quando o pessoal passava pela rua pedia pra entrar. No verão apareciam mais turistas, nos outros meses, mais natalenses. Eu abria às 7 horas da noite e fechava às 10 da manhã. O bar tinha uma vista muito bonita para aquela área do Morro do Careca, o mar. Amanhecer o dia ali era lindo. Era um dos bares da moda em Natal. Fez muito sucesso.

O melhor pós-festa da cidade
No final dos anos 80 lembro que existiam dois bares badalados na Praia dos Artistas: o Chernobyl e o Café Paris. Depois da meia noite o pessoal cruzava a Via Costeira até o Vila Negra. Em Ponta Negra também tinham uns lugares legais. Existia o Budega da Praça, de Zé. Era na mesma rua do meu bar, só que de frente pra Praça do Cruzeiro. Fechava às 2 horas da manhã. Ai o pessoal descia. Mesma coisa com o Bar do Buraco, de Arlindo, um gaúcho.  Ficava perto da igreja da Vila. Funcionava até cinco horas da manhã. Quando fechava, a turma também descia.
 
Uma Amsterdã em Ponta
No bar aparecia surfista, roqueiro, os darks, a turma que vinha dos outros bares, das boates, os turistas. Vinha muito goiano, gaúcho, paulista. Quando juntava essa turma toda era uma loucura. Dava muito doidão. Mas eu sabia me relacionar com todo tipo de gente. O Vila Negra foi a minha Amsterdã.

O bar do Luiz Melodia
[O produtor cultural] Alexandre Maia era frequentador assíduo. Ele produzia muitos dos melhores shows nacionais de Natal na época. Depois dos shows, ele levava os artistas lá para o Vila Negra. Recebemos o Francis Hime, o pessoal do Titãs, Luís Melodia. Desses, o Luís Melodia foi o que mais gostava do bar. Ficou meu amigo. Ele vinha muito à Natal e toda vez ia no bar. Algumas vezes já ia do aeroporto direto para o bar. Uma vez ficou tão louco que perdeu show que iria fazer no Teatro Alberto Maranhão.

O vatapá dos sábados
No sábado a galera legal de Natal ia toda pra Ponta Negra. Chegavam na praia às 11 horas. Quando dava 5 horas da tarde, eu fazia um vatapá pra galera. Subia todo mundo. O pessoal do vôlei, do frescobol. Minha mãe e minha irmã que faziam o vatapá. Era um sucesso também. E de noite a gente promovia os shows. Fiz um palquinho, o pessoal ficava na areia. O Modus Vivendi, do Carito, arrasava. Tocaram muito lá. General Lee (depois General Junkie) tocaram lá várias vezes também. Os shows eram só nas noites de sábado. Nos outros dias rolava vinil e fita K7. Só rock, que era o que eu mais curtia nos anos 80. Simple Minds, Simply Red, Pet Shop Boys, U2, Titãs.

Noites históricas
Tivemos muitas noites especiais. Já fizemos aula da saudade no bar. Foi de uma turma de Direito. Pense numa festa doida! Vez por outra encontro aqueles universitários por aí, tudo de terno e gravata, e me lembro da festa lá no bar. Outras noites bacanas foi no tempo de um festival de cinema que aconteceu no Centro de Convenções. Quando acabava as sessões o pessoal ia para o bar. Atores e cineastas de fora, o pessoal de Natal. Cheguei a pegar muito cartaz de filme para pregar no bar. Era cheio.

Over Night
Foi um tempo muito bom aquele. Durou três anos. Três verões muito doidos. Depois abri outro bar, o Over Night, em Petrópolis. Ficava na lateral daquele posto de gasolina em frente o Centro de Turismo. Antes ali era outro bar, o Castelinho. Naqueles anos o Centro de Turismo bombava com a boate Pool. Ai antes da boate o pessoal começava a noite no Over Night. Abri esse bar com as coisas do Vila Negra. Tive a sorte de abrir esses bares próximos à lugares legais, bem movimentados. Depois me aposentei da noite. Trabalhei com hortifrutigranjeiros. Mas continuei fazendo umas festa. Cheguei a promover o Feijão Amigo, no Berlin Bar, de Lourdinha Alencar. E atualmente, no carnaval, eu sou diretor de bloco do Jardineiros e do Ressaka, no projeto Grandes Carnavais, de Sérgio Coxinha.

Colaborou: Cinthia Lopes, Editora 

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