Oswaldo, 100 anos

Publicação: 2019-11-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Filho de Juvenal Lamartine de Faria e Silvina Bezerra, Oswaldo Lamartine deixou numa frase de algumas palavras a síntese perfeita de sua biografia: “Sou sobejo da seca de 19, o último de uma ninhada de dez”. Nasceu a 15 de novembro de 1919, há um século.

Oswaldo Lamartine

Uma noite, nas redes do alpendre de sua Fazenda Acauã, depois de jantar a coalhada do leite de Riacho do Cedro, a terra vizinha, do seu sobrinho Octávio, ouvi de Oswaldo Lamartine um dos mais belos relatos sobre o sertão. A fresca da noite esfriava o mormaço das telhas e um enxame de besouros circulava a lâmpada do poste em frente da casa, anunciando a chuva que ele sabia esperar todas as manhãs olhando de madrugadinha o orvalho nas folhas das suas craibeiras.

Falou sobre o inverno. A epifania do sertão reverdejando, a babugem explodindo, o vento adejando os galhos dos umbuzeiros, soprando vida por toda parte. Reclamou da chuva no mar - “o roçado do cão”, que ouviu de um velho morador de Lagoa Nova, a fazenda do pai, ali bem perto. Um mundo sem fim de dez mil hectares. E completou, sem soberba, mas vaidoso: “Era tão grande, seu Serejo, que do alto da parede do açude os olhos iam bater lá nas paredes do céu”.

Então descobri, seguindo em silêncio cada palavra, que embora gostasse do sertão de inverno, era na seca, no mundo cinzento dos vaqueiros, que encontrava a beleza heráldica para os olhos. O verde é bonito, disse, mas universal. E acrescentou: igual a todos os verdes do mundo. Na caatinga esturricada, não. É a grandeza trágica da paisagem, embalada pelo canto triste da rasga-mortalha agourando a vida, tangendo aquele mundo que agoniza debaixo dos lajedos.

Confessava que não gostava de dizer de público esse seu gosto esquisito. Parecia que preferia a seca diante do sofrimento dos homens e dos bichos. Disse, como se quisesse ao menos apascentar seus temores, que para ele a seca era a estética do sertão. Por isso é estranhamente bela, um território real e ao mesmo tempo mágico, lugar de mitos e abusões. Uma civilização inóspita e arcaica, a renascer a cada chuva que vem molhar a vida e o instinto de sobrevivência.

Aprendi ali que o sertão de Oswaldo Lamartine tinha o sentido desafiador e trágico, bruto e ao mesmo tempo sublime, feito de uma solidão de pedra nas horas que se alternam entre a vida e a morte. Então compreendi, naquela noite que ficou como um instante de profunda revelação o homem e o sertão. O sertão que ele carregava no mais escondido da alma, coberto pela saudade da infância - o território perdido que teimava em manter vivo num desespero triste e calado.

A saudade parecia ferir o homem feito, lembrado do sertão que trazia nos olhos desde menino. Fomos juntos na sua última viagem ao Ingá, a fazenda da infância. Caminhou até depois do alpendre, parou, ficou de pé, como se ouvisse o silêncio das oiticicas, alisando com os olhos, longamente, a Serra do Bico da Arara. Lá longe, recortando aquele azul profundo do seu paraíso nunca esquecido. E disse apenas, como se fosse um adeus: “Tomara que o céu seja assim”.

SERTÃO - As homenagens da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras começam dia 19, às 17h, com a conferência sobre ‘O Sertão e Os Sertões em Oswaldo Lamartine’, seguida de uma mesa, às 18h, reunindo as falas de João Batista Cabral, Tarcísio Gurgel e o editor Abimael Silva.

SERTÕES - Dia 3 de dezembro, às 16h, a mesa com as intervenções do padre e escritor João Medeiros Filho, Daladier Cunha Lima, Marize Castro, Marcos Lopes, Woden Madruga e o filho de Oswaldo, Cassiano Lamartine. Falas sobre sua fé e a sua obra, a grande memória do sertão.

ABRAÇOS -Depois da segunda mesa, no dia 3, será lançado o livro ‘Abraços’, organizado por Dácio Galvão - as cartas, cartões e bilhetes de Oswaldo para o seu grande amigo Hélio Galvão. A edição de O Galo, da Fundação José Augusto, homenageia Oswaldo Lamartine em dezembro.




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